Segunda-feira, 30 de junho de 2025
- Duarte Carrasco
- 1 de jul
- 8 min de leitura
Hoje saiu a lista da Forbes 30 Under 30 Portugal e, confesso, fiquei a remoer mais do que gostaria de admitir. Por fora, tudo continua como sempre – aulas de dinamarquês, reuniões, o Bubtex a ganhar forma – mas por dentro, algo se deslocou. Senti aquele desconforto conhecido: o sucesso d@s outr@s a servir de espelho. Mas não por inveja. Foi mais como um reflexo que me obrigou a fazer perguntas difíceis sobre o que é, afinal, ter impacto real. O que conta como sucesso? O que significa ser relevante num país onde o tempo de atenção dura segundos e a validação vem, quase sempre, de fora? Ao ver o nome da Constanza Ariza naquela lista, o primeiro pensamento nem foi sobre ela – foi sobre mim. Sobre onde estou, onde quero chegar, e se o caminho que escolhi é demasiado grande para continuar a acreditar nele nos dias em que ambições tão menores, como as de criador@s de conteúdo rápido, parecem ser suficientes para receber reconhecimento. Agora basta fazer dancinhas no local de trabalho para entrar na Forbes? Não estarei a ser demasiado, ao dedicar-me à produção de nanobolhas sem consumo energético?
Lembro-me bem de quando nos cruzámos pela primeira vez, em 2020, ainda no rescaldo do primeiro confinamento, quando o mundo parecia estar a redescobrir-se através de ecrãs. Eu estava a dar os primeiros passos nas redes sociais, ainda sem saber muito bem o que queria partilhar ou a quem queria chegar. Ela, por sua vez, já mostrava aquela confiança natural de quem domina a câmara e percebe o ritmo da internet. Participámos junt@s na primeira TikTok Summer Week – uma espécie de retiro criativo para jovens criador@s de conteúdo em Portugal – numa casa em Vilamoura, onde passámos cinco dias a experimentar ângulos, editar vídeos e trocar ideias sobre autenticidade e algoritmos. Durante algum tempo, mantivemos contacto: trocávamos mensagens, dávamos likes um(a) ao/à outr@, havia aquela sensação de estarmos a crescer em paralelo. Mas depois, como tantas ligações que se alimentam mais de contexto do que de consistência, afastámo-nos. Não houve drama nem silêncio forçado – só aquele distanciamento lento e inevitável, quando as rotinas se tornam demasiado diferentes para caberem no mesmo tempo.
Ainda assim, ao vê-la hoje naquela lista – num palco tão carregado de simbolismo como o Forbes 30 Under 30 Portugal – senti uma espécie de aceleração interna. Um olhar automático para dentro: e eu? Em que ponto estou? O que fiz eu nestes cinco anos? Não é uma comparação de méritos, mas sim um confronto com a forma como medimos o valor das nossas escolhas. A Constanza cumpre todos os critérios: é dentista formada, soma mais de um milhão de seguidor@s no TikTok, lançou um livro de autoexpressão, gravou um tema pop e continua a ser presença constante nas conversas sobre representatividade digital. Nada disto é superficial – é trabalho, é consistência, é presença. Mas, ao mesmo tempo, interrogo-me se a visibilidade, quando demasiado imediata, não acaba por esvaziar a substância. Há uma diferença entre partilhar algo de verdadeiro e apenas tornar algo visível. Entre estar em todo o lado e deixar um lugar melhor depois de passar. E é isso que me inquieta: perceber que, mesmo sabendo que o meu caminho é outro – mais lento, talvez menos visível – ainda me deixo afetar pela lógica do reconhecimento rápido.
Não é ciúme. Nem frustração mal digerida. É outra coisa, mais funda, mais difícil de nomear. É uma vontade urgente de me recentrar, de redefinir o que ando a fazer, e porquê. Estar nas redes há cinco anos ensinou-me muita coisa – nem sempre pelas vias mais leves. Aprendi que tudo tem um ciclo, mesmo o entusiasmo. Há fases em que o algoritmo nos empurra para a frente, como se o mundo tivesse finalmente encontrado o nosso tom, e outras em que tudo fica em silêncio, sem explicação. Acontece com a mesma naturalidade com que as marés sobem e descem. Mas é nesse silêncio – que tant@s temem – que tenho feito o meu trabalho mais importante. Porque desaparecer é, por vezes, uma forma de resistir. Resistir à pressa, à exposição, à obrigação constante de ser interessante. Há um talento invisível em saber calar quando não se tem nada de novo a dizer. Em saber escutar-se primeiro, antes de voltar a falar. E esse talento, ironicamente, nunca é premiado. O sistema valoriza quem grita mais alto, não quem pensa mais fundo. Falar pouco é confundido com irrelevância. Refletir é confundido com inatividade.
No entanto, talvez as ideias mais profundas nasçam nesses períodos mudos, quando a atenção vira para dentro e se deixa de correr atrás do brilho d@s outr@s. Talvez seja aí que esteja o meu lugar. Não tanto na ribalta constante, mas nesse limbo mais tranquilo, onde se vive primeiro para só depois se criar. As paródias musicais que escrevo, os vlogs que partilho, até os textos mais longos que poucos leem – tod@s nascem de momentos em que algo em mim precisava de sair. São feit@s de fragmentos do que sou: as noites em que duvidei de tudo, os dias em que tive de recomeçar, os telefonemas em que me despedi sem saber se era a última vez. São rascunhos de vida, colados com dúvidas, não com certezas. E é isso que dá peso ao que publico. Porque não vem de uma estratégia, nem de uma persona montada. Vem da confusão, do medo, da alegria inesperada. Do corpo que falha, da mente que vacila, do coração que muda de ideias. E talvez seja por isso que quem me segue continua aí, mesmo quando desapareço durante semanas. Porque sabem que, quando volto, venho inteiro. Venho com algum ensinamento novo para partilhar.
E talvez, no fundo, seja mesmo isso o que tenho para oferecer: não o conteúdo mais rápido, mais viral, mais afinado com o algoritmo – mas o mais humano. Aquele que não procura vencer o tempo com artifícios, mas reconciliar-se com ele, aceitando que há um valor profundo na lentidão, na hesitação, no intervalo entre o que se sente e o que se consegue dizer. Nos bastidores da criação, há dias de silêncio, páginas por preencher, pensamentos que não se deixam agarrar. E é aí, nesse espaço entre o impulso e a expressão, que eu tenho aprendido a habitar. Enquanto muita gente corre para acompanhar o ciclo do “trending”, eu tenho tentado fazer o oposto: parar o tempo, ou pelo menos abrandá-lo, para escutar o que ainda não está pronto para ser dito. É uma prática fora do convencional, esta de resistir à urgência da publicação, de escrever sem publicar, de criar sem anunciar. Não sei se isso me torna menos relevante, mas sei que me torna mais eu. E talvez seja essa a única métrica que, a longo prazo, interessa. Porque, no fundo, não é a velocidade com que se diz que importa – é a verdade que se leva no que se escolhe dizer.
Quando comecei, aos 19 anos, fui lançado para dentro de uma espécie de fama crua, sem filtro e sem manual de instruções. Era o mundo a abrir-se sem avisar, e eu, ainda a tentar perceber quem era, já estava a ser interpretado, comentado, moldado pelos olhares d@s outr@s. De repente, andava a ser denegrido por pessoas com milhões de visualizações, como o Pedro Teixeira da Mota, e eu fingia que não me importava – como se aquela atenção toda não tivesse deixado uma marca. Mas importava, claro que importava. Só que não havia espaço para mostrar que me afetava. Então construí uma armadura. Não de ferro, mas de indiferença aprendida. Comecei a medir as palavras, a evitar a exposição emocional, a rir com um tom acima do normal para esconder o desconforto. E isso, durante muito tempo, resultou. Protegeu-me de críticas, de rótulos, até de mim mesmo. Mas também me afastou da verdade do que queria criar. Porque, ao proteger-me do julgamento, protegi-me também do toque. Tornar-me inatingível parecia força, mas era solidão disfarçada. Uma solidão feita de likes, partilhas e silêncios que ninguém via.
Agora, com 24 anos, estou finalmente a aprender a baixar essa guarda. E não porque o mundo lá fora tenha ficado mais gentil, mas porque deixei de querer ser imune. Aceitar que ser vulnerável não é fraqueza, mas condição para criar algo que realmente toque alguém, mudou a forma como me vejo – e como vejo @s outr@s. Já não estou interessado em manter uma personagem coerente; prefiro ser contraditório, mas real. A vida fora do ecrã é o que me ancora. Já não coloco @s meus/minhas seguidor@s num pedestal, nem espero del@s mais do que aquilo que eu também sou capaz de dar. Veem uma parte de mim, mas não têm de ver tudo. E está tudo bem. O que fica de fora, guardo para @s meus/minhas: a minha família, que me lembra de onde venho; @s meus/minhas amig@s, que me puxam de volta quando começo a flutuar; o meu namorado, com quem aprendo a estar presente de verdade. Acordar ao lado dele, ir ao supermercado, discutir sobre quem lava a louça ou que série ver a seguir – tudo isso é mais revolucionário do que parece. São gestos pequenos, mas que me devolvem a escala certa.
Porque enquanto o mundo digital continua a gritar por atenção, likes e validação imediata, eu tenho aprendido – à custa de quedas, silêncios e noites mal dormidas – que há um tipo de impacto que não faz barulho. É o impacto que se constrói no tempo lento da escuta, da coerência, da presença com intenção. E é esse que me interessa. O mais duro neste meio é que, por mais que te conheças, há sempre uma parte de ti que acaba por ser medida pelos olhos d@s outr@s – por números, convites, prémios, listas. E isso cansa. Mas quando passas a confiar na tua bússola, essa ânsia desvanece. Já não me inquieta se uma marca decide não me contratar porque sou demasiado honesto. Já não me corrompe a ideia de agradar só para manter contratos. A minha paz já não depende de campanhas. E a verdade é esta: se um dia isto tudo desaparecer, eu continuo inteiro. Porque não sou só um avatar com bio e portefólio. Sou alguém que sabe escrever um pitch, montar um negócio, ouvir um(a) amig@, fazer perguntas difíceis. Alguém que sabe estar. E isso, no fundo, é o meu trunfo secreto: crio com qualidade, não com quantidade.
Por isso, sim, talvez a Constanza esteja agora no topo. Talvez tenha descoberto a fórmula certa para este tempo: breve, viral, visualmente apelativa. E que o desfrute. Eu? Continuo a escolher o caminho que me faz sentido, mesmo quando não tem palco. Continuo a estudar, a levantar o Bubtex do zero, a trabalhar em silêncio naquilo que me apaixona e desafia. Não troco o que estou a construir por um lugar numa lista, por mais brilhante que ela seja. Se um dia o meu nome aparecer na Forbes, será porque aquilo que fiz falou por mim – não porque aprendi a dançar para o algoritmo. O que quero, no fundo, é chegar aos 30 com a certeza de que fui fiel a mim próprio. E isso, nem tod@s podem dizer. Porque a verdade é esta: há quem brilhe nas luzes do momento, e há quem escolha acender a sua própria, mesmo quando ninguém está a olhar. Eu escolho essa luz – menos espetacular, mais persistente. Uma luz que não depende de prémios nem de tendências, mas de integridade. E enquanto muit@s se atropelam para entrar na próxima lista, eu escrevo a minha. Tenho uma lista de nomes – e o teu está a negrito.

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