Sexta-feira, 25 de outubro de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 7 min de leitura
Ando tão feliz que me custa colocar em palavras a profundidade deste sentimento. Acredito, com toda a sinceridade, que nunca estive tão em paz, tão pleno, tão grato com a vida. Esta felicidade não é feita de um momento isolado ou de uma coincidência feliz; é uma sensação sólida e abrangente, um estado que se construiu em cada pedra que tropecei, em cada queda e em cada vez que me levantei com mais força. Parece que, finalmente, tudo se está a alinhar de forma quase mágica. Como se Deus, numa conspiração silenciosa e cúmplice, se tivesse decidido a mostrar-me o valor de cada sacrifício, o peso de cada lágrima contida e a beleza de cada instante em que me senti só, perdido e fora de lugar. Hoje, esta consciência atingiu-me com uma força avassaladora. No meio do supermercado, sem qualquer aviso, fui tomado por uma onda de emoção tão arrebatadora que as lágrimas começaram a correr-me pelo rosto sem que eu as pudesse conter. Era como se, de repente, cada momento me gritasse que valeu a pena. E era tal o alívio que as lágrimas não eram de tristeza ou de dor, mas de pura felicidade.
Há uns anos, nesta altura do ano, o cenário era bem diferente. Quando me mudei para a Dinamarca, lembro-me vividamente de como outubro e novembro me traziam uma ansiedade surda, um fantasma que se instalava no meu peito e do qual parecia impossível escapar. Era uma inquietação que me acompanhava desde a infância e se tornava mais pesada à medida que os anos passavam. Esta época do ano trazia consigo um medo profundo: o medo de que o dia 24 de novembro chegasse e eu, sem ninguém ao meu lado, me visse sem amig@s para convidar para o meu aniversário. Precisava de uma alma amiga que pudesse estar ali para mim naquele dia que, para a maioria, é apenas uma data, mas que para mim sempre significou tanto. Porque, na realidade, o que mais temia não era a ausência de uma festa, mas sim a possibilidade de, em meio a tantas mudanças e rostos novos, passar despercebido, invisível, sem alguém que quisesse partilhar comigo aquele momento de celebração. Havia um pavor silencioso de que, na azáfama da vida, ninguém reparasse realmente em mim, de que a minha alegria e presença não fizessem falta a ninguém.
Para quem acredita na teoria da “ordem de nascimento” – que sugere que uma parte considerável do nosso caráter e das nossas experiências é influenciada pelo lugar que ocupamos entre @s noss@s irmãos/irmãs – o meu estatuto de primogénito diz muito sobre quem sou. Dizem que @s primogénit@s têm o privilégio de desfrutar, por um breve período, de uma atenção exclusiva e irrepetível d@s pais/mães, até ao nascimento d@ próxim@ filh@. No entanto, com esse privilégio, vem também uma responsabilidade quase invisível, mas constante, que nos molda de forma inevitável. Cresci com um sentido de dever que parecia enraizado em mim, com uma necessidade quase incontrolável de agradar, de mostrar que estava à altura das expectativas – não só as d@s meus/minhas pais/mães, mas as minhas também, como se houvesse um juramento silencioso de que ser o primeiro significava ser exemplo, uma espécie de guardião de tudo o que @s mais nov@s deveriam observar e aprender. Cada erro parecia ter um peso maior, como se estivesse sempre em teste, enquanto seguia as regras à risca, liderava o caminho e absorvia a autocrítica que, por vezes, me dominava.
Enquanto muitos dos meus colegas rapazes passavam os intervalos a jogar futebol, eu era o miúdo que, em vez de correr atrás de uma bola, preferia explorar o meu lado artístico, mergulhar nos livros e envolver-me em competições de Matemática, História de Portugal e Ciências Naturais. Enquanto a maioria seguia as normas sociais do recreio, eu criava o meu próprio caminho. Recordo-me vivamente das vezes em que gozavam comigo por ser o aluno que levantava o dedo em todas as aulas, que se destacava por não ter receio de participar. E, quando me enganava, algo raro, esse pequeno erro tornava- se motivo de troça durante o resto do dia. @s meus/minhas pais/mães, num gesto de proteção, chegaram a aconselhar-me a, por vezes, deixar passar as perguntas, a dar espaço para que @s outr@s também tivessem a sua oportunidade de brilhar. Ironia das ironias, aquel@s que me criticavam eram @s mesm@s que, em momentos de necessidade, recorriam a mim em busca de ajuda para as matérias mais difíceis. Curiosamente, esse contraste mostrava-me que, mesmo na diferença, eu tinha algo a oferecer.
Houve alturas em que as palavras d@s outr@s, os comentários maldosos, se cravavam em mim como lanças afiadas. Um episódio particularmente marcante ocorreu durante o meu primeiro intercâmbio, aos 14 anos, no projeto Cascais-Biarritz, uma iniciativa entre Portugal e França. Estava num quarto cercado de outr@s miúd@s, alguns/algumas portugues@s e outr@s frances@s. Eu mantinha-me reservado, o meu inglês era hesitante, e a confiança, ainda frágil, parecia fugir-me. No meio de uma conversa animada, lembro-me de um dos rapazes portugueses se voltar para trás, olhar diretamente para mim e, como quem vê algo inesperado, soltar um “Ai, que susto!” – tudo porque eu estava ali, quieto, sem me fazer notar. Aquela exclamação, aparentemente inocente, abriu uma ferida que ainda hoje sinto. Foi um instante de pura invisibilidade, como se a minha presença não tivesse valor até ser confrontada com espanto. Era como se, por mais que tentasse, nunca fosse o suficiente para realmente pertencer. Naquele momento, um pânico tomou conta de mim, reforçando a sensação de que, por mais que desejasse, nunca iria encaixar completamente.
Essas experiências tornaram-se uma constante ao longo da adolescência, onde a minha diferença não só me destacava, mas também me isolava. A intensidade com que vivia cada momento e a ambição fervorosa de me tornar alguém reconhecido – quase como se cada conquista fosse uma forma de validar o meu valor – faziam de mim um intruso, um elemento deslocado no mundo que me rodeava. Era como se essa ânsia de ser notado, de não passar despercebido, me empurrasse para uma linha ténue entre a aprovação e a rejeição. Lembro-me de, em 2020, já com alguma presença nas redes sociais, sentir o peso dos rótulos que me lançavam sem hesitação: “o puto chato com uma voz irritante”, “o iludido que acha que um dia conseguirá chegar ao cargo mais elevado do país. Eu também já fui delegad@ de turma no 1.º ano.” Era uma realidade estranha, quase surreal, perceber que pessoas que nunca haviam partilhado uma única conversa comigo se apressavam a formar uma opinião tão dura e crua, baseando-se apenas num vídeo. Parecia que, aos olhos del@s, a minha autenticidade era uma afronta, um erro a ser corrigido.
Esses comentários, vindos de estranh@s que nada sabiam das batalhas que travava em silêncio, eram feitos com uma facilidade assustadora, como se a minha vida estivesse ali apenas para ser dissecada e julgada sem piedade. Cada palavra, cada crítica, cada piada descomprometida parecia carregar um peso que eu, sozinho, tinha de suportar. No entanto, o que pouc@s viam era o motivo pelo qual mantinha essa postura pública: um desejo profundo e quase desesperado de me afirmar, de construir um espaço onde finalmente pudesse sentir que pertencia, sem precisar de me esconder. Para mim, a exposição nas redes não era uma questão de vaidade, mas uma tentativa de vencer o medo da solidão, de encontrar uma voz num mundo que tantas vezes me tinha silenciado. O meu único “crime”, afinal, era a fidelidade a quem sou, uma teimosia inabalável em ser eu mesmo, mesmo que isso significasse enfrentar, de peito aberto, a crítica e os julgamentos alhei@s. Muit@s pensavam que era audacioso, arrogante até, mas não compreendiam que ser diferente era uma espécie de missão solitária que me obrigava a descobrir novas partes de mim.
Ser diferente não era apenas uma questão de escolhas, de ter preferido a biblioteca ao campo de futebol ou as Olimpíadas de Matemática ao grupo popular. Era um estado constante de alerta, uma presença inquietante que me dizia que, se fraquejasse, se deixasse que @s outr@s me moldassem, deixaria de ser quem realmente sou. A diferença trazia-me dor, sim, e uma solidão tão profunda que, por vezes, parecia insuportável, como um vazio permanente que ecoava em cada riso abafado, em cada piada troçada nas costas. Mas foi essa mesma diferença que me empurrou para a frente, que me obrigou a ver o mundo com outros olhos, a encontrar em cada sombra uma luz e a reinventar-me vezes sem conta, adaptando-me mas sem ceder o meu núcleo, mantendo viva a minha essência. A cada pedra no caminho, a cada crítica que ecoava, aprendi a transformar a dor em força, a usar as palavras como combustível e as feridas como aprendizagens. Apesar das lanças e das críticas, nunca me rendi a uma versão de mim que não fosse autêntica. Essa é a minha maior vitória. O que um dia foi o meu maior fardo é, agora, a minha maior conquista.
Percebo agora que aqueles momentos de rejeição foram, na verdade, dos maiores presentes que a vida me poderia ter oferecido. Se tivesse optado pelo caminho mais fácil, integrado na “malta popular,” talvez o tempo dedicado à minha própria profundidade e ao desenvolvimento das capacidades verdadeiramente únicas tivesse sido escasso, e os interesses que, desde sempre, moldam a essência de quem sou não teriam encontrado espaço para florescer. Foi no silêncio da solidão, sem a pressão dos olhares alheios, que forjei a minha resistência; foi graças a esses dias de isolamento que aprendi a encontrar o meu verdadeiro valor, independentemente do que outr@s pudessem pensar ou dizer. Hoje, ao olhar para a felicidade que construí, percebo que nada disto teria sido possível sem esses momentos de introspeção profunda, onde, ao confrontar-me comigo mesmo, fui forçado a procurar as respostas em mim. Essa jornada de autodescoberta mostrou-me que a força para ser quem sou esteve sempre ali, ao meu alcance, na minha própria companhia, dispensando a aprovação de quem quer que fosse.
Agora, em vez de temer a solidão, encontro-me com uma nova preocupação: a possibilidade de ter mais pessoas do que lugares à mesa. Este ano, a lista de 24 pessoas é limitada, não por falta de afeto, mas pela falta de espaço físico para acolher tant@s que, ao longo do tempo, se tornaram parte desta jornada. Sorrio ao pensar que este aniversário será verdadeiramente mágico – o momento em que, aos 24 anos, no dia 24 de novembro de 2024, estarei rodeado pelas pessoas que realmente importam. Este será o meu dia, o número 24, o meu número da sorte, o mesmo número de horas que tenho diariamente para fazer a diferença e ser fiel ao meu propósito. E este ano, mais do que nunca, sinto que estou a viver de forma a honrar cada uma dessas horas. Finalmente, percebo que a felicidade é algo que sempre habitou dentro de mim, mas que precisei de anos de questionamento e de isolamento para desvendar. A verdadeira felicidade não depende d@s outr@s, nem das posses ou conquistas que possa ter, mas sim do orgulho que tenho em ser quem sou e do amor que sinto por cada parte de mim, mesmo aquelas que, durante tanto tempo, tentei esconder.

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