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Sábado, 12 de julho de 2025

Fui recentemente convidado, através da Associação Portuguesa na Dinamarca, para participar no Encontro Europeu de Jovens Luso-descendentes de 2025. O que me apanhou de surpresa foi a coincidência: o encontro vai decorrer entre os dias 7 e 12 de agosto… em Cascais. Logo nas datas em que já estava previsto ir a casa, logo na minha vila natal – por uma daquelas voltas da vida que não se explicam – disponível, presente. A cidade muda todos os anos, mas este ano parece ter-me escolhido a mim. E foi aí que me deu aquele clique – aquele silêncio breve que fica depois de uma pergunta para a qual não se sabe logo a resposta: o que é, afinal, ser português/portuguesa? Quando brinco e me apresento como Presidente de Portugal, estou a falar de ser a cara de quem vive em Portugal… ou de quem se sente português/portuguesa? Mesmo d@s que nunca lá tenham nascido? E isso pôs-me a pensar: afinal, o que torna o povo português tão único, ao ponto de cinquenta jovens espalhad@s pela Europa se juntarem todos os anos para conhecerem melhor o país que, de alguma forma, @s chama de volta?


Sob a paisagem antiga de Portugal, esconde-se um capítulo quase esquecido da nossa História humana. Na Gruta do Caldeirão, investigador@s encontraram vestígios de neandertais e de human@s primitiv@s. Mas o que não esperavam mudou tudo: a transição de caçador@s-recoletor@s para agricultor@s. Essa mudança não foi apenas uma etapa da evolução – foi uma transformação profunda, que quase apagou o modo de vida anterior e deixou marcas no ADN d@s portugues@s de hoje. São descobertas como esta que nos ligam ao passado, mas que também nos obrigam a pensar sobre quem somos realmente. Até o próprio nome “Portugal” guarda mistérios: acredita-se que venha do latim “Portus Cale”, em que Portus significa “porto” e “Cale” poderá ter origem num antigo povoado com raízes fenícias ou celtas. @s feníci@s, conhecid@s por fundarem portos e colónias por toda a costa ibérica, terão deixado heranças genéticas. Estudos indicam que certos marcadores fenícios estão presentes em 1 em cada 17 homens no Mediterrâneo, incluindo também os nossos. Desde cedo, o nosso sangue cruzou-se com as rotas do mar.


Há cerca de 14.000 anos, quando a última era do gelo chegou ao fim, grupos de caçador@s-recoletor@s vind@s do chamado Refúgio Ibérico espalharam-se pelo território que hoje conhecemos como Portugal. Evidências genéticas revelam que ess@s primeir@s habitantes carregavam haplogrupos como H, U e V, ainda hoje detetáveis no ADN de muit@s portugues@s. Um estudo publicado em 2015 na revista Science usou análise de ADN antigo para confirmar essas migrações. Fisicamente, ess@s caçador@s-recoletor@s tinham provavelmente pele escura e olhos castanhos, como sugerem estudos sobre populações mesolíticas europeias publicados na Nature. Eram, ao que tudo indica, de estatura baixa, talvez como reflexo da dureza do ambiente em que viviam. Ainda hoje, estima-se que entre 5 a 10% das linhagens maternas nas comunidades portuguesas modernas possam ser traçadas até ess@s primeir@s pioneir@s. Essa proporção tende a ser mais elevada em zonas rurais e isoladas, onde a continuidade com linhagens ancestrais se manteve mais intacta ao longo do tempo.


Há cerca de 7.500 anos, chegaram à Península Ibérica @s primeir@s agricultor@s neolític@s, vind@s da Anatólia – o que hoje conhecemos como Turquia. Com el@s, não trouxeram apenas sementes e técnicas agrícolas, mas também novos haplogrupos paternos, como o G2a e o E1b1b, que se juntaram à paisagem genética local. Estudos apontam que cerca de 50% da ancestralidade portuguesa tem origem ness@s primeir@s agricultor@s, embora essa proporção varie bastante entre regiões. Em zonas mais rurais do Centro e Sul de Portugal, há uma ligação genética mais forte com essas populações, enquanto as áreas urbanas refletem maior influência de migrações posteriores. Acredita-se que tivessem pele mais clara do que @s caçador@s-recoletor@s, mas ainda conservassem cabelos escuros e olhos castanhos. Os seus estilos de vida mais estáveis, ligados à terra, também permitiram um ligeiro aumento na altura média. Esse período deixou uma marca profunda no perfil genético português, sobretudo em regiões como a Beira Baixa e o Alentejo, onde a agricultura moldou não só o território, mas também a identidade local.


Há cerca de 4.500 anos, durante as Idades do Cobre e do Bronze, chegou à Península Ibérica a cultura do vaso campaniforme, trazendo consigo mudanças genéticas marcantes. Uma investigação publicada em 2018 na Nature revelou que esses povos introduziram o haplogrupo R1b-M269, um marcador paterno que hoje está presente em cerca de 60% das linhagens masculinas em Portugal, sobretudo nas regiões Norte e Centro. Est@s migrantes terão tido, em média, pele mais clara e alguns carregavam já genes associados a olhos verdes ou azuis. As suas características físicas incluíam uma estatura mais alta, tonalidades de pele mais claras e, por vezes, cabelos louros – sinais de uma nova vaga genética a fundir-se com a população local. A sua chegada diversificou o perfil populacional da região, sobretudo no Norte, onde essa herança ainda hoje é mais visível. Já na Idade do Ferro, tribos celtas como @s lusitan@s e @s galaic@s estabeleceram-se em território português, reforçando ainda mais a prevalência do haplogrupo R1b. Estudos sugerem que essas migrações tiveram maior impacto nas zonas rurais do Norte.


A conquista romana da Lusitânia, no século II a.C., trouxe consigo novas camadas de diversidade genética, especialmente no sul de Portugal e em cidades costeiras como Lisboa. Haplogrupos associados ao mundo romano, como o J2 e o T, refletem origens mediterrânicas e são mais comuns em zonas urbanas, onde @s roman@s construíram infraestruturas e se fixaram em maior número. @s roman@s tinham, em geral, pele oliva, cabelos escuros e olhos castanhos – traços que continuam hoje mais visíveis nessas regiões. Com o colapso do Império Romano, chegaram a território português tribos germânicas como @s Suev@s e @s Visigod@s, por volta dos séculos V e VI d.C. Embora a sua pegada genética tenha sido menor em comparação com as populações anteriores, ainda assim deixaram vestígios, introduzindo haplogrupos como o I1 e o R1a, mais associados ao norte da Europa. Estudos sugerem que estes marcadores são hoje mais frequentes no Norte de Portugal, sobretudo em zonas rurais, onde a continuidade com essas heranças se manteve mais estável.


No século VIII, @s mour@s muçulman@s do Norte de África governaram grande parte da Península Ibérica, incluindo o território que viria a ser Portugal, durante quase 500 anos. O seu impacto genético continua mais visível no sul do país, onde haplogrupos como o E1b1b e o J1 se tornaram prevalentes. Acredita-se que @s mour@s tivessem pele mais escura, cabelos escuros e olhos castanhos – traços ainda hoje comuns em regiões como o Alentejo e o Algarve. A par del@s, @s judeus/judeias sefarditas também desempenharam um papel importante na História portuguesa. Um estudo de 2013 identificou haplogrupos associados a comunidades judaicas, como o K e o H, ainda presentes nas populações modernas, sobretudo em zonas urbanas como Lisboa e Porto, onde as comunidades sefarditas foram, em tempos, proeminentes. Expuls@s ou forçad@s à conversão durante a Inquisição Portuguesa de 1497, est@s judeus/judeias deixaram uma marca cultural e biológica duradoura. Tal como @s mour@s, provavelmente tinham cabelos escuros, olhos escuros e feições típicas do Mediterrâneo.


Hoje, o mosaico genético de Portugal espelha as múltiplas camadas de migração e assentamento que moldaram a sua História. O Norte do país, em especial regiões como o Minho, revela fortes influências de populações celtas e germânicas. As pessoas dessas zonas tendem a ter pele mais clara, olhos azuis ou verdes e cabelos louros ou castanhos claros – traços ligados à ancestralidade do norte da Europa. As regiões rurais do Norte mantêm maior continuidade com esses grupos ancestrais, enquanto os centros urbanos registam contribuições mais recentes. No centro do país, em zonas como as Beiras e o Vale do Douro, o perfil genético é mais misto, resultado de influências celtas, romanas e mouras ao longo dos séculos. Estudos mostram que, nesta região, existe uma ampla variedade de características físicas: desde tons claros no Norte até traços mediterrânicos mais escuros à medida que se desce para sul. O Centro funciona como uma zona de transição, onde tradições e genes se cruzaram ao longo de milénios.


Já no Sul, sobretudo no Alentejo e no Algarve, a presença de agricultor@s neolític@s, roman@s, mour@s e judeus/judeias sefarditas é mais pronunciada. As pessoas aqui tendem a ter pele oliva, cabelos escuros e olhos castanhos, refletindo uma ligação profunda com populações mediterrânicas e do Norte de África. Esta mistura de povos ao longo da História também se reflete nos apelidos portugueses. No Norte, por exemplo, a ascendência celta e germânica associa-se não só a traços físicos, mas também a nomes de família com raízes nessas culturas. Antes do domínio romano, a Península era habitada por tribos como @s lusitan@s, que falavam línguas pré-romanas e deixaram marcas profundas na cultura local. Os apelidos desse tempo estão muitas vezes ligados à terra, à geografia ou à fauna e flora da região. A chegada d@s roman@s, por volta do século II a.C., trouxe nomes latinizados associados a deuses/deusas, ocupações ou virtudes, espelhando os valores sociais da época.


@s visigod@s e outras tribos germânicas deixaram nomes ligados à força, à natureza e à liderança, ainda hoje presentes em várias regiões. Já @s mouros governaram o território entre os séculos VIII e XII, trazendo com el@s a língua, o saber e a cultura árabe – e também apelidos com o prefixo “Al-”, ligados a ofícios, lugares ou elementos naturais. A comunidade judaica, que teve um papel essencial na sociedade portuguesa até à Inquisição do século XV, deixou nomes de origem hebraica ou palavras portuguesas adotadas para sobreviver à perseguição. No fundo, o ADN de Portugal conta uma história de misturas, de encontros e desencontros, ao longo de milénios. Os povos ibéricos originais foram acompanhados por roman@s, tribos do norte da Europa, mour@s do norte de África, comunidades judaicas e muit@s outr@s. Cada um(a) deixou a sua marca – visível hoje nos rostos, nos apelidos, nos costumes. Nós somos uma herança viva dessa mistura, uma ponte entre diferentes tempos e lugares. E se me perguntarem o que é, afinal, ser de Portugal… eu diria: não é herança no sangue, é escolha no coração. E eu escolho honrar a minha.

 
 
 

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