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Sábado, 11 de novembro de 2023

Atualizado: 25 de jan.

Como já se tornou rotina, as minhas manhãs de sábado são dedicadas às aulas de dinamarquês, que decorrem das 9 às 12:30. A maioria d@s meus/minhas colegas já não são estudantes, contando-se entre el@s pais/mães com cabelos grisalhos e até uma senhora grávida. Observar adult@s, que chegaram recentemente a Copenhaga e demonstram um entusiasmo genuíno pelo aprendizado do dinamarquês, é realmente inspirador. É uma realidade que contrasta com a minha, que já cá estou desde dia 27 de agosto de 2019, e só agora comecei a verdadeiramente interessar-me em dominar a língua local. Aprender um novo idioma é um processo lento, sobretudo quando o tempo é um bem tão escasso.  


O dinamarquês, com a sua pronúncia única e as suas vogais quase que enigmáticas, apresenta um conjunto de dificuldades que vão além do mero vocabulário ou gramática. Para um(a) falante nativ@ de português, habituad@ a uma língua melodiosa e clara, adaptar-se aos sons guturais e ao ritmo do dinamarquês é quase como aprender a tocar um novo instrumento musical. As nuances tonais e a pronúncia quase que cantada do dinamarquês contrastam fortemente com a fluidez do português. Cada aula é uma viagem por uma paisagem sonora desconhecida, onde cada palavra aprendida é uma pequena vitória na ponte da comunicação e integração nesta nova cultura que agora chamo de casa.


Após a aula, segui para um evento organizado pela Associação Portuguesa, pois hoje celebra-se o Dia de São Martinho, uma das minhas datas preferidas do ano. Adoro a história associada a esta celebração: a lenda conta que São Martinho, um soldado romano, partilhou a sua capa com um mendigo num dia inesperadamente frio de inverno, e milagrosamente o tempo aqueceu, dando origem ao conhecido “Verão de São Martinho”. Recordo-me de, no ano passado, estar neste mesmo evento, a desfrutar das delícias portuguesas – tremoços, Super Bocks, caldo verde, bifanas com mostarda, castanhas, arroz doce – autênticas regalias para quem vive longe de Portugal.


Este ano, contudo, a minha presença tem um sabor diferente: estou aqui como voluntário. Há cerca de duas semanas, a Mónica, Presidente da Associação Portuguesa na Dinamarca, convidou-me para ajudar no evento e eu, claro, aceitei com entusiasmo. “Voluntariado” é o meu nome do meio. A música do evento foi um verdadeiro hino à portugalidade – desde o folclórico “tiroliroliro” a melodias de Rui Veloso e Pedro Abrunhosa, passando pelo nostálgico fado.


Parte das minhas tarefas como voluntário envolveu a organização das rifas e a distribuição dos prémios. A minha tia-avó Susana, uma senhora de 85 anos que conheci aqui em Copenhaga em 2021, estava entre @s participantes. Durante a entrega dos prémios das rifas, a tia foi agraciada com uma caixa de chocolates – um prémio que lhe era perfeitamente adequado. Antes da tia voltar para o seu lugar já com o prémio na mão, toquei-lhe no ombro e segredei-lhe ao ouvido: “Tia, venha aqui falar ao microfone e diga aqui umas palavrinhas simpáticas para se dar a conhecer a esta gente toda e nos inspirar a tod@s com o seu percurso de vida.”


A tia Susana apresentou-se como Susana Louro, oriunda de São Brás de Alportel no Algarve, uma região reconhecida pela sua indústria corticeira. Falou-nos da sua vida repleta de viagens pelo mundo e da decisão de fazer de Copenhaga o seu último lar, pois foi onde se sentiu mais acolhida. Já aqui vive há 50 anos e deixou-nos uma mensagem inspiradora: “O principal é viver agora”.


No final da entrega dos prémios, aproveitei o momento para me sentar um pouco com a tia Susana. Queria expressar-lhe a minha gratidão pelo à vontade e eloquência com que ela havia encarado o desafio de discursar perante uma plateia de mais de 100 pessoas. Para agradecer-lhe de uma forma mais pessoal e significativa, ofereci-lhe um presente humilde em termos materiais, mas imensamente valioso em termos emocionais: a minha primeira carta escrita em dinamarquês, dirigida especialmente a ela.


A tia Susana, visivelmente comovida, agradeceu-me não só pela carta, mas também pela oportunidade de discursar e pelo carinho e atenção que lhe dediquei. Era visível no seu olhar e no seu sorriso a emoção genuína que aquele gesto havia despertado nela. A tia partilhou comigo, então, um pouco da sua história pessoal, explicando que, desde o falecimento do seu marido há alguns anos, tem enfrentado momentos desafiadores de solidão. A dificuldade em lidar com a ausência e a saudade era evidente nas suas palavras. No entanto, ela expressou uma profunda gratidão pela comunidade que se formou em seu redor, mencionando como se sentia acolhida e cuidada por tantas pessoas, como se estivesse em família.


Estes tempos de união e celebração servem como um bálsamo para a alma em tempos de incerteza. A notícia da demissão do Primeiro-Ministro deixou muit@s de nós, portugues@s espalhad@s pelo mundo, a refletir sobre o futuro de Portugal. Mas é em ocasiões como o São Martinho que encontramos força na nossa comunidade, na nossa cultura e nas nossas tradições. Percebo que, não importa onde estejamos, levamos um pedaço de Portugal connosco e, através destas celebrações, reforçamos os laços que nos unem, apesar das distâncias físicas e das turbulências políticas.


Ao terminar este dia, sinto uma profunda gratidão a inundar-me. O São Martinho deste ano foi mais do que uma festa: foi um lembrete de que, em qualquer parte do mundo, posso encontrar um lar e uma família, e que o meu amor por Portugal permanece inabalável. Rodeado de rostos sorridentes, risos e conversas em português, senti um pedaço de Portugal em Copenhaga, uma ponte afetiva que liga o meu presente dinamarquês às minhas raízes portuguesas. Estes momentos são preciosos, especialmente num contexto onde a distância física e as diferenças culturais podem, por vezes, pesar no coração.

 
 
 

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