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Sábado, 1 de fevereiro de 2025

Atualizado: 3 de mai.

Em outubro do ano passado, num daqueles momentos em que a vida parece tomar um rumo próprio sem sequer pedir permissão, dei início a algo que, sem o perceber na altura, viria a tornar-se uma das experiências mais intensas e transformadoras da minha vida. Não foi uma decisão premeditada, nem um plano cuidadosamente traçado ao longo de meses. A verdade é que tudo aconteceu de forma quase orgânica, encaixando-se na minha rotina já preenchida, como se sempre tivesse estado destinado a fazer parte dela. Entre os meus estudos, as responsabilidades académicas, os projetos em que já estava envolvido na universidade e a gestão da minha presença nas redes sociais, acabei por acrescentar mais uma peça ao puzzle: o desenvolvimento de um negócio. Mas não era apenas mais um compromisso, nem um projeto temporário para enriquecer o currículo ou para testar a minha capacidade de organização. Era algo diferente, algo que me desafiava de uma forma que nunca tinha experimentado antes, exigindo de mim uma combinação de estratégia, criatividade e resiliência que até então desconhecia por completo.


O mais interessante é que, desde o primeiro momento, este negócio nunca foi apenas meu. Ao contrário da ideia tradicional d@ empreendedor(a) solitári@, que constrói um império do zero apenas com a sua visão e determinação, eu iniciei este percurso acompanhado. Desde o primeiro dia, partilhei este projeto com a minha mãe e o meu tio, o pai da minha prima Alice, o que trouxe consigo uma complexidade única, um misto de confiança e vulnerabilidade que só se encontra nas relações familiares. Por um lado, havia um conforto inegável em saber que estava rodeado por pessoas de confiança absoluta, pessoas que partilhavam comigo não só laços de sangue, mas também valores e ambições comuns. Por outro, a proximidade emocional tornava tudo mais intenso, mais visceral. Hoje, depois de meses a absorver conhecimento, a testar hipóteses, a falhar e a aprender, sinto que finalmente consigo olhar para este percurso com alguma clareza. A verdade é que nunca há um momento certo para refletir e escrever sobre um processo que ainda se está a desenrolar – há apenas o momento em que se decide fazê-lo. E este é o meu.


Desde o início, sempre vi este diário como um espaço de registo, um arquivo vivo da minha evolução, tanto pessoal como profissional. Escrever aqui tem sido a forma mais natural de traduzir em palavras o meu percurso, de captar os momentos de transformação e de os tornar tangíveis. Mais do que um simples registo, este diário é uma lente através da qual consigo observar o meu próprio crescimento, as mudanças subtis no meu pensamento e as formas inesperadas como a experiência molda a minha visão do mundo. Mas, até agora, havia um bloqueio. O que eu sabia sobre empreendedorismo parecia-me demasiado volátil, demasiado imaturo para ser colocado em palavras de forma definitiva. Era como se estivesse constantemente num estado de aprendizagem acelerada, em que cada resposta trazia consigo uma nova pergunta. Cada dia era um novo desafio, cada decisão levava a novas incertezas, e isso criava em mim a sensação de estar a construir um puzzle sem ter a certeza de quantas peças realmente existiam – ou sequer se todas as peças que tinha à minha frente pertenciam ao mesmo jogo.


Mas há um momento em que, subitamente, tudo começa a encaixar. Em que os fragmentos dispersos do caminho se unem e formam algo coerente. E sinto que finalmente cheguei a esse ponto. Não porque tenha encontrado todas as respostas, mas porque percebi que o próprio ato de tentar compreendê-las já é parte essencial do processo. Olhando para trás, vejo tantas decisões que, na altura, pareciam pequenas, quase insignificantes, mas que, hoje, percebo que foram estruturantes. As pequenas vitórias que me deram ânimo para continuar e os grandes erros que me obrigaram a repensar tudo. Momentos de entusiasmo absoluto seguidos por frustrações profundas, que me fizeram duvidar, hesitar, questionar se valia a pena seguir em frente. Mas sigo. E hoje, independentemente do que este projeto venha a tornar-se, sinto que já existe um percurso digno de ser contado. E é isso que quero fazer agora: não apenas descrever o que correu bem e o que correu mal, mas também tentar compreender como tudo isto aconteceu, como se constrói algo do zero, e, acima de tudo, o que significa, na realidade, lançar um produto no mundo.


Penso que este relato poderá interessar a dois tipos de pessoas, cada uma com um nível diferente de envolvimento com o mundo do empreendedorismo, mas ambas unidas pela curiosidade ou necessidade de compreender melhor o processo de criar e lançar um produto. Por um lado, há aquelas que já tomaram a decisão de dar esse passo. Pessoas que não se limitam a sonhar ou a imaginar possibilidades, mas que já estão no terreno, a tentar transformar uma ideia num negócio real. Algumas podem estar ainda nas fases iniciais, num ponto em que a ideia é clara, mas os primeiros desafios começam a surgir – a escolha d@s fornecedor@s, a definição dos custos, as dúvidas sobre produção. Outras podem já ter um protótipo e estar a enfrentar uma nova camada de complexidade, como a logística da distribuição, a estratégia de marketing ou o posicionamento da marca no mercado. O empreendedorismo não tem um manual único, e muitas vezes o que funciona para uns/umas não funciona para outr@s, mas há lições universais que se repetem, e se puder poupar alguém ao custo de um erro que eu já cometi, então já vale a pena partilhar esta jornada.


Mas há também um outro tipo de pessoa, aquela que nunca chegou a comprometer-se totalmente com a ideia de lançar um produto, mas que, em algum momento, se imaginou a ter algo próprio. Alguém que, de vez em quando, divaga sobre a possibilidade de criar uma marca, de lançar um projeto, de transformar uma paixão ou uma ideia num negócio viável, mas sem nunca dar o passo seguinte. Pode ser porque falta confiança, porque o receio do fracasso fala mais alto, porque as dúvidas se acumulam a cada nova pesquisa feita sobre o assunto, ou simplesmente porque nunca houve um motivo suficientemente forte para avançar. Talvez tenha ouvido histórias de quem tentou e não conseguiu, talvez tenha sido desencorajad@ pelo ceticismo d@s outr@s ou talvez não tenha sequer tido tempo para se dedicar a essa possibilidade. Seja qual for a razão, essa hesitação é completamente válida. Criar um produto físico e transformá-lo num negócio não é para toda a gente. E a realidade do empreendedorismo é bem diferente da imagem polida e otimista que tantas vezes se vê. Há um peso real que nem tod@s estão dispost@s a carregar.


E talvez o maior problema seja mesmo esse: a forma como o empreendedorismo é retratado, sobretudo nas redes sociais. O que se vê no Instagram e no TikTok é um mundo idealizado, cuidadosamente editado para parecer acessível e empolgante. Criar um negócio é frequentemente apresentado como um caminho linear, onde tudo acontece com facilidade e rapidez. Os vídeos mostram jovens empreendedor@s sorridentes, sentad@s em cafés modernos, a trabalhar nos seus computadores, ou então a celebrar o lançamento de um produto que, aparentemente, foi um sucesso imediato. A história que nos contam é sedutora: basta ter uma boa ideia, juntar uma dose de determinação e, de repente, como que por magia, surgem clientes, dinheiro e reconhecimento. As dificuldades raramente aparecem nestas narrativas, e quando aparecem, são contadas como pequenos obstáculos que foram rapidamente superados. O que ninguém mostra são os meses – ou anos – de tentativas falhadas, os momentos de dúvida profunda, as noites mal dormidas a tentar perceber porque é que algo que parecia promissor não funcionou na realidade.


Não se fala do peso da responsabilidade, do medo de investir e não recuperar, ou do desgaste mental de ter de estar constantemente a resolver problemas que parecem não ter fim. A realidade tem noites em branco em frente ao computador, tem investimentos que desaparecem sem trazer os retornos esperados, tem decisões que parecem impossíveis de tomar e uma dose esmagadora de incerteza que nunca desaparece por completo. Criar um produto não é um processo linear, e muito menos um conto de fadas. Não há garantias, não há atalhos, não há sucesso instantâneo. O que existe são desafios constantes, momentos em que tudo parece estagnar e um esforço diário para transformar um conceito numa realidade tangível. Aprender isso foi um dos primeiros grandes choques do meu percurso. Foi perceber que o caminho não se constrói com saltos triunfantes, mas com pequenos passos hesitantes. Que os momentos de entusiasmo inicial rapidamente dão lugar à frustração de não saber qual será o próximo movimento. E que o verdadeiro sucesso não é apenas uma questão de talento, mas de resistência perante tudo o que não corre como esperado.


E tudo começou de forma quase absurda. Em setembro, enquanto atravessava os corredores da minha faculdade, o meu olhar foi involuntariamente atraído por uma frase que brilhava nos ecrãs das televisões espalhadas pelo campus: “Torna o Aquecimento Global no teu negócio.” Parei por um segundo, absorvendo aquelas palavras. Não era um anúncio qualquer, nem uma mensagem genérica sobre sustentabilidade. Parecia um desafio, um convite para transformar um problema global numa oportunidade de ação. Não fazia ideia a que programa se referia, nem quem estava por trás daquela iniciativa. Mas havia algo naquela chamada à ação que me prendeu. Era como se aquelas palavras tivessem sido colocadas ali à minha espera, como se estivessem a falar diretamente comigo. Sem hesitar – e sem qualquer noção real do que estava a fazer – peguei no telemóvel e inscrevi-me. Foi uma decisão puramente instintiva, daquelas que se tomam sem ponderação excessiva, quase irracionalmente. Não me preocupei em investigar, em tentar perceber os detalhes, em ponderar se seria o momento certo para embarcar num novo compromisso.


Semanas depois, enquanto abria a caixa de entrada do meu email, deparei-me com uma mensagem que fez o meu coração acelerar ligeiramente. No assunto, lia-se algo como “Parabéns! Bem-vindo ao Deep Green Innovators Programme”. Abri o email sem saber exatamente o que esperar. As palavras eram entusiásticas, cheias de promessas sobre inovação, sustentabilidade e empreendedorismo circular. Falavam de um ambiente dinâmico, onde mentes criativas de diferentes áreas se reuniriam para transformar ideias sustentáveis em negócios reais. A energia do texto era contagiante, e por momentos senti-me transportado para um futuro onde, quem sabe, a minha participação naquele programa poderia resultar em algo concreto, em algo com impacto. Não hesitei. Respondi de imediato, confirmando a minha participação sem sequer questionar o que realmente me esperava. Ainda não tinha noção da profundidade do que iria aprender nem do quão desafiador o processo poderia ser, mas já estava comprometido. E só mais tarde percebi que essa decisão impulsiva iria definir grande parte dos meses seguintes da minha vida.

 
 
 

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