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Segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Uma vez tomada a decisão de iniciar um negócio com a minha mãe e o meu tio, não havia volta a dar. Era um compromisso sério, com implicações financeiras, emocionais e logísticas que não poderiam ser ignoradas. O envolvimento num projeto desta dimensão não pode ser parcial – não há espaço para meio-termo entre avançar e hesitar. Tentar equilibrar o investimento com uma abordagem excessivamente prudente só gera frustração. Empreender exige uma entrega total, onde cada escolha tem peso e cada hesitação pode comprometer o progresso. Não é apenas uma questão de ter uma ideia e testá-la sem compromisso; é um processo contínuo, exigente, repleto de decisões difíceis e de uma necessidade constante de adaptação. Cada passo traz consigo uma nova camada de complexidade, tornando impossível avançar sem um compromisso absoluto. Qualquer margem para dúvidas ou hesitações só aumenta a probabilidade de desistência. E foi precisamente aqui que aprendi uma das primeiras lições deste percurso: a procrastinação pode assumir formas subtis, mascarando-se de produtividade.


O ritmo de trabalho era intenso, os dias preenchidos com tarefas que orbitavam o projeto, e, ainda assim, algo escapava ao meu controlo. Mantinha-me ocupado, constantemente envolvido em atividades ligadas ao negócio, mas, sem dar conta, evitava enfrentar os desafios mais exigentes – aqueles  que, de facto, impulsionariam o projeto. Há sempre tarefas que parecem inadiáveis, pequenos pormenores que dão a ilusão de progresso, mas que, na realidade, apenas adiam o essencial. Passar horas a definir a paleta de cores da identidade visual podia ser motivador, mas isso não alterava o problema fundamental: sem produto, não havia negócio. No início, convenci-me de que estava a tratar de aspetos fundamentais, quando, na verdade, estava a refugiar-me neles. A ilusão de produtividade era confortável, uma distração disfarçada de trabalho estratégico. Ocupava-me com os ajustes na identidade da marca porque isso me afastava da incerteza real – contactar fornecedor@s, testar protótipos, definir custos e aceitar o risco financeiro inerente. Era mais fácil perder-me nestes detalhes do que encarar a possibilidade de falha.


Foi só quando encarei a realidade de frente que percebi que, enquanto continuasse a adiar as decisões críticas, o projeto jamais passaria da fase de planeamento. Essa tomada de consciência não foi imediata nem fácil – foi um processo lento de autodescoberta, onde me vi obrigado a reconhecer que estava a cair numa das formas mais subtis de auto-sabotagem. A chamada procrastinação inteligente. O nome pode sugerir eficiência, quase como se fosse uma forma estratégica de gerir prioridades, mas, na verdade, é um dos maiores entraves para quem está a lançar um negócio. O perigo está no facto de se mascarar de produtividade. São aquelas tarefas que parecem indispensáveis, que dão uma sensação enganadora de progresso, mas que, no fundo, não fazem o projeto avançar. Criar um logótipo, definir a tipografia perfeita, otimizar a estrutura do website – tudo isso pode consumir dias inteiros e transmitir a falsa impressão de que se está a construir algo concreto. Mas sem um produto real, sem algo que possa ser colocado à venda, todas essas tarefas não passam de distrações altamente sofisticadas.


O desenvolvimento de um produto é um processo longo, composto por camadas sucessivas de desafios e descobertas. No início, tudo parece simples: há uma visão clara do que se quer criar, uma confiança ingénua de que a execução será apenas uma questão de seguir os passos certos. Mas rapidamente se percebe que a realidade é muito mais complexa. A diferença entre ter uma ideia e concretizá-la está no trabalho meticuloso que acontece nos bastidores – a pesquisa de mercado que revela concorrentes inesperad@s, a análise detalhada das soluções já existentes, a definição rigorosa das funcionalidades que realmente farão o produto destacar-se, e a escolha criteriosa dos materiais. E quando finalmente parece que essa fase está completa, surge a etapa seguinte: os testes. É aí que a teoria colide com a realidade, e onde cada falha se transforma numa oportunidade (ou num contratempo) para refinar o que ainda não está certo. O conforto de nos perdermos nos pormenores visuais reside no facto de serem decisões sem risco. E foi isso que me levou a perceber que precisava de reorientar o foco para o que realmente importava: tornar a ideia tangível.


O que inicialmente parecia um plano sólido, estruturado e sem falhas, revelou-se um campo minado de imprevistos assim que começou a ser testado na prática. A teoria é sempre elegante, organizada, cheia de certezas, mas a realidade tem uma maneira implacável de expor tudo aquilo que não funciona. Existe um fator que se impõe sem piedade: o dinheiro. Nada disto é gratuito, e cada fase do desenvolvimento consome recursos que não voltam atrás. Ter um conceito inovador é apenas o ponto de partida – sem investimento, tudo permanece como uma ideia num caderno. Mesmo que se tente minimizar despesas, há custos que são impossíveis de evitar. Encomendar amostras, pagar a produção dos primeiros lotes, realizar testes de qualidade, ajustar especificações técnicas, lidar com taxas alfandegárias – tudo isto se acumula rapidamente e pode transformar um orçamento razoável num verdadeiro quebra-cabeças financeiro. E mais do que os valores absolutos, é o impacto dos erros que pesa. Uma falha na especificação de um componente pode traduzir-se em centenas de euros desperdiçados e semanas de atraso.


Foi um choque perceber até que ponto cada decisão financeira podia ter repercussões reais no futuro do projeto. Vou procurando formas de cortar custos sem comprometer a qualidade, mas há uma verdade inevitável: há investimentos que não podem ser contornados, e qualquer tentativa de poupar no essencial pode sair muito mais cara no longo prazo. Construir algo do zero exige investimento. Não há atalhos mágicos, nem truques financeiros que eliminem a necessidade de gastar dinheiro. E se há um erro que pode comprometer o futuro do projeto, é cortar custos nos aspetos errados. Há despesas que podem ser minimizadas, mas há outras que simplesmente não podem ser evitadas sem colocar em risco a qualidade e a credibilidade do produto. É uma linha ténue entre prudência e imprudência, entre ser estratégico e ser excessivamente cauteloso ao ponto de comprometer o próprio potencial de crescimento. Foi com essa consciência que passei o mês de janeiro a tentar definir o verdadeiro diferencial do produto. O que faria com que escolhessem a minha solução familiar em detrimento de qualquer outra?


Um produto só tem valor se conseguir resolver um problema de forma mais eficaz do que qualquer alternativa disponível. Demasiados projetos falham precisamente por isso – por não conseguirem justificar a sua existência para além de um rebranding apelativo ou de um ajuste menor numa funcionalidade já conhecida. Antes de pensar na comercialização, precisava de encontrar um motivo inquestionável para que o Bubtex não fosse apenas mais uma ideia no meio de tantas outras. O que tornaria a minha solução uma escolha incontornável para @s consumidor@s? Afinal, no mercado, há sempre uma oferta vasta e uma concorrência feroz, e se não houvesse um fator distintivo claro, corria o risco de criar algo irrelevante. Foi nesse processo de reflexão que me apercebi de uma verdade essencial: um diferencial não precisa de ser uma revolução tecnológica absoluta. Nem sempre é necessário reinventar a roda para oferecer algo valioso. Muitas vezes, basta uma inovação subtil, uma adaptação estratégica que resolva um problema concreto de forma mais eficaz do que qualquer outra alternativa existente.


No caso do produto que a minha família e eu estamos a desenvolver, o Bubtex, o diferencial não reside apenas no conceito das nanobolhas de ar, mas na forma como esta tecnologia é aplicada para oferecer soluções acessíveis e práticas. O Bubtex está a nascer de uma necessidade real e urgente: melhorar a oxigenação em meios líquidos, um fator determinante em setores como a agricultura, a aquacultura e o tratamento de águas. Através da geração de nanobolhas, conseguimos aumentar de forma significativa a dissolução do oxigénio na água, proporcionando condições mais favoráveis para o crescimento das plantas, melhorando a estrutura do solo e otimizando os sistemas de irrigação sem recorrer a métodos dispendiosos ou de difícil implementação. No mercado, a maioria das soluções existentes exige equipamentos volumosos, difíceis de manusear e de manter, além de representarem um investimento avultado que nem tod@s @s produtor@s podem suportar. Por outro lado, o Bubtex está a ser concebido com um propósito bem definido, posicionando-se como uma alternativa capaz de simplificar processos sem comprometer a qualidade.


O que realmente distingue o Bubtex não é apenas a eficácia da sua tecnologia, mas a forma descomplicada como pode ser utilizado. A sua estrutura compacta e modular permite uma instalação imediata, sem a necessidade de alterações estruturais dispendiosas ou processos técnicos complexos. Seja em sistemas de rega, tanques de aquacultura ou aplicações industriais, a sua adaptabilidade garante que possa ser integrado sem complicações, tornando-se uma solução versátil para diferentes setores. Mas o que realmente reforça o valor do Bubtex é a democratização da tecnologia. Muitos dispositivos inovadores acabam por ficar fora do alcance da maioria d@s pequen@s e médi@s produtor@s, que não dispõem do capital necessário para investir em sistemas sofisticados. O Bubtex quebra essa barreira, tornando possível o acesso a uma tecnologia avançada sem que isso represente um esforço financeiro insustentável. A simplicidade aliada à eficácia transforma este projeto numa proposta diferenciadora. Afinal, o que define um produto como inovador é a sua capacidade de resolver problemas de forma intuitiva, funcional e barata.


Posto isto, a inovação, por si só, é apenas um conceito abstrato, incapaz de gerar impacto sem uma implementação eficiente. Para que o Bubtex se torne uma realidade, é essencial encontrar @s parceir@s cert@s – aquel@s que não apenas compreendam o propósito da tecnologia, mas que também possuam a capacidade técnica e os recursos necessários para a concretizar. Um dos desafios mais exigentes dos últimos meses foi a seleção de um(a) fornecedor(a) que se alinhasse com a nossa visão e garantisse a viabilidade do processo produtivo a longo prazo. A pesquisa levou-nos a explorar diversas possibilidades, cada uma com as suas vantagens e desvantagens. @s fabricantes locais proporcionavam proximidade e um maior controlo sobre a produção, mas os custos eram significativamente mais elevados. Já @s fornecedor@s europeus/europeias apresentavam um equilíbrio entre qualidade e fiabilidade, embora os prazos de entrega e a capacidade de produção não fossem os mais eficientes. Após uma análise minuciosa, decidimos avançar com um fornecedor chinês identificado através da plataforma Alibaba.

 
 
 

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