top of page

Segunda-feira, 15 de setembro de 2025

  • Foto do escritor: Duarte Carrasco
    Duarte Carrasco
  • 16 de nov. de 2025
  • 7 min de leitura

Nesta entrada, quero refletir sobre o que me tem pesado nos últimos tempos, começando pelo desastre do Elevador da Glória. O relatório fala no rebentamento de um cabo, algo que pode acontecer, mas o que mais me chocou não foi a falha mecânica: foi a forma como a comunicação social exibiu sem pudor imagens dos destroços, onde se viam vítimas, incluindo crianças, como se o sofrimento fosse espetáculo. Somos um país pequeno e pouco habituado a tragédias desta escala, mas isso não desculpa a falta de respeito por quem morreu e por quem ficou a lidar com o luto. Nas redes sociais, a vergonha continuou: meio mundo transformou-se em especialista de ocasião, distribuindo culpas a gosto, pedindo a demissão do Presidente da Câmara ou atacando a empresa que fez a manutenção nesse dia, tudo com um oportunismo que só se explica por estarmos em ano autárquico. A culpa não morre solteira, é verdade, mas também não precisa de ser arremessada no próprio dia, como se o ruído valesse mais do que o rigor. O que me entristece não é a dúvida sobre o que falhou – isso virá ao de cima – mas perceber que deixámos o bom senso para trás.


Confesso que, no meio do caos informativo, demorei a perceber a verdadeira gravidade do acidente; li que tinha morrido uma pessoa e, embora já fosse trágico, não me parecia um daqueles momentos que param o país. Ainda suspeitei que algo não batia certo, mas só quando comecei a ver líderes mundiais a publicar condolências e o nosso Primeiro-Ministro a agradecer as mensagens – aí senti aquele aperto no estômago, aquele instinto que diz que a realidade é pior do que o que se pensou. E bastou abrir o WhatsApp e ler a notícia que a minha avó tinha partilhado no grupo de família sobre @s quinze mort@s – que entretanto já vão em dezasseis – para tudo fazer sentido e ao mesmo tempo, desabar. Nesse instante, percebi a dimensão do desastre, o peso da perda, e lembrei-me de que, por mais prevenção, rigor e boas práticas que existam, as falhas acontecem. A prevenção existe precisamente porque sabemos que nada é infalível. E, para mim, o essencial é aceitar que a verdade virá com a investigação e que a única resposta adulta é aprender com o erro, corrigir o que falhou e impedir que uma tragédia destas volte a acontecer.


O tema seguinte é o assassinato de Charlie Kirk, um jovem conservador norte-americano que, aos 18 anos, criou o movimento “Turning Point USA” e passou mais de uma década a percorrer universidades para debater com estudantes. Concorde-se ou não com as suas ideias, ele teve mérito: começou numa altura em que ninguém sabia o alcance que as redes sociais poderiam vir a ter e lançou um projeto quase às cegas, movido apenas pela convicção de que era importante criar um espaço de debate. O mais triste veio depois, com as reações: pessoas a celebrar a sua morte, inclusive em Portugal, como se a política tivesse deixado de ser confronto de ideias para se tornar desejo de vingança. Celebrar o assassinato de alguém por causa das suas opiniões é esquecer que, amanhã, poderá tocar a qualquer um(a) de nós. E o mais irónico é que Charlie Kirk debatia, ouvia, respondia; não era extremista, não era supremacista, era apenas conservador – tão legítimo como ser progressista. Eu discordo de muita coisa do que ele dizia, mas sempre admirarei alguém com a coragem de entrar numa universidade e discutir ideias frente a frente.


O que também me impressionou foi ver o outro lado da reação à morte de Charlie Kirk: a quantidade de figuras públicas a lamentarem a sua perda, algo que revela bem o impacto que um jovem de apenas 31 anos conseguiu ter no debate público americano. Há qualquer coisa de inspirador em ver alguém tão novo a ser reconhecido ao mais alto nível pela capacidade de mobilizar, de influenciar e de dar força a um verdadeiro “marketplace of ideas”, como dizia John Stuart Mill. E este é um desses raros casos que mostram que a democracia vive quando há espaço para opiniões fortes, quando as redes sociais são usadas para trocar argumentos e quando até quem discorda é obrigado a estudar e a afiar a sua posição para responder. Kirk moldava a opinião de milhões, e até @s seus/suas crític@s dependiam dele para solidificar as próprias convicções – o que, na prática, eleva a qualidade do debate. Quanto mais reflito sobre o assassinato dele, mais me inquieta perceber como este crime parece nascer diretamente do radicalismo político que tem crescido sem travões, como uma febre que ninguém quer admitir que tem.


@s polític@s deveriam ter muito mais cuidado na forma como falam d@s seus/suas adversári@s, porque quando passam semanas a acusar alguém de ser “extremista” ou “radical”, e a repetir esse rótulo até à exaustão, estão a abrir espaço para algo que não controlam. @s apoiantes com mais discernimento percebem o exagero, relativizam, sabem que há ali muito teatro político – mas nem tod@s vivem com essa clareza. Há pessoas que não têm a plenitude da saúde mental, gente frágil, emocionalmente vulnerável, ou simplesmente perdida, que internaliza essas palavras como uma verdade absoluta e que sente que tem uma espécie de missão moral a cumprir ao “neutralizar” o suposto perigo. E é assim que divergências políticas perfeitamente normais passam a ser tratadas como ameaças existenciais, com adversári@s transformad@s em alvos. Quando a desumanização se torna método – seja feita por figuras públicas ou amplificada por cidadãos/cidadãs nas redes sociais – basta uma pessoa desequilibrada para levar essa narrativa às últimas consequências. E isso já não é política, mas sim o pináculo da radicalização.


No Nepal, o governo tentou banir as redes sociais para abafar o escândalo d@s filh@s d@s governantes comunistas, que exibiam vidas de luxo fora do país – provavelmente pagas com dinheiro público – enquanto a população vive na miséria. A geração abaixo dos 35 anos, que ali é maioria e depende das redes para tudo, saiu imediatamente à rua para defender o pouco espaço de liberdade que lhes resta. O governo ordenou às forças de segurança que disparassem sobre @s manifestantes, matando dezenas de pessoas, e a violência saiu de controlo: incendiaram o Parlamento, invadiram-no, queimaram casas de polític@s; a mulher de um ex-Primeiro-Ministro morreu dentro de casa; o Ministro das Finanças foi humilhado publicamente, arrastado de cuecas e atirado a um rio. Por momentos, até acreditei que uma revolução estivesse prestes a começar. Este é o lado mais sombrio das revoltas: há fogo e sangue nas ruas, mas as pessoas parecem em êxtase, quase libertas pelo caos. E o mais estranho é podermos assistir a tudo isto em direto, sem filtros, através de milhares de telemóveis – algo impensável noutras épocas.


Apesar da violência, esta revolta no Nepal deu-me uma esperança estranha, porque, pela primeira vez, vejo a minha geração em ação: jovens a enfrentar um governo corrupto, nepotista e despótico com códigos culturais que reconheço como meus. Pela primeira vez, sinto que o mundo começa a ficar marcado pela minha geração, que até agora parecia sempre invisível, sempre à margem da política; eu próprio só voto há seis anos, e talvez por isso nunca tinha sentido tão claramente esta passagem de testemunho. O mais impressionante foi a escolha da nova Primeira-Ministra de transição: uma ex-Presidente do Supremo Tribunal, conhecida pela integridade, escolhida por milhares de jovens num servidor de Discord – uma plataforma onde antes só se entrava para jogar. E o Presidente do país, perante essa avalanche digital, aceitou: “Se é ela que querem, é ela que terão.” É a prova do poder real das redes sociais e dos movimentos civis; num contexto normal, est@s jovens nunca teriam voz na escolha do governo transitório – agora tiveram, e isso é das transformações mais bonitas e inesperadas que já vi.


O Chega apareceu pela primeira vez à frente numa sondagem nacional – 26,8% no Barómetro DN/Aximage, acima da AD com 25,9% e do PS com 23,6% – mas, sinceramente, custa-me acreditar que isto antecipe o que vai acontecer nas urnas. Não porque ache que as sondagens são fabricadas, mas porque intenções de voto num momento de grande carga emocional não são a mesma coisa que votos reais. Para o Chega atingir estes números teria de subir 300 ou 400 mil votos, enquanto a AD descia de forma significativa – algo difícil para um partido com uma taxa de rejeição tão alta. E estas sondagens surgem no auge do impacto mediático dos incêndios, o que distorce tudo; lembro-me bem de Pedrógão, quando António Costa estava no chão nas sondagens e, passado o choque, acabou com uma maioria reforçada e depois absoluta. Achar que este barómetro define já o partido vencedor das próximas eleições é, para mim, um erro gigante de leitura. Isto não invalida que o Chega tenha crescido – é perfeitamente possível – mas tudo tem contexto, e, sem contexto, uma sondagem vale pouco.


A possibilidade de André Ventura avançar para as eleições presidenciais parece-me quase certa, e sempre me pareceu previsível. A única coisa que o poderia travar seria a má imagem que isso passa a quem acompanha política com algum cuidado: querer ser Primeiro-Ministro e depois querer ser Presidente da República transforma qualquer figura pública numa espécie de colecionador(a) de cargos, alguém para quem tudo é projeto de poder pelo poder. Mas essa perceção vive dentro de uma bolha informada; para @ eleitor(a) comum isso não pesa nada. E é precisamente por isso que, para o Chega, a decisão lógica é mesmo Ventura candidatar-se. O partido tentou – apesar de o negar – aproximar-se de Gouveia e Melo, mas o Almirante correu para o lado da moderação, aproximou-se de Rui Rio e posicionou-se onde estão os votos. Sem ele, o Chega não tem nome que faça jus à força que tem hoje, e qualquer alternativa seria vista como fraqueza – as europeias foram prova disso: foi a única vez que o Chega foi a votos sem Ventura e quase ficou atrás da Iniciativa Liberal. Ventura avançar é inevitável, ainda que me pareça degradante.


Depois de escrever tudo isto, fico com a sensação estranha de que o mundo está a acelerar num sentido e a atrasar-se noutro, e eu aqui no meio, a tentar perceber onde me situo enquanto adulto, enquanto cidadão e enquanto alguém que não quer desistir da ideia de liderar com decência. Entre o desastre do Elevador da Glória, o assassinato de Charlie Kirk, a revolta no Nepal e a turbulência política cá dentro, percebo que não posso viver como mero espectador – não quando vejo tanta irresponsabilidade, tanta desumanização e tanta falta de vergonha por parte de quem deveria dar o exemplo. Mas também vejo a minha geração a acordar, a ocupar espaço, a reconstruir o mundo com os códigos que reconheço como meus. E eu, Duarte Carrasco, não quero ficar de fora. Não tenho ilusões de grandeza, mas tenho uma vontade séria de participar numa política mais honesta, mais humana e menos histérica do que esta espuma diária que nos empurra para o cinismo. No meio deste ruído todo, só consigo prometer a mim mesmo que não contribuirei para o caos, mas para a clareza; que não serei mais uma voz de ódio, mas alguém que se alinha por cima.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Domingo, 25 de janeiro de 2026

No dia em que fiz 25 anos e publiquei “De Bem Com a Vida”, senti uma estranha e pesada sensação de encerramento. Como se tivesse acabado de escrever a última frase de uma história que vinha a contar h

 
 
 
Segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Hoje, faço 25 anos. É curioso pensar que tinha 16 quando saí de casa pela primeira vez, 19 quando entrei para o TikTok, 21 quando lancei a minha primeira paródia musical, 22 quando escrevi a primeira

 
 
 
Segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Este mês estreou “The Life of a Showgirl”, o novo álbum de Taylor Swift, e enquanto fã obcecado por narrativa, sinto que a magia – e o calcanhar de Aquiles – do disco está numa frase da última faixa:

 
 
 

Comentários


bottom of page