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Segunda-feira, 27 de abril de 2026

  • 27 de abr.
  • 7 min de leitura

No dia 29 de fevereiro de 2024, registei no meu diário a importância simbólica de ter votado nas eleições legislativas portuguesas a partir do estrangeiro. No entanto, ao reler hoje essa entrada, percebo que a sua maior fragilidade não estava tanto na forma como me descrevi na altura – orientação sexual que já revisitei com maior honestidade e consciência na entrada de 3 de maio de 2025 –, mas em duas outras imprecisões. A primeira foi ter construído aquele voto como uma espécie de “estreia”, quando, na verdade, nunca me abstive e já tinha votado nas legislativas de 2019 e 2022 desde que me mudara para a Dinamarca, embora nessas duas ocasiões ainda o tivesse feito em Portugal, por manter aí a minha morada fiscal. A segunda foi ter confundido votar no estrangeiro com ser, oficialmente, residente no estrangeiro: nesse 29 de fevereiro, fui, de facto, votar ao Consulado pela primeira vez, mas fi-lo ainda com um estatuto quase simbólico de turista, porque, tecnicamente, continuava preso administrativamente a Portugal e ainda não tinha assumido, no papel, aquilo que a minha vida já era na prática.


O reconhecimento como emigrante português/portuguesa só chega agora, quase sete anos depois da mudança, ao assumir finalmente a transferência da minha morada fiscal para a Dinamarca – apesar de já ser residente permanente desde 25 de novembro de 2024 – num gesto que expõe uma verdade mais profunda: o atraso nunca foi administrativo, mas emocional, enraizado na dificuldade em largar Cascais e aceitar, sem reservas, que a minha vida já se constrói fora dele. E porquê agora? Por duas razões claras. A primeira prende-se com a empresa que estou a cofundar, a Bubtex, que foi finalmente registada no mês passado na Dinamarca – em meu nome, ainda por cima – obrigando-me a alinhar a minha situação legal com a realidade, sob pena de criar problemas tanto aqui como em Portugal. A segunda é mais íntima: a casa onde cresci e vivi toda a minha vida, e onde continuo a regressar três a quatro vezes por ano, vai passar a estar arrendada, enquanto @s meus/minhas pais/mães se mudam para Colares, em Sintra, perto da Praia Grande – uma mudança que, de certa forma, fecha um ciclo e redefine o que significa “voltar a casa”.


Nas últimas semanas, tive a oportunidade de sair ligeiramente do meu papel habitual de estudante na Copenhagen Business School e, enquanto Student Assistant no CBS Leadership Centre, acompanhar cursos orientados para o ensino, o que me permitiu ganhar uma perspetiva rara: a do outro lado da sala de aula. Esta mudança revelou-se particularmente relevante num momento em que o ensino superior está a ser profundamente transformado pela inteligência artificial generativa. Foi neste contexto que frequentei o curso “Teaching Writing in the Age of Generative AI”, lecionado por Thomas Basbøll, que não se centrou tanto em ensinar a usar IA, mas antes em preservar a escrita como um processo significativo de aprendizagem – não como a ideia em si, mas como o ato individual de a construir através das palavras. No entanto, esta reflexão não ignora a realidade: dizer aos/às estudantes que não utilizem IA hoje seria tão irrealista como pedir-lhes que vão buscar água ao poço num mundo onde já existe canalização. A questão passa, por isso, a centrar-se em como desenvolver competências na sua presença.


Nesta perspetiva, o conhecimento deixa de ser visto como algo que se acumula e passa a ser entendido como algo que se constrói e internaliza ao longo do tempo, permitindo ação e julgamento. Esta mudança de foco ajuda também a compreender debates atuais na CBS, onde, segundo o relatório anual do CBS AI Board de 2025, muit@s estudantes ainda consideram as diretrizes sobre IA pouco claras, manifestando preocupações quanto ao impacto da transparência no uso destas ferramentas na sua avaliação. Surge, assim, uma tensão entre a promoção da abertura e a necessidade de garantir consistência, que pode gerar hesitação em vez de incentivar um uso responsável. É precisamente aqui que uma das ideias mais fortes do curso ganha relevância: a transparência não deve ser vista como um risco, mas como uma competência académica. Ao explicitar o uso de IA – por exemplo, numa secção metodológica – @ estudante não está apenas a revelar ferramentas, mas a demonstrar capacidade crítica e discernimento. Esta experiência levou-me a repensar bastante o que se quer ensinar quando se pede a alguém que escreva.


No dia 16 de abril, tive um dos melhores dias da minha vida ao ajudar a minha chefe na organização do evento “Pulse & Principles: Leading at the Edge of Complexity”, uma conferência realizada no maior auditório da CBS, que correu de forma irrepreensível, reunindo profissionais de liderança, académic@s e especialistas para repensar o desenvolvimento de liderança num mundo marcado pela complexidade – e sentir que fiz parte desse momento, desde a logística às fotografias, foi profundamente gratificante. No dia seguinte, ainda embalado por esse entusiasmo, fui ao escritório pronto para celebrar, mas acabei por ser confrontado com uma realidade inesperada: o CBS Leadership Centre iria fechar por decisão da Presidência da CBS, e a minha chefe seria afastada de funções durante três meses, antes de sair definitivamente no verão. Ela explicou-me que já tinha conhecimento dessa decisão há semanas, mas que estava à espera do momento mais oportuno para a poder partilhar comigo. Nesse instante, aquilo que parecia ser um ponto alto transformou-se num verdadeiro ponto de viragem.


No meio dessa transição, foi-me dada a oportunidade de continuar na CBS, integrando o Departamento de Organization, onde iniciei funções hoje – novamente como Student Assistant. Mas o momento que antecedeu essa mudança ficou marcado por uma reação quase automática, uma insegurança antiga que julgava já ultrapassada, mas que regressou como um reflexo incontrolável: quando a minha chefe me chamou ao gabinete dela, assumi de imediato que tinha feito algo de errado e que iria ser despedido. Por isso, quando percebi que não se tratava de mim, mas sim do encerramento do centro, senti uma mistura difícil de emoções: um alívio silencioso, uma tristeza genuína por perder uma chefe com quem construí uma relação de confiança e, ao mesmo tempo, uma sensação inesperada de alinhamento – como se o facto de me ter juntado à FLA Leadership, associação onde comecei a fazer voluntariado em março e procuro aplicar na prática o que aprendi no CBS Leadership Centre, tivesse sido um pressentimento de que precisava de continuar ligado à liderança por outras vias.


A minha chefe reforçou essa continuidade, dizendo-me que queria manter contacto, que iríamos jantar de vez em quando, que me escreveria uma carta de recomendação e que poderia sempre contar com ela. E assim, quase de um dia para o outro, passei de um centro profundamente comprometido com o desenvolvimento de liderança responsável – enquanto motor de criação de valor e resposta a desafios globais – para um departamento que estuda as organizações de forma mais ampla e interdisciplinar. Foi uma mudança que não escolhi, mas que, à sua maneira, espelha precisamente a complexidade e imprevisibilidade que discutíamos no evento do dia anterior. Talvez seja esse o verdadeiro teste àquilo que entendemos por liderança: a capacidade de continuar a avançar mesmo quando o caminho muda sem aviso.


Hoje, ao chegar a casa – ainda cansado de um fim de semana passado em Gørløse, uma pequena localidade a norte de Copenhaga, onde estive com o CBS International Choir no Choir Weekend 2026 – e depois de um primeiro dia no meu novo emprego na CBS, já no Departamento de Organization, seguido ainda de uma reunião de estratégia na FLA Leadership, fui à caixa do correio e encontrei duas cartas à minha espera. A primeira, vinda de Portugal e já com a minha morada dinamarquesa, enviada pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, informava-me de que, na sequência da atualização do meu Cartão de Cidadão, fui inscrito no recenseamento eleitoral como residente no estrangeiro, mais concretamente em Copenhaga, passando a estar integrado no círculo da Europa e podendo agora votar a partir daqui sem ter de o fazer como turista.


A segunda carta, dirigida à Bubtex e enviada pela Agência Dinamarquesa para a Digitalização (Digitaliseringsstyrelsen), informava que a empresa foi oficialmente registada no sistema dinamarquês e que, a partir deste momento, passará a receber todas as comunicações das autoridades públicas através do Digital Post – uma caixa digital cuja consulta e monitorização passam a ser da nossa inteira responsabilidade, onde serão enviados prazos, notificações e informações legais relevantes. A decisão de registar a Bubtex na Dinamarca prendeu-se, desde logo, com o facto de o registo ser gratuito para empresas com um(a) únic@ fundador(a) – sendo claro para mim que @s meus/minhas cofundador@s serão integrad@s na estrutura de equity numa fase posterior, quando ajustarmos o modelo societário – mas também com a ambição de aceder a um ecossistema particularmente favorável ao empreendedorismo, com oportunidades de financiamento, grants e vouchers, especialmente no contexto da nossa participação atual no Beyond Beta, o maior acelerador de startups da Dinamarca. A Bubtex está prestes a dar o salto para o próximo patamar!!


Ao olhar para tudo isto em conjunto, torna-se difícil não reconhecer um padrão: entre decisões adiadas, uma orientação sexual que foi sendo compreendida ao seu tempo, mudanças inesperadas e novos começos, este período tem sido menos sobre controlo e mais sobre aceitação. Aceitação de que crescer implica, muitas vezes, alinhar o que somos no papel com aquilo que já somos na prática; de que o futuro raramente segue o plano que desenhámos; e de que, tanto na vida como na aprendizagem, o mais importante não é evitar a incerteza, mas desenvolver a capacidade de agir dentro dela. Quando estava em Cascais, antes de regressar a Copenhaga depois do Natal e do Ano Novo, em janeiro, mal sabia eu que estava a pisar a casa onde cresci pela última vez. Tenho um vídeo, gravado no dia 1 de janeiro, no meu quarto, a tocar uma das minhas músicas preferidas de Taylor Swift, “New Year’s Day”, e sei que o guardarei para sempre – porque foi, sem eu saber, o meu último momento naquele espaço que me viu crescer. O futuro é incerto, mas eu aguentarei. E assim termina mais um capítulo da minha vida.

 
 

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