Domingo, 24 de novembro de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
21. O stress faz parte da vida, mas consegues lidar com ele.
No 12.º ano, os exames nacionais pareciam ser o centro de gravidade da minha vida. Cada aula era uma corrida contra o tempo, cada intervalo uma discussão sobre médias e fórmulas, e, à noite, a secretária estava sempre coberta de pilhas de apontamentos. A pressão para entrar na faculdade que queria – e que sabia ser altamente competitiva – tornava cada dia um teste de resistência emocional.
Lembro-me de uma noite em particular, enquanto estudava Matemática. As equações pareciam todas iguais, os números confundiam-se na minha cabeça, e a frustração começou a crescer. Sentia que não conseguia avançar, por mais que tentasse. Na cozinha, a minha mãe arrumava as coisas do jantar e, ao ver-me passar, disse apenas: “Para um bocadinho, Duarte. Vai apanhar ar. Depois voltas.” Sem vontade de discutir, peguei na bicicleta e fui dar uma volta pelas ruas de Cascais. O som do vento a atravessar as árvores e o silêncio das ruas desertas, iluminadas apenas pela luz amarelada dos candeeiros, fizeram-me lembrar que o mundo era maior do que os exames.
Quando voltei para casa, sentei-me novamente, com a cabeça mais leve e os ombros menos tensos. Para minha surpresa, a solução para aquele problema que me parecia impossível surgiu quase de imediato. Foi aí que percebi que o stress não desaparece por completo, mas pode ser gerido. Às vezes, tudo o que precisas é de uma pausa, um momento para respirar e lembrar-te de que não tens de carregar o peso do mundo de uma vez só.
Foi aquele ano, com todo o seu caos e intensidade, que me levou à universidade e à vida que tenho hoje. E aprendi que, nos momentos mais exigentes, dar um passo atrás pode ser o que te empurra para a frente.
22. O fracasso não é o fim.
Desde os meus 12 anos, sonhava em partilhar as minhas ideias e experiências com o mundo através de vídeos. Criei vários canais no YouTube e dedicava horas a gravar, editar e planear conteúdos que acreditava serem interessantes. Imaginava-me a conquistar seguidor@s, a receber comentários entusiasmados e, quem sabe, a construir uma carreira como criador de conteúdo. Mas a realidade era bem diferente. Os vídeos mal ultrapassavam algumas dezenas de visualizações, e os poucos comentários eram, na maioria, de amig@s próxim@s. A frustração acumulava-se, e o sonho que tanto alimentava parecia cada vez mais distante.
Anos mais tarde, já quase a desistir da ideia de criar conteúdo, decidi experimentar o TikTok, uma plataforma que estava a ganhar popularidade. Não tinha grandes expectativas – era apenas mais uma tentativa. Num dia particularmente aborrecido de confinamento, a minha mãe gravou-me num vídeo onde eu, de forma desastrosa, tentava cozer ovos. O vídeo capturava cada momento da frustração dela ao ver o filho cozinhar tão mal: os ovos numa frigideira em vez de um tacho, a água inexistente e eu, confuso, sem perceber o que tinha corrido mal. Publiquei o vídeo sem grandes expectativas.
Para minha surpresa, tornou-se viral. Milhares de pessoas riam-se, identificavam-se com a situação e partilhavam as suas próprias histórias de desastres culinários nos comentários. Aquilo que antes me fazia sentir um fracasso transformou-se numa oportunidade inesperada. Percebi que a autenticidade – e a capacidade de rir de nós própri@s – era o que criava uma ligação genuína com o público.
Motivado por essa reação, continuei a partilhar pequenos momentos do meu dia-a-dia, sempre com um toque de humor e honestidade. De tarefas domésticas básicas falhadas a reflexões sobre o quotidiano, o meu conteúdo cresceu, e com ele, uma comunidade que acompanhava e interagia com as minhas publicações. Em pouco tempo, tornei-me numa figura reconhecida a nível nacional, provando que o sucesso pode surgir dos lugares mais improváveis.
Esta experiência ensinou-me que os fracassos do passado não definem o nosso futuro. Cada tentativa que não resultou foi, na verdade, uma lição que me preparou para este momento. O importante é continuar a tentar, a adaptar-nos e, acima de tudo, a sermos fiéis a nós mesm@s. Afinal, às vezes, o caminho para o sucesso começa com algo tão simples como um ovo mal cozido.
23. Envelhecer é uma dádiva.
Quando era criança, o meu aniversário era o dia mais esperado do ano. Acordava com a excitação que só uma criança consegue ter, saltava da cama e corria para a sala, onde @s meus/minhas pais/mães já tinham preparado uma mesa especial: o meu bolo preferido, balões coloridos e, às vezes, um presente embrulhado com um laço enorme. Cada vela que soprava parecia um passo gigante em direção ao “crescer”. Era pura magia.
Mas hoje, ao fazer 24 anos, o sentimento foi diferente. Senti um certo peso, como se este número fosse um lembrete de que o tempo não para. E, para ser honesto, entrei em pânico. “E se não estiver a fazer o suficiente? E se não estiver onde deveria estar aos 24 anos?”.
Para escapar a estes pensamentos, decidi sair. Dei uma volta pelo centro de Copenhaga com duas amigas portuguesas que tinham vindo de propósito para me visitar neste dia tão especial. Passei por ruas que, há uns anos, me pareciam gigantes e intimidantes, mas que agora se tinham tornado quase familiares. Ao cruzar-me com uma das livrarias que adoro, pensei em como aquela cidade já fazia parte de mim. Acabámos por entrar num pequeno café que frequento desde que me mudei para cá. Pedi o meu leite com chocolate habitual e sentei-me numa mesa junto à janela. De lá, podia ver a vida a acontecer: bicicletas a passar, pessoas a rirem e a conversa fluía.
Enquanto relaxávamos, uma das minhas amigas perguntou: “E então, como te sentes com 24?”. Hesitei antes de responder, confessando-lhes aquele peso que tinha sentido mais cedo, o medo de não estar a fazer o suficiente, de não estar onde achava que deveria estar. Esperei comentários leves, talvez até uma piada para descontrair, mas, em vez disso, uma delas olhou-me nos olhos e disse: “Tens razão, o tempo não para. Mas olha para ti. Estás em Copenhaga, a viver uma vida que construíste do zero. Tens tanto para te orgulhar, e às vezes nem dás conta disso. Envelhecer não é perder tempo; é aprender a usá-lo para as coisas que realmente importam.”
Nesse momento, um grupo de jovens entrou no café, rindo e falando alto em dinamarquês. Entre el@s, reconheci um colega de turma que me acenou com entusiasmo. As minhas amigas riram-se ao ver a interação e disseram: “Vês? Aqui, já tens a tua comunidade, a tua vida. Se isso não é sinal de que estás a fazer as coisas bem, então o que será?”.
Sorri, sentindo-me mais leve. Talvez o peso que sentira não fosse, afinal, algo negativo. O tempo é valioso, e cada ano traz consigo uma nova oportunidade para aprender, crescer e valorizar tudo o que já foi conquistado.
Ao final da noite, quando soprei as velas em frente a 16 amig@s, num bolo feito por uma amiga dinamarquesa, fiz um pedido simples: continuar a celebrar cada ano com gratidão, coragem e vontade de viver plenamente, um dia de cada vez. Porque, no fundo, envelhecer é um privilégio que nem tod@s têm, e aprender a abraçar isso é, de facto, a verdadeira dádiva.
24. A energia que dás cresce.
Hoje à meia-noite, lancei a minha sexta paródia musical, “Pedras no Caminho”. Escrever esta canção foi mais do que um simples exercício criativo – foi um momento de profunda introspeção, uma viagem ao meu passado para reconhecer as lições que a vida me trouxe. Cada verso conta uma parte de mim: as minhas dúvidas, os meus erros e, acima de tudo, a força que descobri nas adversidades.
Quando comecei a criar paródias musicais, não passava de um hobby despretensioso. Era apenas uma forma de misturar a música que amo com histórias que precisava de exprimir. A minha primeira paródia, “Estou Bem Melhor Que Tu”, nasceu em janeiro de 2022, numa altura em que enfrentava o peso de um cancelamento nas redes sociais. Inspirado pela resiliência de Taylor Swift, quis provar a mim mesmo – e ao mundo – que, apesar das adversidades, continuava firme.
Desde então, cada paródia transformou-se num capítulo da minha história. Em abril deste ano, com “Dia D”, celebrei o meu crescimento. Mais tarde, com “O Cavaleiro da Dinamarca”, assinalei cinco anos desde que mudei de país, explorando temas como a insegurança e os pensamentos intrusivos. Agora, “Pedras no Caminho” representa o culminar dessa jornada: uma reflexão sobre as dificuldades que enfrentei e como consegui transformar cada obstáculo numa oportunidade. As pedras de que falo na música não são apenas dificuldades – são também os alicerces do castelo que continuo a construir.
Enquanto comemoro os meus 24 anos, percebo que a vida raramente segue uma linha reta. No entanto, aquilo em que colocamos a nossa energia – seja um projeto criativo, um sonho ou uma relação – tem o poder de crescer e ganhar forma. Não importa o quão pequeno seja o início ou o quão íngreme o percurso pareça. Com dedicação e paciência, tudo pode florescer.
Hoje, ao ver as visualizações de “Pedras no Caminho” a surgir, sinto uma gratidão profunda. Gratidão pelas pessoas que me apoiaram, pelas experiências que me moldaram e até pelos obstáculos que, na altura, pareceram intransponíveis. Foram eles que me permitiram crescer e construir. Este castelo que hoje habito pode não ser perfeito, mas é meu – erguido pedra a pedra, feito de cada desafio que decidi transformar em algo maior. E isso, para mim, é a verdadeira magia da energia que damos ao mundo.

Comentários