Segunda-feira, 24 de novembro de 2025
- Duarte Carrasco
- há 5 dias
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Hoje, faço 25 anos. É curioso pensar que tinha 16 quando saí de casa pela primeira vez, 19 quando entrei para o TikTok, 21 quando lancei a minha primeira paródia musical, 22 quando escrevi a primeira entrada deste diário, e agora já passaram mais três anos num piscar de olhos. Passei o fim de semana – de sexta a segunda – em Edimburgo, na Escócia, e ainda não voltei completamente a mim. Este semestre tem sido tão louco… mas no melhor sentido possível. Para dar um exemplo, há poucos dias comentei um vídeo no Instagram do candidato presidencial João Cotrim Figueiredo, referindo que, ao contrário de outr@s candidat@s, ele traz experiência para lá do setor público, construiu uma carreira no privado, subiu a pulso e, por isso, conhece como pouc@s @s portugues@s, os seus problemas e as suas ambições. Ele respondeu: “Presidente de Portugal, podes ser Presidente a seguir a mim! Abraço.” – e começou a seguir-me. Adorei o fair play. E esta interação é apenas uma amostra do quão imprevisível a minha vida tem estado. Em números, cheguei hoje às 10 000 conexões no LinkedIn. Grão a grão, enche a galinha o papo.
Este verão, gravei a minha sétima paródia musical, comparticipada pela Bolsa de Promoção de Talento PROJETA-TE da Cascais Jovem, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais. O programa tem como objetivos ajudar jovens a descobrir o seu potencial criativo e inovador através da experimentação, da identificação do próprio talento e do contacto com processos artísticos numa fase ainda amadora; e sensibilizar @s jovens para a importância de desenvolverem competências pessoais, vocacionais e sociais. Fiquei genuinamente surpreendido por a Cascais Jovem ter acreditado em mim – afinal, tratava-se de uma paródia satírica, não de um vídeo de um(a) cantor(a) profissional –, mas entrei na onda e dei o melhor de mim. Com a colaboração da minha tia querida, Lili Caneças, fiz um verdadeiro brilheirete; recorrendo a um cameraman profissional e a uma empresa de figuração, transformei uma festa de verão no cenário perfeito para uma versão portuguesa de “Shake It Off”. Ri-me imenso e nunca pensei descobrir em mim uma veia de realizador. Agora sim, sou um verdadeiro criador de conteúdo.
Mas o que realmente me encheu o coração no dia da festa de verão – aquela que serviria de cenário para o videoclipe – foi ver a quantidade de amig@s que apareceram para me celebrar. Como já tinha referido, este ano saí finalmente do armário. Isso trouxe-me, por um lado, uma sensação enorme de liberdade e tirou-me um peso gigante de cima; por outro, trouxe também a ansiedade de que as pessoas da minha vida – especialmente @s portugues@s com quem cresci em Cascais, vind@s de meios mais conservadores – pudessem não aparecer ou nem sequer responder ao meu convite. Convidei até mais gente do que o habitual, com medo da vergonha que seria se ninguém viesse e ficasse apenas eu e @s pouc@s figurantes que consegui contratar com o meu orçamento curto. E, de repente, quando olho para trás e me lembro de mais de cinquenta pessoas que passaram pela festa ao longo da noite, fico tão, mas tão feliz. Senti como se, durante anos, eu me tivesse estado a preparar para este momento, aproximando-me das pessoas que, por instinto, sabia que estariam sempre lá para mim – e acertado em cheio. Foi uma revelação enorme.
Falando em instinto, sinto que se tem tornado o meu superpoder. Apesar de haver dias mais aborrecidos, outros mais ansiosos e outros simplesmente chuvosos – com aquele frio gelado dinamarquês – percebo que todas as decisões importantes da minha vida foram tomadas muito por instinto: “O que é que o meu coração me diz?”. E, até agora, o coração tem estado sempre certo. A cabeça poderia ter-me trazido para a Dinamarca pela razão óbvia da Copenhagen Business School ter ótimos rankings entre as business schools internacionais; mas foi o coração que me fez ficar, aprender a língua, criar raízes, encontrar um namorado dinamarquês e, quase sem dar por isso, ligar-me a uma família nórdica – a mesma a quem dei apoio há dias quando o cão del@s partiu e que hoje também me dá os parabéns. É bom saber que, escolha após escolha, me tornei na pessoa que sou hoje: alguém de quem tenho orgulho quando me olho ao espelho. Talvez pudesse estar “mais à frente” para a minha idade, mas sinto que estou exatamente onde devo estar. E, voltanto ao instinto, é esse bichinho que me traz conforto mesmo no desconforto.
De igual modo, soube-me muito bem ver a minha mesa de anos aqui na Dinamarca antes de ir para a Escócia na sexta-feira. Na quinta à noite, no restaurante do costume – o Bouillon, um francês em Frederiksberg, perto da minha faculdade – a mesa estava cheia de caras amigas que quiseram celebrar os meus 25. Houve um comentário que ouvi uma ou duas vezes nessa noite: “Duarte, porque é que todos os anos eu não conheço ninguém nas tuas festas e é sempre gente nova?”. Parte do motivo é que muit@s d@s meus/minhas amig@s na Dinamarca são muito viajad@s: a Ella vive em Barcelona, a Gargi está agora a trabalhar em Londres, e assim sucessivamente. Mas também é verdade que este ano decidi focar-me mais na qualidade do que na quantidade e, por isso, convidei grupos de amig@s que antes talvez não juntasse, mas que fazem toda a diferença para a dinâmica do jantar: menos gente de sítios diferentes, mais pessoas que já se conhecem entre si. E reparei numa coisa: d@s 19 convidad@s, apenas cinco não eram dinamarques@s e só um era português – o Simão, que, por acaso, também é de Cascais. A Teresa Seco estava ocupada.
Não posso deixar de escrever sobre a minha oitava paródia musical, lançada hoje, que é, sem sombra de dúvidas, a mais complexa de todas – uma espécie de confissão na voz de alguém que já sofreu abuso de poder e que, agora em posição de autoridade, agradece ao/à causador(a) da dor por o ter levado até onde chegou. Relendo a letra, apercebo-me de como este narrador se move entre a inocência ferida e a frieza estratégica, começando num registo quase ingénuo – “Preencheste o meu vazio / Conhecer-te abriu-me os olhos” – para depois revelar camadas de desilusão acumulada. A repetição de “Priorizo as minhas amizades / Escolhe-me a mim” funciona como um mantra desesperado de alguém que aprendeu cedo que o valor, tanto na escola como na vida, ou na “escola da vida”, é medido pelas escolhas alheias. O refrão soa a súplica e a ambição ao mesmo tempo: uma mão estendida que tanto pede aceitação como reivindica território. Mas o que mais me prende é a viragem narrativa: aquele momento em que o cordeiro começa a uivar e percebemos que a competição inocente se tornou sobrevivência pura.
O verso “Ambição ilimitada / Tornou-me uma ameaça” concentra toda a tensão moral do tema – a consciência de que, muitas vezes, crescemos não graças à bondade do mundo, mas apesar dela. E quando a letra admite a queda, a substituição e a violência simbólica – “Pisaste, deixaste-me cair / Para me substituíres a mim” – transforma-se num retrato cru da adolescência: um espaço onde lealdades são frágeis e a glória dura o tempo de um sopro. O final fecha com uma ironia brilhante – “Foi graças à tua ilusão fatídica / Que transpiro potencial” – uma espécie de agradecimento envenenado que subverte o trauma em combustível. Ao cantar isto hoje, aos 25, sinto que dou voz a uma parte de mim que nunca foi propriamente vingativa, mas que sempre guardou memória. É quase terapêutico: transformar dores antigas em humor afiado, e inseguranças velhas em narrativa pop. É o privilégio de quem cresceu, olhou para trás e consegue, finalmente, rir do que um dia doeu. Porque, para mim, estes 25 anos representam a capacidade de transformar cicatrizes em palco e continuar a avançar, com leveza, para o capítulo seguinte.
Este ano, houve um momento que, de forma indireta, me abriu os olhos para a fragilidade do espaço público e para a facilidade com que o humor se transforma em campo de batalha: o caso Joana Marques x Anjos. De um lado, a Joana, humorista cuja sátira vive de desmontar exageros; do outro, os Anjos, dupla de irmãos músicos que reagiu com uma intensidade quase desproporcional, como se a crítica fosse um ataque à sua sobrevivência artística. E foi aí que me apercebi de onde estava o meu lugar: fiquei totalmente do lado da Joana. Não achei graça nenhuma ao facto de terem avançado com um processo judicial – não só porque me pareceu um exagero monumental, mas porque, no limite, coloca em risco a liberdade de expressão, tanto no humor como no debate público em geral. A comédia não existe para servir confortos; existe para testar limites, provocar reflexão e, às vezes, irritar. Adoro a Joana, e se um dia for parar ao “Extremamente Desagradável”, será de muito bom grado – até porque, convenhamos, seria sinal de que fiz alguma coisa suficientemente marcante para merecer esse roast.
Este episódio fez-me olhar para dentro com uma clareza nova, porque aos 25 começo finalmente a perceber que a maior conquista não é ser admirado, mas ser livre da necessidade de o ser. Ao ver a maneira desproporcional como os Anjos reagiram, percebi como é frágil viver dependente da opinião alheia, como basta uma frase fora do sítio para desmontar a imagem que construímos com tanto zelo. E eu não quero passar a vida a defender uma reputação; quero construir um caráter. Quero chegar a um ponto em que uma crítica, um comentário mordaz ou até uma sátira sobre mim não seja um terramoto, mas apenas mais um sinal de que estou vivo, presente, relevante. E, aos 25, é isso que eu ambiciono: não ser intocável, mas ser sereno; não ser unanimemente querido, mas profundamente íntegro; não ser blindado, mas consciente. Quero ter a capacidade de ser criticado sem me desfazer, elogiado sem me iludir e, sobretudo, quero que o meu valor venha de dentro – das escolhas que faço, da verdade com que vivo, da liberdade com que abraço quem sou. A paz interna é um chão firme onde posso, finalmente, caminhar sem medo.
Hoje, não sinto que tenha a minha vida toda decifrada – longe disso –, mas sei que sou feito de encontros, de vozes, de presenças, de gestos que me moldaram. Estou aqui, ainda a inventar-me, ainda a caminhar, e sei que o próximo ano vai valer a pena. Foram as pessoas que me deram luz em dias escuros, que me arrancaram gargalhadas quando o corpo pedia silêncio, que me ensinaram que a vulnerabilidade pode ser um ponto de partida e não um fim, e que não existe maturidade sem o risco de nos mostrarmos inteir@s. Percebo agora que a beleza de fazer 25 não está em dominar a vida, mas em nos reconciliarmos com a sua imperfeição – em entender que não precisamos de respostas definitivas para continuar a avançar. Crescer é, afinal, este processo contínuo de desaprender certezas e reaprender esperança. E levo comigo a serenidade de quem sabe que o melhor ainda está por vir.

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