Sexta-feira, 8 de março de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 16 de nov.
Hoje, enquanto me encontro submerso numa maré de compromissos políticos e académicos, celebra-se um dia de enorme significado: o Dia Internacional da Mulher. Esta efeméride é um convite à reflexão e ao reconhecimento das inúmeras mulheres extraordinárias que enriquecem a minha vida. Sinto-me profundamente grato por ter sido abençoado com a presença de pessoas como a minha mãe, cujo pragmatismo e força emocional me moldaram; a minha avó, cuja fé constitui a luz que guia a nossa família; a minha amiga Gargi, cuja inteligência e capacidade de adaptação nunca cessam de me surpreender; a minha prima Alice, cujo talento e autenticidade estão a abrir caminho no mundo do entretenimento; e a minha madrinha Leonor, cuja paixão pela vida e pelos animais é uma inspiração constante.
Estas mulheres, a par de muitas outras que se cruzaram comigo, têm sido pilares da minha jornada. Cada uma, à sua maneira, teve um papel decisivo no meu desenvolvimento pessoal e profissional, incutindo-me o apreço pela diversidade, pela resiliência e pela relevância da empatia. Representam a verdadeira quintessência do amor – não apenas pela sua capacidade de enfrentar adversidades, mas também pelo seu ímpeto de se erguerem em prol da compaixão e da justiça. Hoje, mais do que em qualquer outro momento, reforço o meu compromisso de apoiar e exaltar os feitos femininos em todas as dimensões da sociedade, consciente de que persiste um extenso trajeto até que a autêntica igualdade seja uma realidade. Assim, neste Dia Internacional da Mulher, é com imensa gratidão que penso em todas as mulheres incríveis que fazem parte da minha vida, cujas histórias, desafios e triunfos pavimentam o caminho para um futuro de maior justiça e equidade.
Em Portugal, o panorama político encontra-se particularmente agitado na antecipação das eleições parlamentares deste domingo, dia 10 de março. Esta votação é de crucial importância, vindo na sequência de um escândalo de corrupção que levou à demissão do Primeiro-Ministro António Costa, do Partido Socialista, e à subsequente dissolução do Parlamento. Segundo as mais recentes sondagens divulgadas pelo jornal Público, a Aliança Democrática, uma coligação de direita encabeçada pelo Partido Social Democrata, lidera as intenções de voto com 34%, superando a coligação de esquerda, liderada pelo Partido Socialista, que se situa nos 28%. No entanto, ao incluir pequenos partidos aliados, a esquerda alcança uma ligeira vantagem, somando 41% das intenções de voto, contra os 40% da direita. Esta distribuição de forças sugere uma profunda remodelação no Parlamento português, marcando uma distinção face ao cenário anteriormente dominado pel@s socialistas e refletindo a expectativa de uma mudança significativa na dinâmica política do país.
Paralelamente, na CBS, a Direção da universidade anunciou uma proposta que visa reduzir o número de Direções de Curso de 23 para 9, assim como descontinuar cinco cursos de licenciatura. Esta iniciativa faz parte de uma estratégia denominada Strategic Programme Portfolio Review (SPPR), cujo objetivo é assegurar que os cursos oferecidos estejam alinhados com as exigências atuais do mercado de trabalho e as necessidades da sociedade. No meu papel de representante d@s estudantes, tanto no Conselho Académico como na Direção de Curso do meu mestrado, enfrento o desafio de mediar este diálogo, compilando e comunicando as preocupações e propostas d@s estudantes à gestão da universidade. Esta é uma grande responsabilidade, considerando que as mudanças sugeridas terão um impacto direto e significativo no percurso académico e na carreira profissional de muit@s estudantes.
A associação de estudantes da CBS, a CBS Students, da qual já não faço parte devido a um incidente passado que levou ao meu afastamento, está a reagir vigorosamente a esta proposta. Sob o lema “Não nos acomodemos com menos”, encorajam a assinatura de uma petição e a participação num protesto agendado para o dia 11, ao meio-dia, em frente à biblioteca. Surpreende-me que a associação opte por contestar a Direção da universidade tão abertamente, utilizando as suas plataformas para promover um protesto físico, em vez de criar um espaço que permita aos/às estudantes expressarem as suas preocupações e proporem alternativas construtivas aos desafios enfrentados pela CBS. A proposta em debate é vasta e complexa, e muit@s estudantes ainda estão desinformad@s sobre as suas potencialmente graves repercussões na representação estudantil nos órgãos decisórios da universidade.
A redução do número de Direções de Curso resultará inevitavelmente em menos representação d@s estudantes na esfera política da CBS. Se eu ainda fizesse parte da CBS Students, advogaria contra a realização do protesto, considerando que tal ação exacerbasse sem dúvida a já tensa relação com a Direção – a mesma que eliminou os convívios sociais estudantis semanais no campus nos últimos anos. Em alternativa, proporia convocar tod@s @s estudantes para um debate, com o objetivo de redigir uma carta à Presidente interina da CBS, enquanto aguardamos a nomeação de um(a) nov@ Presidente, para apresentar as modificações necessárias à proposta. Esta abordagem não só preservaria a dignidade da relação entre @s estudantes e a Direção, que manifestou desagrado por protestos, mas também reforçaria a nossa legitimidade como corpo estudantil e, possivelmente, garantiria que as nossas vozes fossem consideradas e ouvidas.
Curiosamente, enquanto redigia esta entrada no meu diário, recebi uma mensagem da Anna, Diretora de Recursos Humanos da equipa deste ano da CBS Students. Ela escreveu-me: “Olá! Sou a Anna da CBS Students. Já assinaste a petição contra a redução do número de cursos e de Direções de Curso? Podes encontrar o link para a petição aqui: [endereço do website]. Vamos também fazer um protesto físico na segunda-feira, ao meio-dia, em frente à biblioteca. Por favor, comparece e ajuda-nos a combater esta proposta que tenta diminuir a nossa voz enquanto estudantes. Ficaria muito contente em ver-te lá! És uma estrela da CBS.” Ao que eu respondi: "Não diria estrela, ahahah, mais como um fantasma. Mas vou ajudar a divulgar a petição.”; e ela replicou: "Não, tenho a certeza de que és uma estrela!”; e agradeceu. Isso, sinceramente, fez o meu dia.
Recordo com nitidez o dia em que abandonei pela última vez o escritório da CBS Students, espaço que acolheu três anos de empenho da minha vida. Após entregar o meu cartão de acesso à Sussi, uma das Secretárias da associação de estudantes, e de apanhar o meu casaco do cabide, cristalizou-se a convicção de que jamais regressaria àquele escritório. Se tal ocorresse, seria por razões alheias, e não mais como o Duarte, Diretor de Rede; mas sim apenas como o Duarte, o mesmo que em tempos ambicionou tornar-se o primeiro Presidente internacional da associação, um sonho que ficou por materializar. Curiosamente, o escritório da CBS Students encontra-se mesmo para a direita de uma das entradas do campus principal, paradoxalmente a que mais se aproxima do meu itinerário diário. Durante um ano inteiro, forcei-me a caminhar até à entrada oposta, numa tentativa de esquivar-me daquelas memórias pungentes. O fardo destas recordações…
Durante muito tempo, acreditei que, independentemente do meu empenho, das posições, títulos ou prémios de reconhecimento que alcançasse, a minha reputação junto à associação de estudantes seria inalterável. Isso deve-se ao facto de, anualmente, no momento da transferência de saberes de uma equipa para outra na associação, ser feito um apanhado da História da CBS Students, onde o meu nome foi, infelizmente, manchado. Era o que pensava. No entanto, encorajado agora pelas palavras amáveis da Anna, compreendo que as perceções são passíveis de mudança, assim como as reputações. A Anna é mais um exemplo de uma mulher a ser celebrada neste dia tão especial – uma mulher que não receia abordar as pessoas independentemente do que possa ter sido dito sobre elas, promovendo a inclusão de tod@s @s membros, sem exceção, dos cargos políticos da CBS, sem se deixar afetar por conflitos passados.
A generosidade encontrada neste Dia Internacional da Mulher e os desafios que enfrento enquanto representante estudantil convergem para uma compreensão mais ampla de que, mesmo os legados manchados pela adversidade, podem ser polidos pela perseverança e pela capacidade de perdoar e avançar. É neste espírito de celebração e de compromisso para com a mudança construtiva que vejo este período eleitoral e as disputas na CBS não como obstáculos intransponíveis, mas como oportunidades para exercer a influência positiva que sei ser capaz de manifestar. Com esta perspetiva renovada, não apenas no Dia Internacional da Mulher mas em todos os dias que se seguem, proponho-me a ser um agente de transformação, que honra o passado sem ficar preso a ele, e que olha para o futuro com determinação e esperança.

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