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Domingo, 25 de janeiro de 2026

  • Foto do escritor: Duarte Carrasco
    Duarte Carrasco
  • 25 de jan.
  • 7 min de leitura

No dia em que fiz 25 anos e publiquei “De Bem Com a Vida”, senti uma estranha e pesada sensação de encerramento. Como se tivesse acabado de escrever a última frase de uma história que vinha a contar há anos, sem nunca saber exatamente onde queria chegar, apenas sabendo que precisava de continuar. Pela primeira vez, tudo me pareceu completo, fechado, quase irrecuperável. A letra da minha oitava paródia musical estava cheia de despedidas disfarçadas de ironia – “Adeus e um queijo da Serra”, “Obrigado, foi graças à tua ilusão fatídica que transpiro potencial” – como se estivesse a agradecer ao passado antes de lhe virar as costas. O vídeo terminava com imagens que ainda hoje me pesam no corpo: o último abraço a quem, durante anos, foi família sem o ser por sangue; o adeus definitivo a alguém que amei num tempo que já não existe, gravado no momento exato em que regressava do Equador para Portugal, na altura sem saber que nunca mais nos voltaríamos a ver. Tudo ali parecia carregado de intenção, de consciência, de um silêncio final difícil de ignorar. Tudo ali parecia dizer o mesmo, sem margem para dúvida: acabou.


No entanto, com a viragem do ano, algo dentro de mim começou a resistir a essa ideia de fim. A história que eu julgava encerrada parecia apenas suspensa, à espera de ser retomada no momento certo. Havia dias em que sentia que estava a trair a despedida que tinha feito, outros em que percebia que talvez nunca tivesse sido um adeus verdadeiro. No dia 8 deste mês, um dia antes de regressar a Copenhaga depois de um mês inteiro de férias em Cascais, anunciei a “Reger Por Cima”, a minha nona paródia musical, quase sem dar tempo ao corpo para processar o que estava a acontecer. Fi-lo no mesmo podcast onde, exatamente três anos antes, tinha anunciado a “Lista Negra”, como se o tempo se tivesse dobrado sobre si próprio e me tivesse colocado novamente no mesmo ponto da estrada. O paralelismo era demasiado evidente para ser ignorado e trouxe consigo uma sensação estranha de inevitabilidade. Não senti entusiasmo puro, nem medo absoluto, apenas a consciência de que, apesar de todas as tentativas de encerramento, havia um caminho que insistia em continuar.


Quando regressei à Dinamarca e partilhei excertos da minha participação no podcast, sabia – mesmo que não o quisesse admitir – o que estava prestes a acontecer. O backlash surgiu rápido, quase automático, como se fizesse parte do ritual de existir publicamente. Comentários maldosos, interpretações enviesadas, vídeos inteiros construídos à custa de segundos arrancados do contexto, analisados por pessoas que confundem cinismo com humor. O foco foi numa parte específica da conversa, aquela em que falava da solidão e da dificuldade de criar amizades na Dinamarca, um país onde as relações se constroem devagar e onde o frio raramente é apenas meteorológico. Durante anos, a minha sensibilidade à crítica foi tão extrema que reagia de forma quase instintiva a qualquer comentário maldoso, a qualquer tentativa de me diminuir – foi dessa ferida que nasceu, inclusive, “Estou Bem Melhor Que Tu”. As opiniões d@s outr@s sempre me consumiram, porque pessoas inseguras têm egos frágeis e, quando esse ego é ameaçado, a tentação de vestir o papel de vítima torna-se quase irresistível.


E isso torna-se especialmente desconfortável quando olho para o meu percurso com honestidade e reconheço o privilégio que sempre me acompanhou. Tive apoio familiar, estabilidade emocional e financeira, acesso a oportunidades raras e uma carreira académica e profissional que muit@s da minha geração nunca chegarão a tocar. Nada disso me foi retirado; pelo contrário, foi-me constantemente reforçado. E, ainda assim, quantas vezes me apresentei como alguém injustiçado, atacado, incompreendido, como se estivesse sempre a lutar contra um sistema que, na verdade, tantas vezes jogou a meu favor. Com todos os elogios e conquistas acumulad@s, fui capaz de construir uma narrativa onde eu próprio surgia como vítima, convencendo-me de que tinha sido prejudicado, de que algo me era devido. Embora reconheça que a internet e certos contextos – como a política estudantil na CBS – tenham sido exigentes, até agressivos por vezes, sei também que a minha dor raramente ultrapassou despedimentos, desilusões ou relações que não resistiram ao tempo. Não é uma dor estrutural, não é uma ferida que comprometa a sobrevivência ou a dignidade.


Talvez por isso tenha sido tão duro ouvir que eu não sei o que é estar verdadeiramente deprimido. Porque essa frase não nega a minha tristeza; apenas expõe os limites dela. E há verdades que magoam precisamente porque nos obrigam a abdicar da narrativa confortável que construímos sobre nós própri@s. As opiniões d@s outr@s sempre tiveram um peso desproporcionado na forma como me vejo. A insegurança tem este efeito perverso: faz-nos acreditar que estamos permanentemente a ser observad@s, avaliad@s, julgad@s, mesmo quando ninguém está realmente a olhar. Cresci rodeado de validação, de conquistas visíveis, de reconhecimento precoce, e ainda assim aprendi – quase instintivamente – a ocupar o lugar da vítima com uma facilidade desconcertante. O meu ego, frágil mas bem vestido, habituado a aplausos e aprovação, confundiu confronto com ataque e crítica com injustiça. Convenceu-me vezes demais de que estava a ser alvo de algo maior do que eu, quando, na maioria das vezes, estava apenas a ser confrontado com as consequências das minhas próprias palavras, escolhas e excessos.


Quando me ouvi a falar d@s dinamarques@s como pessoas sem sal, sem personalidade, percebi – tarde demais – o privilégio implícito nessas palavras. Disse-as com ligeireza, quase como quem desabafa entre amig@s, esquecendo-me de que já não falo apenas para quem me conhece, mas para quem me observa à distância. Muit@s d@s que me ouviam são portugues@s que sonham com a vida que eu levo, com o país onde estou, com as oportunidades que, para mim, se tornaram rotina e, por isso mesmo, banais. A minha queixa soou a ingratidão, a um pedido de compaixão deslocado, vindo de alguém que, aos olhos de muit@s, já tem mais do que o suficiente. Não foi apenas o conteúdo das palavras que afastou as pessoas, foi o desfasamento entre a minha experiência e a realidade de quem me escutava. Pela primeira vez em muito tempo, senti o público afastar-se – não com raiva, nem com ódio, mas com cansaço. Um cansaço silencioso, difícil de contrariar, como se dissessem, sem precisar de o escrever: isto já não nos chega, isto já não nos representa, isto já não nos toca.


E é aqui que a pergunta se torna inevitável e impossível de adiar: se tenho tanto, porque continuo a sentir falta de mais? Talvez porque nunca aprendi a descansar dentro das minhas próprias conquistas, a habitá-las sem imediatamente procurar a próxima. Há em mim uma obsessão antiga pelo legado, pela ideia de que tudo o que faço tem de deixar marca, de que passar despercebido é falhar, de que parar é desaparecer. Cresci a aprender, de forma subtil mas constante, que o sucesso é instável, condicional, sempre dependente do próximo resultado, da próxima validação, do próximo aplauso. Nada parecia garantido, tudo poder-me-ia ser retirado a qualquer momento. Isso cria uma urgência silenciosa, uma pressão contínua para produzir, para provar, para justificar a própria existência. Mesmo quando o reconhecimento chega, quando os objetivos são alcançados, a sensação não é de saciedade, mas de vigilância. O prato pode estar cheio, mas o corpo continua em estado de fome, treinado para acreditar que nunca é seguro parar de comer. E talvez seja essa incapacidade de parar que mais me afaste daquilo que, no papel, já deveria ser suficiente.


O perfecionismo agrava tudo. Nenhuma vitória nova traz descanso, apenas eleva o nível de exigência e torna o próximo passo ainda mais pesado. Nada é suficiente por muito tempo, porque o critério muda assim que é alcançado. Quando a identidade se confunde com o desempenho, parar deixa de ser uma pausa e passa a ser uma ameaça, quase como uma forma de desaparecimento. Vivo rodeado de elogios subtis, de validações pequenas mas constantes, que parecem inofensivas à primeira vista, mas que acabam por definir silenciosamente o ritmo do meu valor. Cada “estás a fazer um bom trabalho” funciona como uma âncora emocional, prende-me ao movimento contínuo, à necessidade de provar o meu valor de novo. O problema é que esse sistema só funciona enquanto o aplauso existir. Ao abrandar, a atenção dispersa-se, o silêncio torna-se ensurdecedor e expõe um vazio difícil de encarar. E é nesse vazio que percebo quanto da minha exigência deixou de ser motivação e passou a ser medo. Talvez seja aí que se esconda a parte de mim que ainda não sabe existir sem estar constantemente a render.


Ainda assim, há algo em mim que reconheço como verdadeiro e que resiste a todas estas contradições. Sei criar laços, sei ser leal, sei devolver às pessoas aquilo que me deram – não como estratégia, mas como instinto. O sucesso que tive nunca foi um percurso solitário; é feito de relações escolhidas, de tempo oferecido, de presença real num mundo cada vez mais performativo. Todos os verões, ao abrir a minha casa a pessoas que me acompanharam de forma genuína – amig@s de infância, pessoas da internet que nunca me deveram nada – tento contrariar a lógica da escassez que me habita. Escolho gastar o meu tempo, que sei ser limitado, com quem me viu crescer e não apenas com quem me aplaude. Há uma intenção quase ritual nesses encontros, uma tentativa consciente de ancorar o sucesso em algo humano e palpável. Talvez seja nessa repetição deliberada do gesto que procuro lembrar-me de quem sou quando o barulho abranda. E talvez seja isso que ainda me mantém inteiro – não a imagem, não a controvérsia, não a sensação de ser intocável, mas a capacidade de transformar presença em significado.


Sei que a minha personalidade incomoda, que as minhas escolhas pessoais se tornam públicas, que quem se aproxima ou se afasta de mim acaba por integrar a narrativa que construo, queira el@ ou não. Tenho consciência de que não estou apenas a viver a fama; estou a geri-la, a moldá-la, a decidir o que faço com ela. A paródia musical “Reger Por Cima” não precisa de ser um regresso nem uma despedida. Quero que seja um ponto de viragem – menos defensivo, menos performativo, mais honesto, mais consciente. Não para agradar, nem para provar nada a ninguém, mas para me aproximar de uma forma de existir que não dependa exclusivamente do olhar d@s outr@s. Enquanto aguardo pelo desfecho das presidenciais de 2026 em Portugal, agora já na segunda fase, com António José Seguro frente a André Ventura, tento recentrar-me naquilo que depende de mim. Concentro-me no negócio familiar, a Bubtex, na relação que construo com o Sander – já quase a completar um ano –, no meu trabalho no CBS Leadership Centre e nas atividades que continuo a desenvolver dentro e fora das redes sociais.

 
 
 

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