Sábado, 3 de maio de 2025
- Duarte Carrasco
- 3 de mai.
- 7 min de leitura
Há meses que o tempo parece andar mais depressa do que eu consigo correr atrás dele. Desde fevereiro que tenho vivido numa espécie de turbilhão constante, com o corpo a mil à hora e a cabeça num frenesim contínuo de tarefas, decisões e emoções. Por um lado, o meu negócio continua em incubação, a exigir de mim um foco, uma presença e uma capacidade de resposta quase sobre-human@s. Por outro, a minha tese de mestrado tem o prazo de entrega marcado para o dia 15 deste mês e parece absorver-me cada fragmento de silêncio ou pausa entre compromissos. A juntar a isso, continuam as responsabilidades com as minhas organizações de estudantes: eventos para preparar, pessoas para coordenar, ideias para tirar do papel. Nunca pensei que o último semestre da minha vida académica pudesse ser simultaneamente tão exaustivo e tão pleno – como se todas as versões de mim ao longo dos anos tivessem decidido culminar agora, numa só estação. Tudo acontece ao mesmo tempo – e no meio de tudo isto, dei por mim a viver uma das maiores mudanças internas da minha vida. Não é apenas um semestre agitado. É um semestre de transição.
Entre os muitos compromissos que marcaram esta maratona de meses, um dos mais especiais foi, sem dúvida, a organização da primeira tertúlia de negócios em português na CBS. Esse momento representou muito mais do que um simples evento académico: foi o culminar de um sonho antigo de criar uma ponte entre a diáspora lusófona e a realidade universitária dinamarquesa. Desde que fui eleito Secretário da Associação Portuguesa na Dinamarca, em fevereiro de 2024, passei a compreender na pele o verdadeiro peso – e a beleza – de construir comunidade longe de casa. Entre feijoadas, magustos e jogos de futebol, a associação tem sido um refúgio cultural, uma espécie de abraço coletivo onde cada sotaque, cada receita, cada lembrança do “nosso” é partilhada com orgulho. Com outr@s cinco estudantes portugues@s, decidimos então fundar a CBS Portuguese Society, e com ela, trazer essa energia comunitária para dentro do campus. A organização envolveu tanto esforço, tanta coordenação, tantos telefonemas – mas também tanto coração. Ver aquilo acontecer fez-me acreditar ainda mais que o ativismo estudantil é o ato de plantar raízes.
Em março, a CBS United Nations organizou a segunda edição da nossa conferência MUN, a CBSMUN 2025, com mais de 250 participantes de toda a Europa. Sob o tema “Nordic Roots, Global Reach”, debatemos temas como a saúde mental da juventude, o acesso económico por parte de comunidades indígenas, a pobreza infantil e a discriminação na migração. Foram dias intensos, mas absolutamente inspiradores. Muit@s estudantes estavam a participar pela primeira vez – e mesmo assim brilharam. Paralelamente, preparámos a maior edição de sempre da nossa CBS UN Academy, que criou um espaço estruturado mas acolhedor para treinar competências como diplomacia, oratória e trabalho em equipa. E depois veio Nova Iorque. Vinte e quatro estudantes, uma agenda preenchidíssima com visitas a IBM, JPMorganChase, Siemens Mobility, The New Yorker e à Missão Permanente da Dinamarca na ONU – e, claro, uma participação exemplar no National Model United Nations (NMUN), onde conquistámos o título de Distinguished Delegation. Enquanto Presidente, já no meu segundo mandato, senti-me profundamente orgulhoso.
Nas semanas que se seguiram à conferência CBSMUN e à ida da delegação da CBS UN a Nova Iorque, mal tive tempo de respirar. A minha cara começou a aparecer nas redes sociais, cartazes e ecrãs das televisões espalhadas pela universidade por causa da campanha de exames anual da CBS, com o slogan “ARE YOU READY FOR EXAMS?”. Um apelo à gentileza para com @s estudantes em época de pressão, que ironicamente se aplicava mais a mim do que eu esperava. Eu, que andava a viver de forma tão intensa, mal tinha tempo para ser gentil comigo próprio. Dormia mal, estava sempre a correr, e vivia com um sentimento constante de urgência – como se cada dia tivesse menos horas do que precisava. E como se isso não bastasse, o mundo ao meu redor também parecia em convulsão. Desde a última entrada neste diário, o mundo deu uma volta de 180 graus: o Governo Português caiu, o Papa Francisco faleceu, houve o maior apagão de sempre na Península Ibérica, e eu... saí do armário. Um momento que, embora planeado com subtileza, abalou o meu mundo interior como um sismo emocional que há muito se vinha a preparar.
É difícil explicar a quantidade de camadas que existem por detrás de uma saída do armário. Para mim, foi um processo longo, cheio de pequenas revelações internas, recuos, silêncios e tentativas de me conformar com aquilo que esperavam de mim. Desde muito cedo, percebi que havia algo em mim que me tornava diferente – não melhor nem pior, apenas diferente. Foi no Colégio do Amor de Deus, nos 5.º e 6.º anos, que comecei a sentir o peso da crueldade infantil direcionada àquilo que eu ainda nem compreendia totalmente: a minha identidade. Só tinha amigas raparigas e era frequentemente alvo de comentários maldosos. Chamavam-me gay, maricas, paneleiro – insultos lançados sem empatia, como pedras atiradas só porque me via melhor no mundo das palavras do que no dos desportos. E isso doía. Doía mais porque eu não entendia de onde aquilo vinha. Eu era um bom aluno, delegado de turma, bem-educado, ia à missa – mas ainda assim era posto de parte, como se o facto de cruzar as pernas, não dizer palavrões ou ser gentil me retirasse o direito de estar entre os rapazes.
Foram anos de muita ansiedade, principalmente nos recreios e nas aulas de Educação Física, em que o medo de ser julgado superava o prazer de estar na escola. Guardei tudo para mim. Não chorava, não dizia nada em casa, porque o medo de ser descoberto – sem saber ao certo o quê – era maior do que qualquer dor. E só mais tarde, já depois de mudar para a escola pública no 7.º ano, é que comecei a reconstruir lentamente uma sensação de pertença. Mesmo assim, ainda demorou anos até que eu começasse a entender o que sentia e a dar nome ao que era, afinal, apenas amor – embora direcionado a quem, socialmente, me ensinaram a não amar. O secundário trouxe algum alívio, embora não uma cura. À medida que os anos passavam, os comentários não desapareceram, apenas mudaram de tom. Deixaram de ser lançados diretamente na minha cara para passarem a ecoar nas minhas costas, como sussurros de quem achava que a minha sexualidade era assunto público. Ainda assim, já não me afetavam como antes. Já não me encolhia, nem sentia o mesmo medo de ir para o recreio.
Talvez tenha sido fruto da maturidade, talvez da distância crescente em relação a quem, desde cedo, me tentara diminuir. A verdade é que, com a minha ida para a Dinamarca e o crescimento das minhas redes sociais, comecei a ver esses comentários menos como agressões e mais como reflexos da pequenez de quem os fazia. O que antes me feria, agora soava a cusquice, a tentativa desesperada de me pôr num lugar que nunca lhes competiu definir. Acima de tudo, comecei a perceber a importância do respeito: o respeito por quem ainda não está pront@, por quem está a descobrir-se, por quem simplesmente não quer partilhar certos aspetos da sua vida. É feio – profundamente feio – presumir a sexualidade de alguém com base em tiques ou preferências, e mais feio ainda insistir quando a pessoa diz que não está pronta ou simplesmente não quer falar do assunto. Eu, por exemplo, não estava. Aos 14 anos, comecei a sentir atração por rapazes, mas não me sentia em paz comigo mesmo. Aos 20, contei às primeiras pessoas. Só aos 24 é que senti que, finalmente, todas as peças do puzzle tinham encaixado.
Quando escrevi neste diário, há mais de um ano, que era um homem branco, cisgénero e heterossexual, não estava a mentir – estava a proteger-me. Ainda não era o meu momento. E se há coisa que aprendi com tudo isto é que ninguém deve explicações sobre a sua identidade antes de estar pront@. O tempo de cada pessoa é sagrado, e o caminho para a aceitação é tão único quanto a própria pessoa que o percorre. Com o tempo, fui percebendo que viver longe de casa me trouxe não só uma nova liberdade, mas também a possibilidade de recomeçar. Quando me mudei para os Estados Unidos aos 16 anos, e mais tarde para a Dinamarca aos 18, ganhei uma distância segura da realidade onde cresci, o que me deu espaço para respirar, para experimentar, para me escutar. A primeira pessoa da minha família a saber foi a minha prima Alice, quando eu já tinha 21 anos. Depois disso, pouco a pouco, fui confiando o meu segredo a pessoas muito selecionadas – a Ella, por exemplo, foi a primeira amiga dinamarquesa a quem contei, num dia de março durante o processo de escrita da nossa tese de licenciatura.
Três anos depois, também em março, já a escrever a tese de mestrado, senti finalmente força para sair do armário de forma plena, pública e serena. Esta linha do tempo não foi aleatória. O crescimento emocional, o ambiente mais aberto da Dinamarca, o acolhimento de novas amizades e a possibilidade de reconstruir a minha identidade longe das amarras sociais de Cascais foram determinantes. Sentir-me rodeado de pessoas que me viam por quem eu sou – e não por quem esperavam que eu fosse – ajudou-me a construir o amor-próprio necessário para me aceitar, primeiro em silêncio, e depois em voz alta. Porque, no fundo, antes de nos assumirmos ao mundo, temos de nos assumir a nós mesm@s. E esse é, talvez, o ato mais difícil – mas também o mais libertador – de todos. Durante muito tempo, resisti a essa possibilidade de me assumir precisamente por achar que, se fosse verdade, a minha vida se tornaria infinitamente mais difícil. Lembro-me de pensar, vezes sem conta, que nunca teria uma vida “normal”. Que nunca teria um casamento como os outros, que ter filh@s seria complicado, que levaria com comentários para sempre.
Quando estás num balneário, com um crush por um colega que sabes que nunca poderá gostar de ti da mesma forma, sentes uma angústia quase física. Ficas ali, a tentar convencer-te de que é só uma fase, que vai passar. Mas não passa. Até ao dia em que ganhas coragem suficiente para dizer, mesmo que só para ti: “Sim, sou diferente. E está tudo bem com isso.” Foi por isso que, quando publiquei aquela foto ao lado do Sander na red carpet da Gala Anual da CBS, senti que estava, finalmente, a respirar com os dois pulmões. Era subtil – apenas uma imagem, entre outras, com a legenda a referir, casualmente, que tinha ido ao evento com o meu namorado. Mas bastou isso. Bastou essa normalidade, essa naturalidade, para transformar uma vida de silêncios num grito de liberdade. O impacto foi imediato. Recebi mensagens, chamadas, reações, palavras de apoio e alguma surpresa –sobretudo de pessoas que, durante anos, me perguntaram diretamente se era gay e ouviram-me responder que não. E eu entendo esse choque, mas não me arrependo. Porque antes de me assumir ao mundo, tive de me assumir a mim.

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