Quarta-feira, 4 de junho de 2025
- Duarte Carrasco
- 5 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: 14 de jul.
Durante muito tempo, evitei encarar de frente esse capítulo sombrio da minha vida universitária. O tal “cancelamento” – uma palavra que pode soar exagerada, mas que descreve com precisão o que vivi – foi mais do que um afastamento institucional: foi um corte abrupto com uma comunidade à qual tanto tinha dado de mim. Senti que a minha voz tinha sido silenciada, que a minha presença tinha sido reduzida a um boato mal contado, e que eu próprio tinha sido transformado na personagem secundária de uma narrativa que nunca escrevi. Tudo aquilo que tinha construído com dedicação e sentido de missão ao longo de três anos pareceu desmoronar-se num instante – e, no entanto, algo dentro de mim se recusava a desaparecer. Não foi de um dia para o outro, mas fui regressando, pouco a pouco, pelas margens, pelos bastidores, por caminhos alternativos. Hoje, o meu nome circula com naturalidade pelos corredores e pelos grupos. Voltei ao centro do palco – não por nostalgia nem por vaidade, mas porque, contra todas as probabilidades, me tornei indispensável na imaginação coletiva da CBS.
Houve uma fase – longa, exaustiva e, por vezes, profundamente humilhante – em que vivia num estado de performance constante. Participava em tudo, dizia sim a todas as oportunidades – não por ambição desmedida, mas porque sentia que precisava de justificar a minha presença naquele espaço. Queria que gostassem de mim, que me vissem como alguém confiável, trabalhador, exemplar. O desejo de aceitação era tão visceral que cheguei a medir o meu valor pela quantidade de pessoas que conseguia reunir num jantar de aniversário. E bastava que um boato circulasse, que uma perceção se distorcesse, para que tivesse de recomeçar do zero noutro grupo social, com novas provas de mérito. Hoje, esse ciclo que me consumia já não existe. Já não preciso de correr atrás da validação de ninguém – e é precisamente aí que reside a grande viragem: não ter de me esforçar para ser aceite, porque a aceitação já me precede. O que antes exigia esforço e exposição constante, hoje acontece de forma quase natural. A minha presença tornou-se suficiente – não como um privilégio, mas como o resultado de anos a resistir à invisibilidade.
Quando, a 1 de dezembro de 2022, fui afastado do cargo na associação de estudantes, senti-me empurrado para fora de um espaço que eu próprio ajudara a construir. Aquela decisão – que considerei injusta, desproporcional e desumana – não representou apenas a perda de um cargo; foi uma tentativa deliberada de me impedirem de vir a ser eleito ao cargo de Presidente da associação de estudantes. O mais devastador foi perceber como essa imagem contaminada se espalhou, como certas pessoas começaram a evitar-me ou a tratar-me como um assunto incómodo. Na altura, temi que a minha reputação estivesse irremediavelmente ferida, que a minha história na CBS tivesse terminado ali. Mas a verdade é que aquele momento de queda marcou também o início silencioso de uma nova fase. Reescrevi-me. Em vez de desaparecer, foquei-me no que ainda podia construir: tornei-me Vice-Presidente d@s International Student Ambassadors, entrei em consultorias estudantis como a 180 Degrees Consulting, participei em case competitions com a Deloitte e a Accenture, e representei a minha universidade em Harvard e Oxford.
Quando olho para trás, percebo que a minha passagem pela CBS foi muito mais do que um percurso académico – foi uma sucessão de renascimentos. Fui eleito oito vezes para órgãos de representação estudantil, acumulando mais votos do que qualquer outr@ alun@ na História da escola. Tornei-me @ primeir@ a ser reeleit@ Presidente da CBS United Nations – um feito inédito, que quebrou barreiras tanto de nacionalidade como de longevidade. Mas não parei por aí. Fui Buddy de alun@s de intercâmbio por cinco vezes, participei em programas de desenvolvimento profissional como o CBS Mentoring Programme, o Young Professionals in Denmark e o Greater Copenhagen Career Programme. Cofundei a CBS Portuguese Society e fui @ seu/sua primeir@ Presidente. E agora, enquanto incubo a minha start-up, Bubtex, no hub de empreendedorismo da CBS, percebo que esta sucessão de capítulos improváveis é também uma história de resistência, de reinvenção constante e de amor incondicional por uma comunidade que acabou por me acolher como um dos seus próprios símbolos.
O quarto ano da minha licenciatura foi tudo menos fácil. Estava atrasado em relação ao meu plano de estudos original, emocionalmente desgastado e sem rumo depois de ter sido afastado do cargo mais importante que alguma vez ocupara em representação estudantil. Pensei, honestamente, que a minha era nos bastidores da política estudantil tinha chegado ao fim. Quis envelhecer com dignidade e deixar espaço para novos talentos. Cheguei a escrever uma paródia musical, “Lista Negra”, onde anunciava que tinha desistido de me vingar e que seguiria em frente. Acreditei que esse seria o meu último capítulo como figura pública universitária e que o meu lugar no centro da vida da CBS estava a desvanecer-se. Em setembro de 2023, depois de um verão marcado por viagens e momentos de espiritualidade – com a vinda do Papa Francisco a Portugal – iniciei o mestrado e, um mês depois, fui eleito Presidente da CBS United Nations. E foi a partir daí que reencontrei o entusiasmo, a visão e a energia para iniciar uma nova era da minha influência. Contra todas as expectativas, entrei novamente pela porta da frente, de cabeça erguida.
Depois de tudo o que aconteceu – depois das acusações, do silêncio forçado, das portas que se fecharam e das vozes que se ergueram contra mim – ainda brilhei. Brilhei a CBS Community Awards Gala de 2023, um evento que viria a ser irrepetível por razões orçamentais, mas que, para mim, representou algo muito maior do que qualquer orçamento poderia medir: redenção. Fui eleito Voluntári@ do Ano. E quem me entregou o prémio? A própria CBS Students. Foi um momento quase cinematográfico – uma espécie de pedido de desculpas não verbal, uma reescrita do passado feita perante toda a comunidade académica. Nesse instante, percebi que não precisava de sair pela porta pequena, nem de desaparecer devagarinho, como tinha planeado. Ali, com o prémio nas mãos, senti que o meu percurso universitário tinha valido a pena. Tinha vencido. E, mais do que isso: tinha conseguido recuperar a minha dignidade. Foi o ponto de viragem emocional que me permitiu respirar fundo, deixar o ressentimento para trás e acreditar, pela primeira vez em muito tempo, que talvez o melhor ainda estivesse para vir.
Sei que há muit@s estudantes que se perdem no meio da exigência académica e emocional, que se sentem sós, desorientad@s, sem saber onde pertencem. Muit@s entram em ciclos de desânimo, sentem que não têm espaço para falhar, para tentar de novo, para recomeçar. E é precisamente aí que a minha história tem feito a diferença – porque representei, sem o saber, essa possibilidade de reconstrução. Fui cancelado, ridicularizado, afastado – mas regressei. E não apenas regressei: voltei a conquistar um lugar de destaque, de respeito e de reconhecimento. Essa narrativa de queda e ascensão tocou muita gente. Serviu como âncora num mar de inseguranças e dúvidas. Soube captar cada momento e partilhá-lo com intuição – usando o LinkedIn como palco, mas também como ponte. A cada post, fui dando aos/às outr@s aquilo que outrora me faltou: um sinal de que há luz ao fundo do túnel. E talvez seja isso que mais me orgulha nesta nova fase: não só sobrevivi, como me tornei farol. Hoje, mais do que um exemplo de sucesso, sou prova viva de que é possível voltar a acreditar quando tudo parece perdido.
Há dois dias, defendi a minha tese de mestrado – e saí da sala com a nota máxima. Decidi partilhar esse momento no LinkedIn com uma fotografia em que a expressão de pura incredulidade dizia tudo. Desde então, o impacto superou todas as expectativas: mais de 16.000 visualizações, 400 reações, 100 comentários e uma onda de apoio que não consigo descrever. A publicação tornou-se não só o meu post mais visto de sempre, mas também um símbolo de reconhecimento coletivo. Num meio onde a visibilidade é muitas vezes passageira, este momento trouxe uma afirmação duradoura: o meu percurso académico culmina com uma tese que, para além da nota, deixou uma marca. No dia seguinte, recebi uma chamada que me fez sorrir novamente: fui convidado a juntar-me, já em agosto, à equipa do CBS Leadership Centre como Student Assistant. Fazer parte de um centro que trabalha diretamente com investigação e formação de líderes é, para mim, uma honra imensa. Esta oportunidade dá-me uma confiança renovada para entrar, de cabeça erguida, no mercado de trabalho que se aproxima.
Aquilo que muitos veem como visibilidade ou fama é, na verdade, a construção de um universo simbólico onde muita gente se sente representada, onde cada gesto meu adquire um significado que ultrapassa o imediato. Hoje, a minha presença no campus já não é apenas física: é cultural. A minha cara surge nos corredores nas campanhas de exames e os meus feitos circulam nos feeds d@s estudantes. Já não se trata de ser apenas @ mais votad@ – trata-se de ser um espelho onde muit@s projetam os seus sonhos e receios. E talvez essa seja a maior conquista: ter conseguido transformar uma vivência profundamente pessoal numa linguagem partilhada, que outr@s também compreendem e usam para se orientarem. No meio de tudo isto, percebo que o verdadeiro impacto não está em ser admirado, mas em abrir espaço para que mais pessoas se sintam vistas, legitimadas e parte de algo maior. Porque, no fundo, não sou apenas eu a brilhar – é uma geração inteira a encontrar eco na minha caminhada. E se a minha história tem servido de espelho, então que ela continue a refletir esperança – para que cada vez mais pessoas se atrevam a reescrever a sua.
Cheguei a um novo patamar – e isso levanta uma nova pergunta: para onde vou a seguir? Depois de tanta exposição, de tantas conquistas públicas, sinto a responsabilidade de gerir não só a minha presença, mas também o meu silêncio. Estar visível tem um preço, e o risco da sobreexposição é real – não apenas porque pode cansar @s outr@s, mas porque pode distorcer a perceção que tenho de mim própri@. Não quero tornar-me prisioneir@ da persona que fui construindo. Quero continuar a crescer de forma autêntica, mesmo que isso implique recuar momentaneamente para observar, aprender e amadurecer longe dos olhos do público. Pela primeira vez, não sinto que estou a correr atrás de validação. O meu nome, o meu trabalho, a minha trajetória já falam por si. O reconhecimento já não vem apenas de fora – vem de dentro, de uma consciência cada vez mais sólida do meu valor e da minha missão. E isso muda tudo. Permite-me ser mais seletivo, mais estratégico, mais fiel ao que quero construir a longo prazo. Tenho projetos, ambições e causas que quero abraçar com mais profundidade – mas sem a pressa de ter de provar algo a alguém.

Comentários