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Sábado, 24 de agosto de 2024

Atualizado: 25 de jan.

O dia da graduação da Turma de Mestrado da CBS de 2024 finalmente chegou. A cerimónia realizou-se num dos espaços mais emblemáticos de Copenhaga, o Lokomotivværkstedet. Este edifício histórico, outrora uma oficina de locomotivas, transformou-se num espaço multifuncional, vasto e imponente, com um teto alto, vigas de ferro expostas e uma arquitetura industrial que conferia ao evento uma atmosfera única. Os holofotes estavam todos direcionados para o palco, onde uma cortina vermelha se estendia por detrás do púlpito, contrastando com as paredes rústicas de tijolo exposto. As luzes pendentes do teto, longas e finas, criavam um ambiente sofisticado, ao mesmo tempo que mantinham uma certa nostalgia do passado industrial do edifício. O ambiente estava carregado de uma aura de antecipação e orgulho. As famílias e amig@s d@s estudantes preenchiam o espaço até ao último canto, ocupando as longas fileiras de cadeiras dispostas entre a plateia e o palco. Os rostos brilhavam com emoção; havia olhos marejados, sorrisos incontidos, e alguns/algumas seguravam nervosamente os programas da cerimónia nas mãos.


Um verdadeiro mar de pessoas, cada uma perdida nos seus próprios pensamentos, memórias e sonhos para o futuro d@s seus/suas. Era uma sinfonia de emoções em uníssono, onde o murmúrio constante de vozes sussurrava histórias de esforço, dedicação e amor. No centro de tudo, estava a Gargi. Estava deslumbrante, envolta na sua toga preta, o cabelo a repousar-lhe sobre a cabeça, com a tranquilidade de quem sabia que aquele era o seu momento. Ela personificava o fim de uma era e, ao mesmo tempo, o início de algo grandioso. Quando a Diretora de Educação a chamou ao palco, um murmúrio percorreu a multidão. “Era ela? Não sabia… mas claro que tinha de ser ela,” ouvia-se. A admiração e surpresa ecoavam entre @s presentes, como se tod@s reconhecessem, de repente, o mérito daquela nomeação. Eu senti um aperto no peito enquanto ela se movia em direção ao palco. As luzes do auditório pareciam diminuir, e por um breve momento, tudo à minha volta desvaneceu-se. Só conseguia vê-la, a caminhar com uma confiança e dignidade inabaláveis, como se soubesse, desde o primeiro dia, que aquele era o seu destino.


Cada passo que ela dava era a concretização de um sonho que tínhamos partilhado ao longo dos últimos anos, uma caminhada feita de perseverança, trabalho árduo e, acima de tudo, amizade. Era como se cada movimento seu no palco fosse um símbolo de todas as batalhas que enfrentámos junt@s, uma manifestação viva daquilo que significa superar obstáculos e alcançar o sucesso. Ela era a Valedictorian, a voz da sua turma, a representante daquilo que tod@s aspiravam ser. Não havia ali apenas um reconhecimento académico, mas também um testemunho da sua capacidade de liderança, da sua força interior e da sua dedicação aos/às outr@s. O seu discurso foi uma mistura perfeita de emoção e eloquência. Ela falou dos sacrifícios, das noites intermináveis de estudo, dos desafios que enfrentámos junt@s, e ao ouvi-la, as memórias começaram a desfilar pela minha mente como um filme em câmara lenta. Lembrei-me das noites em branco, das conversas profundas no café da esquina, onde discutíamos os nossos medos e sonhos, das gargalhadas, e até das lágrimas que vertemos quando o peso do mundo parecia demasiado para aguentar.


A Gargi estava ali, a falar sobre tudo o que havia construído, e eu sentia que, de certa forma, estava também a falar por mim, pelas nossas lutas, pelos nossos triunfos. Havia um peso nas suas palavras, uma sinceridade crua que tornava difícil não me emocionar. Cada frase era um convite à reflexão, uma chamada de atenção para o que realmente importa: as pessoas que nos rodeiam, as ligações que fazemos, e o impacto que temos uns/umas n@s outr@s. Enquanto a Gargi falava, olhei à minha volta e observei as famílias d@s outr@s estudantes. Pais/mães de mãos dadas, irmãos/irmãs mais nov@s em pontas dos pés, esforçando-se para ver melhor a ação no palco, avós com lenços nas mãos, limpando discretamente as lágrimas de orgulho que lhes escorriam pelos rostos. Havia risos abafados, abraços apertados, e olhares que diziam mais do que qualquer palavra poderia expressar. Vi pais/mães a apertar as mãos d@s filh@s com força, como se quisessem segurar aquele momento para sempre, e outr@s com sorrisos largos, misturados com a inevitável nostalgia de verem os seus rebentos a tornar-se adult@s.


Aquela visão era como uma janela para o futuro, um vislumbre do que poderia ser o meu próprio dia de graduação. Por um instante, imaginei-me ali, naquele mesmo palco, um ano depois. Será que eu teria a minha família presente? Será que @s meus/minhas pais/mães, o meu irmão, @s meus avós estariam sentados naquelas cadeiras, a olhar para mim com o mesmo orgulho que eu via nos rostos à minha volta? Ou estariam el@s longe, do outro lado de um ecrã de telemóvel, numa videochamada cheia de interferências e ruído, a tentar partilhar comigo aquele momento à distância? Senti um aperto no coração. A ideia de não ter a minha família ali, comigo, a partilhar aquele dia, assombrou-me. Era um pensamento que me tirava o fôlego, que fazia com que toda a glória daquele momento perdesse um pouco do seu brilho. No entanto, ao ver aquelas famílias unidas na celebração, percebi o quanto aqueles laços significam para mim. O quão essenciais são para a pessoa que me tornei e para quem quero ser no futuro. A ausência física seria dolorosa, sim, mas a verdade é que a ligação que temos vai muito além da presença num só lugar.


A Gargi continuou o seu discurso, falando sobre a importância de avançar, de levar connosco as lições e as amizades que construímos ao longo deste percurso. Cada palavra dela ecoava pelo salão, atingindo tod@s @s que a ouviam, mas para mim, as suas palavras carregavam um peso especial. Sentia-me dividido. Por um lado, havia um orgulho imenso ao vê-la ali, a minha amiga, a minha companheira de tantas aventuras, a dar aquele passo tão importante. Era impossível não sorrir ao vê-la tão confiante, a projetar para tod@s nós a visão de um futuro cheio de possibilidades. A Gargi, a líder nata, a pessoa que sempre soube unir as pessoas à sua volta, estava agora a brilhar como nunca. Por outro lado, uma tristeza latente invadia-me, uma consciência aguda de que ela estava a seguir em frente para um mundo novo, enquanto eu ficaria na CBS por mais um ano. Um ano inteiro a percorrer os mesmos corredores, a cruzar-me com as mesmas caras, mas desta vez sem ela ao meu lado. Olhei para ela, tão segura, tão serena, e percebi que este era o início do seu caminho, e, inevitavelmente, um ponto de viragem para a nossa amizade.


Ela iria começar a trabalhar na Accenture, mergulhar num mundo de reuniões, projetos e novas pessoas. A sua vida estava prestes a encher-se de novas experiências, de desafios que a fariam crescer ainda mais. E eu? Eu ficaria para trás, a trilhar o mesmo caminho, mas agora com uma sensação de vazio. A cerimónia prosseguiu, com mais discursos, mais aplausos, mas para mim, tudo se tornava um ruído de fundo. Eu estava ali, sentado, absorto nos meus pensamentos, a tentar processar aquela mistura de emoções. O tempo parecia esticar-se e ao mesmo tempo escapar-me entre os dedos. Sentia-me num limbo, preso entre a alegria do momento e a melancolia da despedida. Quando, finalmente, a cerimónia chegou ao fim, vi as famílias e amig@s correrem para @s graduad@s. A Gargi desceu do palco e foi imediatamente envolvida num mar de pessoas que a abraçavam, que a parabenizavam, que tiravam fotografias para eternizar aquele momento. Eu fiquei onde estava por alguns segundos, apenas a observá-la à distância. Vi-a a sorrir, a rir, a chorar. Vi-a ser envolvida num turbilhão de emoções, e senti um orgulho imenso.


Ela estava a viver o seu momento, o momento que sempre mereceu. Mas, ao mesmo tempo, um vazio instalou-se em mim. Não sei quanto tempo fiquei ali, parado, apenas a vê-la, mas em algum momento, ela olhou na minha direção. Os nossos olhares cruzaram-se e, com um sorriso sereno, acenou para mim. Foi como se, por um instante, todo aquele mundo se desvanecesse novamente, e fôssemos apenas nós, @s amig@s que partilharam tantos momentos, que cresceram junt@s, que se apoiaram nas horas boas e más. Naquele aceno, naquele simples gesto, estava tudo. Estava a amizade que construímos, a certeza de que, independentemente dos caminhos que seguíssemos, aquele laço permaneceria. Foi um momento de compreensão silenciosa, um acordo tácito de que, mesmo separad@s pela distância, continuaríamos a fazer parte da vida um(a) d@ outr@. E ali, no meio de toda aquela confusão, senti uma estranha paz. Sabia que a Gargi estava a partir para algo maior, e isso enchia-me de felicidade. Sabia que eu ficaria na CBS, a trilhar o meu próprio caminho, e isso, de alguma forma, também me fazia sentido.


Enquanto a Gargi se preparava para sair com a família, abraçou-me uma última vez. “Eu sei que vais reinar na CBS este ano, Duarte,” disse ela, com um brilho nos olhos. “Esta é a tua vez de brilhar.” E eu sorri, tentando afastar a tristeza e a incerteza que me assaltavam o coração. Ela tinha razão. Era a minha vez. A Gargi tinha-me passado o bastão, e agora era a minha oportunidade de correr, de liderar, de ser o rosto que @s nov@s estudantes veriam no primeiro dia. Era o meu momento de fazer a diferença, de deixar a minha marca. Senti-me invadido por uma energia renovada, uma vontade de agarrar o meu destino com ambas as mãos. Amanhã marca o início do meu último ano na CBS, e eu sou o rosto principal do Welcome Event para @s nov@s estudantes internacionais. Sinto um misto de orgulho e responsabilidade a encher-me o peito. Este é o meu momento de lhes mostrar o que significa fazer parte desta comunidade vibrante e inclusiva. De ser um líder, não apenas em título, mas em espírito e ação. É a minha vez de ser a voz que acolhe, que guia, que inspira, não como o amigo da Valedictorian, mas como alguém que faz a diferença.


Tenho a oportunidade de ser o Duarte Carrasco que sempre aspirei ser: o estudante no topo da cadeia alimentar da CBS, o líder que faz a diferença, o rosto que personifica tudo o que esta universidade representa. Sim, hoje é o fim de um capítulo. Um capítulo recheado de memórias, de risos e lágrimas, de desafios e conquistas. Mas é também o início de algo novo. Um novo capítulo onde eu, Duarte Carrasco, sou o protagonista da minha própria história. Onde enfrento os desafios de frente, sem hesitações, com a força e a coragem que a Gargi sempre viu em mim. O próximo ano estende-se à minha frente como uma estrada desconhecida, repleta de oportunidades e obstáculos. E eu, cheio de uma confiança recém-descoberta, estou pronto para percorrê-la com tudo o que tenho. Porque, afinal, é agora a minha vez de brilhar. De ocupar o meu lugar, de ser a luz que ilumina o caminho d@s outr@s. E um dia, tudo é novo, mas algo é certo: tive o que querias, o teu fim está tão perto.

 
 
 

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