Sábado, 8 de junho de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 7 min de leitura
Atualizado: 15 de jun.
O dia 15 de maio chegou, mas não se revelou o juízo final que eu esperava. Quando informei @s meus/minhas pais/mães de que iria concorrer novamente ao cargo de Presidente da associação de estudantes da CBS, el@s ficaram bastante preocupad@s. Sabiam como fiquei nas últimas duas vezes que concorri ao cargo, especialmente porque participaram online por Zoom nas Assembleias Gerais e assistiram em direto às minhas humilhações. O meu pai, em particular, disse: “O meu conselho é que retires a tua candidatura e te concentres nos teus projetos atuais e em outros que possam surgir. Poupa-te a mais uma eventual humilhação. Não dês esse prazer a essas pessoas. Sai desse processo com elevação, porque essa derrota deixa marcas: em ti e na forma como @s outr@s te percecionam. Às vezes, a maior prova de maturidade é saber sair na altura certa e partir para outros desafios em busca da nossa realização e estabilidade emocional. Ainda por cima vais ter um mês de maio excelente! Não o contamines. O caminho faz-se para a frente, não para trás. Este não é um desafio de aprendizagem e crescimento, é apenas um exercício de auto-flagelação.”
Assim que terminei de processar estas palavras, sentei-me ao computador e comecei a redigir um email ao David, o atual Chairman da Direção da CBS Students: “Caro David, espero que esta mensagem te encontre bem. Após cuidadosa consideração, decidi retirar a minha candidatura ao cargo de Presidente da CBS Students. Preciso expressar a minha deceção em relação ao tratamento da minha candidatura. Apesar de ser um membro altamente envolvido na associação de estudantes, ativo em organizações estudantis, na maior Direção de Curso da universidade e a servir no Conselho Académico por três anos consecutivos, ainda não recebi qualquer confirmação ou reconhecimento da minha candidatura. Este esquecimento parece particularmente desrespeitoso, dado o meu compromisso e contribuições para a nossa comunidade. No entanto, planeio comparecer à Assembleia Geral extraordinária. Encontrar-me-ás nas primeiras filas, pronto para participar ativamente e colocar várias questões pertinentes. Agradeço a tua atenção a este assunto. Vemo-nos na próxima quarta-feira.”
E assim foi, no dia da Assembleia Geral extraordinária, sentei-me nas filas da frente e cumprimentei toda a gente com um sorriso no rosto, como sempre faço, por mais magoado que estivesse por dentro. O David veio falar comigo e desculpou-se, de forma esfarrapada, por não ter respondido à minha candidatura ao cargo de Presidente, dizendo: “Duarte, como tenho estado a escrever a minha tese, todos os emails relacionados com as eleições de hoje foram encaminhados para a Maria, que está encarregada de organizar a Assembleia Geral extraordinária.” Para minha surpresa, ou talvez não (a este ponto já pouco me surpreende nesta associação), além do Vice-Chairman da Direção, o Marco, concorrer ao cargo – o que já era mau o suficiente porque a Direção é quem normalmente controla as candidaturas enviadas –, a própria Maria, pessoa diretamente responsável por receber as candidaturas e, pelos vistos, facilitar o evento no dia, estava também a concorrer. Uma coisa era certa: iria haver confronto, e a vítima do dia não seria eu, graças aos conselhos tão precisos d@s meus/minhas pais/mães, que levarei para sempre comigo.
Após o discurso inicial de cada candidat@, começaram as perguntas, e eu fui a segunda pessoa a ter a oportunidade de segurar o microfone e fazer uma pergunta. A primeira pessoa a falar foi o atual Presidente, alguém que eu menos esperava ver ali; eu, pelo menos, não apareceria se estivesse a renunciar do cargo mais importante para a imagem política de uma associação de estudantes, ainda nem a meio do ano. A pergunta do atual Presidente, para meu espanto, atacava o Marco. Ele estava, portanto, a favor da Maria, que só depois percebi ser a atual Diretora de Rede da CBS Students, visto que o contrato do Stan terminou no final do ano passado. Perguntou-lhe por que não se tinha candidatado para a Equipa Executiva da associação de estudantes em dezembro e só agora o estava a fazer. É importante lembrar que cargos como o de Chairman e Vice-Chairman pertencem à Direção, enquanto os de Diretor de Rede e Presidente pertencem à Equipa Executiva. Para meu espanto, as palavras que o Marco usou em resposta a esta primeira pergunta eram demasiadamente semelhantes às que usei na minha candidatura. De repente, senti-me roubado.
O Marco falou sobre a superação de obstáculos, explicando que, na altura, não era o momento certo para se candidatar a tal cargo e que agora já estava preparado. Afirmou que queria tornar-se na melhor versão de si mesmo antes de se candidatar e que agora estava finalmente pronto para assumir as responsabilidades esperadas de um(a) Presidente de uma associação de estudantes. Quando deu essa resposta, olhei para o resto da sala e percebi imediatamente que ele iria ganhar. Claro que ia. O homem era uma cópia barata de mim. O moderador passou-me então o microfone e a minha adrenalina estava no auge. Comecei por me apresentar à plateia e explicar que outrora tinha pertencido à Equipa Executiva da CBS Students e que sabia o quanto da nossa carga horária era dedicado a representar @s estudantes. Expliquei também que fiz a minha licenciatura em quatro anos em vez de três para me poder dedicar por inteiro aos/às estudantes da nossa universidade. Questionei apenas o Marco, não só para ripostar por ele estar a utilizar palavras que não eram dele, mas também para ajudar a atual Diretora de Rede a ser promovida.
Perguntei ao Marco como ele iria priorizar o cargo de Presidente para mais de 20.000 estudantes da CBS numa altura política tão exigente, repleta de reformas educacionais tanto a nível nacional como interno na CBS, considerando que ele está a frequentar um mestrado em Economia e Finanças Avançadas, conhecido por ser o curso mais exigente da universidade. Ele respondeu que planeava estudar em regime de tempo parcial e prolongar a duração do curso em um ano, tal como eu tinha feito na licenciatura. Mais uma vez, refletindo aquilo que eu queria ouvir. Em seguida, a minha amiga Gargi, que também estava na audiência, falou de forma muito eloquente, perguntando à Maria se ela estava preparada para o cargo e qual seria a sua primeira ação caso fosse eleita, e ao Marco se ele não poderia resolver todas as questões que enumerava no seu discurso inicial, no seu atual cargo de Vice-Chairman. A Maria deu uma resposta excelente, focando-se na rápida adaptação ao cargo, aprendendo tudo com o atual Presidente, com quem tem uma ótima relação, e contando com a comunidade de voluntári@s da associação para a apoiar.
Já o Marco voltou a manipular a audiência com o seu poder persuasivo. Ele explicou à Gargi que, naquele momento, era conhecido pelos corredores da CBS como o Marco. Se naquele dia conseguisse o cargo, passaria a ser reconhecido como o Presidente da associação de estudantes da nossa universidade. Sempre que houvesse um escândalo ou fosse necessário falar com a imprensa, ele seria a face d@s estudant@s e representaria politicamente a nossa comunidade em plataformas como a televisão e os jornais. Ri-me interiormente. No entanto, por outro lado, pensei comigo mesmo que, finalmente, havia aparecido um(a) candidat@ apt@ para este cargo. A CBS Students necessitava exatamente de um perfil como o do Marco. Lamentei não poder dar o meu voto à Maria, que parecia ser uma excelente pessoa, e teria sido muito gratificante testemunhar um(a) Diretor(a) de Rede a ser promovid@ a Presidente. Contudo, para mim, o mais importante naquele momento era ver a organização a crescer. Na altura de votar, o meu voto foi para o Marco e não olhei mais para trás. E ele foi o vencedor – por um voto.
Algo bonito que retirei daquele dia foi a surpresa e a admiração expressas pelas pessoas na planeia em relação a mim. Embora soubesse que, semanas antes do evento, a Direção se tinha reunido para preparar uma ofensiva contra mim, a maioria das pessoas na audiência estava alheia às intrigas internas desta associação e compareceu apenas pela democracia do corpo estudantil da nossa universidade. Muit@s vieram falar comigo no final, perguntando-me como tinha adquirido tanto conhecimento sobre os estatutos da CBS Students, ou comentando a minha experiência em política estudantil. Quando fui cumprimentar a Maria para lhe dar os parabéns pela sua prestação, ela disse algo que me marcou: “Esta assembleia foi importante para ver quem veio consolar-me no fim e quem não se importou quando o Marco ganhou.” Isso tocou-me porque eu sabia exatamente os sentimentos pelos quais ela estava a passar. Já o Marco, cumprimentou-me a mim e à Gargi na saída, desejando-nos sorte com a CBS United Nations e afirmando que a CBS Students estaria sempre disponível para nos apoiar, o que me confortou.
Acima de tudo, naquele dia, demonstrei dignidade, algo que retive profundamente das palavras do meu pai. Ele receava que eu ficasse mal visto, especialmente agora que a minha reputação estava em alta: era a cara da campanha de preparação para os exames da CBS, a pessoa com o maior número de votos para o Conselho Académico, membro da minha Direção de Curso, voluntário do ano, Presidente da CBS United Nations e International Student Ambassador. Além disso, desempenhava várias atividades fora da escola, como estagiário numa das maiores ONG do mundo, Secretário da Direção da Associação Portuguesa na Dinamarca, Presidente de Portugal nas redes sociais, vlogger, escritor e compositor. As pessoas na plateia, ao mostrarem que ficaram impressionadas com a minha paixão e o meu vasto entendimento sobre a escola, revelaram que a minha missão estava cumprida. Saí daquela Assembleia Geral extraordinária sentindo um verdadeiro encerramento, algo que não tinha experienciado até então com a CBS Students. Era como se o meu coração tivesse finalmente sarado.
A retirada da minha candidatura ao cargo de Presidente da associação de estudantes da minha universidade foi uma decisão dolorosa, mas necessária. Permitiu-me avançar e focar-me em outros projetos que também me trazem satisfação e crescimento. A viagem a Portugal e as vivências que tive lá, especialmente o concerto de estreia de Taylor Swift no país, foram momentos de pura felicidade que me relembraram a importância de estar com quem amamos e de celebrar as pequenas e grandes vitórias da vida. A estadia em Graz e as explorações pela Áustria e Eslováquia ao lado da minha amiga Catarina proporcionaram-me um verdadeiro refresco para a alma, permitindo-me desconectar das preocupações diárias e mergulhar em novas culturas e paisagens. Voltar à Dinamarca com uma mente renovada e a agenda cheia de compromissos importantes apenas reforçou a minha determinação em continuar a perseguir os meus objetivos. Ainda tenho um longo caminho a percorrer, com exames para preparar e candidaturas de emprego para submeter, mas sinto-me mais confiante e preparado do que nunca.

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