top of page

Terça-feira, 22 de outubro de 2024

Atualizado: 1 de jul.

Há dias que nos revelam, de forma clara e inequívoca, a verdadeira força das escolhas que fazemos. Sempre imaginei que este último ano letivo, o meu último como estudante, fosse o melhor da minha vida, mas nunca poderia prever que as minhas expectativas fossem concretizar-se de uma forma tão avassaladora e inesperada. A sensação de estar em todo o lado é constante. Parece que todas as portas que um dia se fecharam, ou que pareciam intransponíveis, hoje não só se reabriram, como também me receberam de braços abertos, como se finalmente o meu esforço e dedicação fossem reconhecidos. Esta semana foi um exemplo disso. O CBS International Choir, onde canto desde que me mudei para a Dinamarca em 2019, convidou-me para fazer um takeover das suas redes sociais. De um momento para o outro, a minha cara começou a aparecer em todos os cantos do Instagram do coro, partilhando a minha visão, a minha experiência e os anos de dedicação. Ver o meu nome e o meu rosto ali, não só para @s atuais membr@s, mas também para @s antig@s membr@s que me acompanharam desde o início, foi como fechar um ciclo.


Fez-me refletir sobre o quão longe cheguei desde aqueles primeiros dias, quando entrei no coro apenas como alguém à procura de um lugar de pertença num país estrangeiro. Contudo, talvez o que mais me marcou esta semana tenha sido perceber que, mesmo após ter decidido sair da Direção do coro no semestre passado, onde desempenhei o papel de Chefe de Eventos Externos durante quatro anos, continuo a ser visto e respeitado, e a minha presença ainda tem um impacto significativo. Ser chamado para representar o coro nas redes sociais foi uma honra que nunca esperei. Lembro-me claramente de, no ano letivo passado, ter sentido que estava a deixar uma parte de mim para trás quando decidi afastar-me para me focar noutros projetos, como a Associação Portuguesa na Dinamarca e o meu compromisso com o aperfeiçoamento do dinamarquês. No entanto, este momento foi um lembrete poderoso de que, mesmo quando abandonamos certos papéis formais, as ligações que construímos e as contribuições que fizemos continuam a moldar o nosso percurso. Mesmo sem pertencer mais à Direção, a minha presença mantém-se viva.


Coincidentemente, esta semana também marcou o início da campanha de exames da CBS, e, mais uma vez, lá está a minha cara “plaster” por todo o campus. Tudo começou quando recebi um email da Conselheira Sénior de Comunicação da CBS, no qual ela me pedia autorização para reutilizar as imagens que tinham sido tiradas de mim no ano passado para a campanha de exames. A campanha tinha sido um sucesso no outono passado, e agora queriam usar novamente as mesmas imagens para promover o ambiente de estudo e os recursos disponíveis para @s estudant@s durante o período de exames. O que me chamou a atenção no email foi a expressão que ela usou: “plaster”, referindo-se ao facto de “me plasterarem” pelo campus todo – ou seja, cobrir literalmente os edifícios e as redes sociais da CBS com fotos minhas. Era uma palavra que eu nunca tinha visto antes, e quando mostrei o email à minha família, a expressão “plaster” tornou-se uma piada interna entre nós. Agora, quando dizem que estou a ser “plasterado”, estamos a brincar com o facto de a minha cara estar em todo o lado: no campus, nas redes sociais da CBS ou até nas do coro.


Ver a minha cara em todos esses espaços cria uma sensação estranha, quase surreal. Há uma parte de mim que ainda se lembra de quando cheguei à CBS, com 18 anos, e não conhecia ninguém. Tudo era novo e intimidante, e, na altura, jamais teria imaginado que um dia seria uma figura reconhecida dentro deste espaço. Nunca foi o meu objetivo ser “familiar” para tant@s estudantes, especialmente aquel@s com quem nunca troquei uma palavra. Mas, ao mesmo tempo, esta visibilidade é um reflexo direto do trabalho que tenho feito ao longo dos anos – cada passo, cada envolvimento em projetos e campanhas, cada papel que assumi, tudo contribuiu para esta trajetória. A exposição pública, longe de me incomodar, serve como um lembrete do impacto que fui deixando em cada iniciativa em que participei. E talvez o mais importante, é uma validação pessoal. Há momentos em que a pressão e a responsabilidade podem fazer-nos questionar se o que fazemos realmente importa. Ver-me refletido em todos estes espaços, como uma espécie de símbolo do que se pode alcançar aqui na CBS, dá-me a certeza de que cada esforço valeu a pena.


No entanto, o dia de hoje trouxe-me uma lição mais amarga. O Mo e a Caroline sempre foram duas figuras centrais nas minhas experiências políticas e sociais dentro da CBS. O Mo, o meu eterno oponente nas eleições anuais para o Conselho Académico, é alguém com quem partilho uma rivalidade saudável, mas constante. E a Caroline, que me fez sentir a exclusão mais dolorosa em 2022, quando fui desconvidado do jantar de Natal da Associação de Estudantes, uma hora antes do evento, após não ter sido eleito Presidente da associação. Hoje, numa ironia do destino, encontrámo-nos tod@s num evento organizado pela CBS Students, com o objetivo de incentivar outr@s estudant@s a concorrerem às próximas eleições. Fui convidado para participar num debate sobre as nossas experiências nos cargos políticos, lado a lado com a Caroline, que agora faz parte da Direção da CBS, e com o Mikkel, que era Presidente da associação quando eu lá estava e que é também meu atual colega de curso e de Direção de Curso, alguém com quem sempre me dei muito bem e com quem continuarei a ter uma boa relação.


O Mo, apesar de não ter participado diretamente no debate por fazer parte da atual Equipa Executiva da CBS Students – e ter de ter cuidado com a sua exposição pública nesta altura do ano, para evitar ser acusado de usar a sua posição privilegiada como vantagem nas eleições, uma acusação que me foi dirigida no passado, quando me encontrei na mesma situação –, foi quem me fez o convite para participar. E só esse gesto já foi, para mim, uma vitória pessoal. Lembro-me perfeitamente de que, há apenas alguns semestres, nunca teria imaginado ser convidado para algo desta natureza – e muito menos com a quase reverência com que o convite foi feito. Na altura, parecia impensável que me chamassem para partilhar a minha experiência e o meu percurso político, especialmente depois de tudo o que aconteceu. No entanto, hoje, ao estar sentado ali, ao lado de figuras que outrora me fizeram sentir excluído e marginalizado, senti uma espécie de realização plena. Estar ali, a falar da minha trajetória e a inspirar nov@s estudantes a seguirem o mesmo caminho, fez-me perceber o quanto cresci, não só como líder, mas também como pessoa.


Antes do debate iniciar, pediram-me que testasse o microfone, e assim o fiz, com o meu humor habitual, dizendo: “Olá, eu sou o Duarte Carrasco e tu estás a ver o Disney Channel.” Foi então que percebi que o Mo e a Caroline trocaram olhares cúmplices. Era um riso que carregava algo mais, algo que, por breves instantes, me fez sentir pequeno. Não se riram comigo, mas de mim. Naquele momento, senti-me transportado para os tempos do segundo e terceiro ciclos em Cascais, quando era alvo de risos e comentários cruéis de pessoas que nunca me compreenderam. Pensei que, com o tempo, a distância e as minhas conquistas, essas atitudes mudariam. Acreditei que, se continuasse a trabalhar arduamente, a ser uma boa pessoa e a construir uma boa reputação, tanto o Mo como a Caroline acabariam por reconhecer o meu progresso e me respeitar. Mas hoje percebi algo doloroso: eu nunca fui afastado por ter cometido um erro, fui afastado por ser bom demais. Para el@s, sou visto como uma ameaça. E isso é assustador, porque me apercebi de que o tempo que investi a tentar provar que merecia uma segunda oportunidade foi por razões erradas.


Será que os fins justificam os meios? No fundo, tornei-me numa versão melhor de quem já era, evoluí com base na crença de que precisava de melhorar, quando, na verdade, eu já era bom o suficiente desde o início. E, com esta luta interna, apenas me fortaleci nos últimos dois anos, enquanto o resto do mundo pareceu ficar estagnado. Curiosamente, essa constatação trouxe-me uma sensação inesperada de paz. A inveja que vi nos olhos do Mo e da Caroline, quando se riram de mim sem conseguirem disfarçar o choque ao verem-me brincar despreocupadamente, fingindo estar no Disney Channel, não era um reflexo de algo que eu tivesse feito de errado, mas das suas próprias limitações e inseguranças. Percebi que, muitas vezes, o riso às nossas costas é, na verdade, uma máscara para o desconforto que @s outr@s sentem com o nosso sucesso. Aquilo que antes me magoava, agora já não tem o mesmo efeito. Já não me importo se se riem de mim, porque agora entendo que, nas suas vidas, há pouco que lhes traga verdadeiro contentamento. A partir de hoje, a opinião que el@s possam ter de mim deixou de ter importância.


Terminei o dia com um profundo sentimento de satisfação. Após o debate, dirigi-me diretamente para a sala onde decorreu a minha primeira reunião com a nova Direção da CBS United Nations, após a Assembleia Geral de há duas semanas. Esta reunião trouxe-me uma sensação de orgulho que eu não sabia que iria precisar de sentir quando acordei esta manhã. Ver toda a equipa reunida, cheia de energia, entusiasmo e vontade de começar a planear o próximo ano letivo, encheu-me de confiança no que ainda está por conquistar. A sala estava repleta de novas caras, cada uma com a sua própria experiência e percurso, tanto na CBS como na vida, mas todas unidas por uma vontade comum: contribuir para algo maior. À medida que cada membr@ se apresentava e partilhava a sua história, sentia-me cada vez mais emocionado. O entusiasmo, a curiosidade e até a ansiedade inicial eram palpáveis, e isso lembrou-me que a organização que presido há mais de um ano não é apenas uma estrutura formal, mas uma verdadeira comunidade, construída com base na partilha, no apoio mútuo e na crença de que, junt@s, podemos fazer a diferença.


Hoje, mais do que nunca, percebo que, quanto maior for o meu sucesso, mais pessoas invejosas surgirão no meu caminho. O Mo e a Caroline são apenas dois exemplos de muitas outras que provavelmente encontrarei ao longo da vida, pessoas que, por alguma razão, não conseguem lidar com o facto de alguém seguir em frente, conquistar mais, ser reconhecid@. E, por mais que tente manter uma postura aberta, compreensiva e até altruísta, sei agora que nunca poderei agradar a tod@s. Haverá sempre quem olhe para mim com olhos de crítica, de desprezo, e quem escolha ver o meu sucesso como uma afronta pessoal. No entanto, ao contrário do que poderia ter sentido no passado, esta realização já não me assusta nem me afeta. Pelo contrário, fortalece-me. É um sinal de que estou a caminhar na direção certa. Tenho de continuar a focar-me nos meus objetivos, naquilo em que acredito, e não me deixar abalar pelas vozes negativas que ecoam à minha volta. Enquanto mantiver a confiança em mim mesmo e no valor do meu trabalho, sei que irei longe. No fundo, as vozes que realmente importam são das pessoas que se ririam comigo, e não de mim.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Hoje, faço 25 anos. É curioso pensar que tinha 16 quando saí de casa pela primeira vez, 19 quando entrei para o TikTok, 21 quando lancei a minha primeira paródia musical, 22 quando escrevi a primeira

 
 
 
Segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Este mês estreou “The Life of a Showgirl”, o novo álbum de Taylor Swift, e enquanto fã obcecado por narrativa, sinto que a magia – e o calcanhar de Aquiles – do disco está numa frase da última faixa:

 
 
 
Segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Nesta entrada, quero refletir sobre o que me tem pesado nos últimos tempos, começando pelo desastre do Elevador da Glória. O relatório fala no rebentamento de um cabo, algo que pode acontecer, mas o q

 
 
 

Comentários


bottom of page