Segunda-feira, 14 de julho de 2025
- Duarte Carrasco
- 14 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: 9 de set.
Poucos dias depois de assinar um contrato de trabalho com o CBS Leadership Centre, foi publicado o novo ranking global de qualidade de vida e, pela primeira vez em três anos, Viena perdeu o trono. Copenhaga é agora, oficialmente, a melhor cidade do mundo para se viver. Há algo de curioso nesta coincidência: essa validação externa chegou no exato momento em que renovei o meu compromisso com esta terra, por mais um ano. Segurança, educação, infraestruturas – dizem que foram esses os critérios decisivos. Mas, para mim, o que verdadeiramente distingue este país é algo mais invisível: o equilíbrio quase orgânico entre trabalho e vida, a cultura de confiança entre equipas e a estranha leveza com que tudo parece funcionar. Trabalhar aqui é mais do que ter um emprego – é, em muitos casos, ter tempo. Tempo para escrever, cantar, observar, construir coisas novas e estar presente. E talvez seja por isso que não é preciso ser extraordinári@ para encontrar lugar aqui – basta ser coerente, curios@, e ter a vontade de contribuir com intenção. Quero mostrar como é trabalhar na Dinamarca – e porque tant@s querem fazê-lo.
A Konsulenthuset Ballisager recolhe, todos os anos, dados de milhares de empresas dinamarquesas para perceber como realmente funciona o recrutamento neste país. E os números falam por si. Oito em cada dez recrutador@s começam pelo CV, preferem que tenha no máximo duas páginas e valorizam uma apresentação clara, com resultados concretos e um perfil introdutório bem escrito. Curiosamente, 80% das empresas preferem CVs com fotografia – talvez porque, neste modelo de proximidade, o rosto já é parte do gesto. Mas o que mais me surpreendeu foi a força do “mercado invisível”: 76% das empresas já contrataram alguém que se candidatou sem haver vaga. Quando se fala em espontaneidade, o segredo parece estar no tempo certo, na motivação certa e no contacto direto com quem decide – e não tanto em impressionar o departamento de recursos humanos. Há uma cultura de resposta, de escuta, de abertura que desafia a formalidade a que muit@s estão habituad@s. E isso faz-me pensar: quantas oportunidades deixamos escapar por não termos ousado bater à porta antes que ela se abrisse?
O processo clássico de recrutamento na Dinamarca segue, regra geral, quatro etapas bem definidas: anúncio, primeira avaliação, entrevistas, avaliação final e, por fim, a negociação do contrato. No papel, tudo parece linear. Mas, na prática, há um lado mais subtil – e, por vezes, mais duro – que nem sempre se diz: ter as qualificações certas não garante convite para entrevista. Cinco ou seis candidat@s seguem normalmente para a primeira fase, e até chegar à proposta final, podem ser precisas duas ou mais entrevistas, testes de perfil e resolução de casos práticos. E mesmo quando tudo corre bem, o silêncio entre etapas pode ser desconcertante. É aí que entra a paciência – e uma confiança quase teimosa. Curiosamente, muit@s jovens profissionais ganham vantagem quando optam por um caminho menos formal: investigar empresas que admiram, escrever candidaturas espontâneas, ligar diretamente, mostrar interesse antes de haver vaga. Numa cultura que valoriza a iniciativa, quem se apresenta com autenticidade pode furar o ruído. E não será essa, afinal, uma das formas mais icónicas de arranjar emprego?
Há boas notícias para quem, como eu, chegou sem dominar o dinamarquês: não é um entrave tão grande como muit@s imaginam. Segundo o estudo da Konsulenthuset Ballisager, 70% das empresas afirmam ser possível conseguir emprego mesmo falando apenas inglês. Claro que aprender dinamarquês continua a ser uma mais-valia – mas a intenção já conta. Só o facto de te inscreveres num curso de línguas ou mencionares esse plano numa candidatura pode ser visto com bons olhos. Algumas empresas até recomendam aprender a língua em contexto de trabalho – seja num part-time, num estágio ou num emprego não qualificado. E o mais simbólico de tudo? Nenhuma das empresas inquiridas sugeriu procurar trabalho fora da Dinamarca. Isso diz muito. Às vezes, tudo começa por identificar uma empresa que exporta para Portugal ou por responder a um anúncio em inglês, sinal de uma cultura mais aberta. Existem mais de 50 centros de línguas espalhados pelo país, e quase todos os municípios oferecem aulas gratuitas. Porque, mesmo num país ainda mais pequeno do que o nosso, a língua pode abrir espaço para pertencer.
Procurar trabalho é, muitas vezes, um exercício invisível – silencioso, solitário e exigente. É fácil perder o rumo, a energia ou a motivação. Foi por isso que, enquanto me centrava em identificar novas oportunidades, decidi encarar esta fase como um verdadeiro projeto: com metas claras, estrutura definida e um plano semanal que me ajudava a manter o foco e a sanidade. Em vez de me limitar a responder a anúncios, comecei a dividir os meus dias entre tarefas “introvertidas” – como pesquisar empresas, afinar o CV ou repensar o que realmente me motiva – e ações “extrovertidas”, como marcar reuniões informais, contactar profissionais da área ou ligar diretamente a responsáveis de recrutamento. A chave está no equilíbrio entre introspeção e exposição. Uma boa semana começa com clareza de propósito: o que procuro? Qual é o meu plano A – e, se não resultar, qual é o meu plano B ou até C? Organizar a semana como se fosse um guião dá-me margem para agir com intenção, medir progressos e ajustar estratégias. Porque, quando o processo é contínuo, estruturado e honesto, as entrevistas não acontecem por sorte.
Às vezes, subestimamos o poder daquilo que está mesmo à nossa volta. Descobri que o networking não é um privilégio de quem “conhece as pessoas certas”, mas uma habilidade que se cultiva – devagar, com intenção. Na Dinamarca, 57% das empresas dizem usar redes de contactos nos seus processos de recrutamento, e 63% já contrataram alguém através de uma candidatura espontânea. Estes números não mentem: vale a pena falar, perguntar, chegar-se à frente. Comecei por mapear o meu próprio círculo usando o método ABC: o “A” são @s mais próxim@s, família e amig@s chegad@s; o “B” inclui contactos menos frequentes – colegas antig@s, vizinh@s, conhecid@s; e o “C” são aquelas pessoas que ainda não conheço, mas com quem posso vir a construir ligação. Desde então, comecei a contar aos meus círculos o que procurava, os meus interesses e até partilhei o meu CV. Muitas vezes, o melhor conselho ou oportunidade vem de onde menos se espera. E networking, afinal, não acontece só em eventos: pode nascer num café, numa conversa com um(a) colega ou num comentário partilhado no LinkedIn.
Foi precisamente dessa ideia – a de que uma conversa informal pode mudar tudo – que nasceu o meu hábito de marcar cafés com intenção. Na Dinamarca, essa prática é mais comum do que parece: cerca de 65% das empresas privadas recorrem à sua rede pessoal quando recrutam. Com mais de 290 mil empresas registadas no país, isso significa que mais de 190 mil empregador@s encontraram a pessoa certa não através de uma plataforma de recrutamento, mas através de alguém que já conheciam – ou que alguém recomendou. É um lembrete importante: muitas decisões são feitas longe dos holofotes. Mas um coffee meeting não é uma entrevista disfarçada – e não deve ser. Trata-se de criar um espaço de partilha genuína, onde se escuta mais do que se fala, e se aprende mais do que se promove. Antes de cada encontro, defino um propósito claro: compreender melhor um setor, descobrir como as minhas competências podem ser úteis, ou simplesmente recolher conselhos de alguém que admiro. Levo sempre perguntas preparadas, mas deixo margem para o improviso – porque muitas vezes, é no inesperado que está a resposta certa.
Contactar diretamente uma empresa, sem convite formal, pode parecer um dos passos mais difíceis de todo o processo – mas é também um dos mais poderosos. No primeiro trimestre de 2025, mais de metade d@s jovens entre os 15 e os 24 anos que conseguiram emprego na Dinamarca fizeram-no através de networking ou candidaturas espontâneas. E, no entanto, continua a ser o gesto mais adiado por quem procura. Talvez por medo da rejeição, ou por achar que vai parecer forçado. Mas, na verdade, tudo começa com clareza: saber porque se está a ligar, o que se quer perguntar, e o que se pretende obter daquela conversa. Às vezes, não é para pedir emprego – é para conhecer melhor a empresa, perceber como recrutam, ou saber que competências valorizam. Um telefonema pode dar origem a um convite para enviar o CV, marcar um café, ou simplesmente ficar na memória de quem atende. Foi por isso que comecei a preparar pequenas apresentações sobre mim, como se fossem elevator pitches – curtas, honestas e diretas. Afinal, o impacto raramente está no tempo que se fala, mas na intenção com que se diz.
Depois de semanas a enviar candidaturas e a marcar cafés, chega, por vezes sem aviso, o convite que muda tudo: uma entrevista. E é aí que o foco muda – de procurar para preparar. Em contextos como o dinamarquês, a entrevista não é um interrogatório, mas um espaço de diálogo. Ainda assim, exige preparação séria. As empresas dão muito valor à motivação (70% mencionam-na como decisiva), à clareza sobre o que podes contribuir (50%) e à forma como expões os teus exemplos e experiências. Um dos erros mais comuns? Chegar sem conhecer a empresa. Hoje em dia, não há desculpa para não explorar o site, ler notícias recentes ou visitar o perfil da empresa no LinkedIn. Eu costumo imprimir a oferta de emprego e sublinhar dois tipos de frases: as que mostram o que sei fazer, e as que apontam para aquilo que quero aprender. É um exercício simples – mas poderoso. Também investigo quem estará presente na entrevista. Cada pessoa sentada à minha frente tem expectativas diferentes, e se as consigo antecipar, já estou a meio caminho de responder com verdade. Porque o que realmente conta é estar preparado para mostrar quem sou.
Em ambientes como o dinamarquês, espera-se que @s candidat@s conduzam a conversa com naturalidade: falam, em média, 56% do tempo. Não basta preparar respostas – é preciso preparar presença. Pensei, sim, nas perguntas clássicas: quem sou, o que sei fazer, onde posso melhorar. Mas levei também perguntas para fazer – não por estratégia, mas por interesse genuíno: como será um dia nesta função? O que define o sucesso aqui? Que oportunidades existem para aprender, crescer, pertencer? Porque, no fundo, a entrevista não serve apenas para sermos escolhid@s – serve também para escolhermos com consciência. Ao longo dos últimos meses, não aprendi apenas a procurar trabalho. Aprendi a ouvir melhor, a ler os sinais, a traduzir quem sou em palavras verdadeiras. E, embora agora me encontre com um contrato de um ano, mantenho-me disponível para novas possibilidades. Talvez isso seja, afinal, o mais importante: mais do que encontrar uma resposta, estar preparad@ para recomeçar – com mais intenção, mais coragem, e a serenidade de quem já não procura apenas um lugar, mas um propósito que valha a pena ocupar.

Comentários