top of page

Segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Este mês estreou “The Life of a Showgirl”, o novo álbum de Taylor Swift, e enquanto fã obcecado por narrativa, sinto que a magia – e o calcanhar de Aquiles – do disco está numa frase da última faixa: “You don’t know the life of a show girl, babe, and you’re never ever gonna.” Sem querer, esse verso é a tese de tudo. O álbum promete deixar-nos entrar e mostrar o que é ser a pessoa mais famosa do mundo, mas nunca chega a abrir-nos realmente a porta. Ignorei o caos no TikTok, as críticas polarizadas, e as guerras culturais: as cinco estrelas da Rolling Stone pareceram-me exagero, as duas do The Guardian pareceram-me injustas, e desliguei. O álbum confundiu-me ao ponto de precisar de duas semanas para o ouvir em paz e perceber o que realmente penso. Taylor Swift é muito importante para mim – só este ano, lancei a minha sétima paródia musical, “Cascaisfobia ft. Lili Caneças”, baseada em “Shake It Off”, e estou a preparar a oitava, que sairá daqui a um mês, no dia dos meus 25. Talvez por isso esta era me tenha custado tanto a analisar. Quando a emoção se mistura com a expectativa, tudo se torna mais difícil de ver com clareza.


Olhando para o disco sem romantizar, vejo um álbum que é um verdadeiro saco misto. “The Life of a Showgirl” está claramente no meu bottom 3 da discografia de Taylor, mesmo que o tenha em loop desde que saiu. É também o primeiro disco desde “Lover” em que tenho skips completamente intoleráveis. E o problema não é ser pouco sério ou leviano – Taylor sempre soube ser divertida e mordaz ao mesmo tempo. O problema é que, numa parte nada pequena deste projeto, a escrita simplesmente não aguenta: falta-lhe foco. É estranho dizer isto de alguém que construiu toda a carreira a criar “eras”, mundos coerentes nos quais entramos de corpo inteiro. Na minha cabeça, este álbum é um scrapbook: páginas soltas com boas ideias coladas aqui e ali, mas que raramente se unem num objeto único e inconfundível. E acho que isso tem tudo a ver com o ritmo impossível a que ela tem trabalhado. Nos últimos cinco anos, lançou cinco álbuns de estúdio, regravou metade da discografia e fez a maior digressão da História. “Showgirl” soa a fim de semana entre datas de tour – e o cansaço nota-se.


A canção que melhor expõe o que correu mal é “Eldest Daughter”. Sendo a faixa 5, deveria ser – como é habitual em Taylor – o centro emocional do álbum; em vez disso, é uma das entradas mais preguiçosas de sempre nesse lugar simbólico. A música começa com um comentário frouxo sobre cultura online – “Everybody’s so punk on the internet” – e depois derrapa para memórias de infância e promessas românticas vagas, sem qualquer coluna vertebral. A metáfora da “filha mais velha”, que poderia ser um símbolo poderoso de responsabilidade, perfecionismo herdado e pressão para ser exemplo, reduz-se a um slogan. Comparando com “The Archer”, a faixa 5 de “Lover”, percebe-se o abismo de rigor: ali tudo é simples e direto, cada verso serve uma ideia clara de auto-sabotagem e medo de ser verdadeiramente conhecid@. Aqui, em “Eldest Daughter”, o refrão termina num “I’m never gonna leave you now”, que não sabemos a quem se dirige, que promessa é, ou porque é relevante. São palavras que soam profundas até pararmos para pensar nelas. Falta-lhes espinha dorsal.


Houve um tempo, não assim tão distante, em que nem tudo o que Taylor escrevia entrava no álbum. Agora, parece que, se uma canção existe, passa automaticamente à linha de montagem. E o mais irónico é que a duração mais curta de “The Life of a Showgirl” acaba por prejudicar o álbum em vez de o ajudar. Percebo o instinto de fugir a outro “The Tortured Poets Department”, criticado por ser longo e difuso, mas aqui ela foi demasiado ao extremo oposto. Não parece que tivesse vinte ou trinta canções excelentes por onde escolher e cortar; parece antes que tinha um punhado de músicas de que gostava “q.b.” e decidiu que isso bastava para as dar por terminadas. A edição implacável era uma das suas maiores forças. As vault tracks das Taylor’s Versions provaram-no: “Better Man” ficou inicialmente de fora de “RED” porque competia com “All Too Well” e, objetivamente, perdia; “Message in a Bottle” foi cortada porque, ao lado de “22” ou “I Knew You Were Trouble”, não tinha a mesma força; e, em “1989”, deixou “Is It Over Now?” fora da edição standard para proteger a narrativa que queria construir. Para onde foi essa disciplina minuciosa?


Parece-me que Taylor entrou definitivamente na era do “já não tenho nada a provar”, o que é legítimo, mas trouxe uma quebra evidente no controlo de qualidade. Se “The Tortured Poets Department” era excessivo, “The Life of a Showgirl” sofre do problema oposto: está mal cozido. Tem duas ou três canções de nível A, várias de nível B e outras que nunca deveriam ter passado do rascunho. Não acho que Taylor tenha deixado de se esforçar; acho que precisa de parar, deixar o pó assentar e recuperar a precisão que sempre a definiu. Isso nota-se também no centro emocional do álbum: o suposto “muso” não sustenta o peso que lhe é dado. Para um disco tão associado ao namoro com Travis Kelce, este quase não existe nas letras – é mais conceito do que pessoa. Taylor sempre brilhou ao desenhar alguém em três linhas; aqui, pela primeira vez, o amor surge mais como um símbolo de estabilidade do que como um retrato de alguém real. Sinto que está deliberadamente a esconder: protege a vida privada e, ao mesmo tempo, protege a marca. Mas ao escrever à volta da relação, em vez de dentro dela, perde-se profundidade.


No meio deste cenário, “Opalite” destaca-se como a única grande canção de amor a Travis que realmente aterra emocionalmente. Não por acaso, é também o êxito espontâneo do álbum. As pessoas agarraram-se a esta música porque a história é concreta e a produção encaixa perfeitamente na letra. A música soa a luz do dia. Ali, a precisão pop de Max Martin encontra a especificidade de Taylor. Tudo começa com uma imagem simples e brilhante: “I had a bad habit of missing lovers past, my brother used to call it eating out of the trash.” É engraçado, é humano, e pela primeira vez neste disco, ouvimos outra voz além da dela, mesmo que em citação. Há textura, há calor. Depois, ela admite que vivia numa casa assombrada pel@s fantasmas do passado e que sempre ouviu os casais perfeitos dizerem “when you know, you know”; aceita o cliché porque, às vezes, os clichés são verdade. A metáfora “you’re starving ‘til you’re not” – é puro Taylor Swift: uma imagem límpida que sustenta a canção inteira. “Opalite” é a única faixa onde o amor que ela descreve se sente na pele. É aquilo que “Daylight” de “Lover” queria ser e não conseguiu.


A seguir entramos em “Honey” e “W$sh L$st”, e é aqui que a frustração regressa. São duas canções que parecem estar a dois milímetros de serem ótimas, mas nunca chegam lá. “Honey” começa como uma tentativa de recuperar uma palavra usada contra Taylor, num gesto doce e afirmativo, mas vai-se transformando num inventário de mágoas que nunca se alinham numa ideia clara. Gosto do som, adoro a expressão “forever-night stand”, mas a canção, no fim, não sabe exatamente o que quer dizer. “W$sh L$st” é ainda mais confusa: em teoria, fala de ter crescido para lá do materialismo graças ao amor; na prática, soa a ode involuntária à vida de luxo em que Taylor e o namorado vivem – e gostam de viver. No refrão, Taylor diz que o que realmente quereria era ser deixada em paz numa fantasia suburbana com um cesto de basquete no quintal – o oposto do que vemos na realidade, onde @s dois/duas constroem cuidadosamente a imagem de casal global, de estádio e jato privado. “W$sh L$st” é uma performance de desapego feita por alguém que nunca esteve tão mergulhada no seu próprio mundo material.


A ideia de “Actually Romantic” é genial: uma canção sarcástica de amor dirigida à pessoa que é o teu/tua maior hater, invertendo o ódio em obsessão e a obsessão em afeto. No papel, é ouro puro; na prática, a execução fica aquém. A melodia é plana, o refrão não cola e a letra tenta enfiar tantas sílabas em cada verso que quase tropeça só para chegar ao insulto final. Eu adoro a Taylor mesquinha quando está no comando – “Better Than Revenge” continua a ser um hino lendário –, mas, aqui, sinto que Taylor reage mais do que cria. O alvo, alegadamente, é “Sympathy is a knife”, de Charli XCX, que nem é uma canção maldosa; fala sobretudo de insegurança e inveja num ambiente de trabalho onde há sempre alguém que ganha mais, tem um nível de produtividade maior ou é promovid@ antes de nós. Ao transformar isso numa guerra aberta, Taylor acaba por parecer a bully da sala, não a vítima, e o tema perde força. Só a ponte salva a música do naufrágio total – naquele “stop talking dirty to me” há finalmente veneno, humor e carisma. Mas é demasiado pouco para uma ideia que poderia ter sido icónica.


“CANCELLED!” é, para mim, a pior canção do álbum e talvez uma das mais fracas que Taylor lançou nos últimos anos. É cansativa, datada e, acima de tudo, desnecessária. Taylor já escreveu sobre cancelamento em praticamente todos os álbuns desde “reputation”: tivemos a versão raivosa em “Look What You Made Me Do”, a versão triste em “The Archer”, a versão alegre em “Karma” e a espécie de reconciliação serena em “evermore”. Esse ciclo já ficou fechado. O problema de “CANCELLED!” é insistir em revisitar o tema quase dez anos depois, como se nada tivesse mudado, recorrendo a linguagem de 2016 (“did you girlboss too close to the sun?”) e sem qualquer detalhe concreto que a ancore no presente. Pior ainda: não é sequer sobre Taylor, mas sobre pessoas à sua volta que caíram em desgraça, o que, no contexto atual, abre portas a leituras políticas que não lhe fazem qualquer favor. A letra é vaga o suficiente para cada lado projetar nela o que quiser, e a música não compensa essa confusão: a produção é lisa e a melodia não vai a lado nenhum. É o retrato perfeito do que acontece quando já ninguém no estúdio diz: “Isto não chega.”


Apesar de tudo isto, há momentos em “The Life of a Showgirl” que lembram exatamente porque é que Taylor continua quilómetros à frente de toda a gente. “Elizabeth Taylor” e a faixa-título são, para mim, o coração do conceito: brilhantes, afiadas e totalmente comprometidas com a estética “showgirl” – Vegas, glitter e drama. A participação de Sabrina Carpenter é perfeita; as vozes encaixam como se sempre tivessem pertencido ao mesmo universo. Nestes momentos, Taylor olha diretamente para nós e diz: “Eu sei o que valho. Vendo quatro milhões de discos na primeira semana. Estou num patamar intocável.” E é exatamente isso que gostaria de ter ouvido mais ao longo do álbum: uma mulher exausta, sim, mas consciente da própria lenda que está a construir. No fim disto tudo, não acho que “The Life of a Showgirl” seja um mau álbum; acho que é um álbum preguiçoso, feito por alguém que trabalha para lá do limite humano e que se habituou a nunca mais ouvir a palavra “não”. Como fã de longa data, o que mais desejo é que Taylor se lembre porque começou a escrever: não para bater recordes, mas para transformar o íntimo em universal.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Hoje, faço 25 anos. É curioso pensar que tinha 16 quando saí de casa pela primeira vez, 19 quando entrei para o TikTok, 21 quando lancei a minha primeira paródia musical, 22 quando escrevi a primeira

 
 
 
Segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Nesta entrada, quero refletir sobre o que me tem pesado nos últimos tempos, começando pelo desastre do Elevador da Glória. O relatório fala no rebentamento de um cabo, algo que pode acontecer, mas o q

 
 
 
Terça-feira, 15 de julho de 2025

Uma das aprendizagens mais valiosas neste percurso de procura de emprego foi a de compreender, de forma honesta, quais são as minhas...

 
 
 

Comentários


bottom of page