Quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.
Hoje, o calendário marca uma ocasião rara e especial: o dia 29 de fevereiro, uma data que ocorre apenas de quatro em quatro anos, conferindo ao momento uma singularidade e um motivo de celebração. Encarei este dia atípico com uma ação que, embora rotineira para muit@s, assumiu para mim uma relevância extraordinária: exerci o meu direito de voto nas eleições legislativas portuguesas, uma estreia enquanto residente no estrangeiro. Nesta condição de aspirante a candidato à Presidência da República, seria impensável negligenciar este dever cívico. Afinal, a abstenção representa uma escolha que deixa nas mãos de outr@s a decisão sobre o nosso futuro coletivo, retirando-nos a legitimidade de contestar ou criticar os rumos tomados pelo nosso país. Votar, especialmente num dia tão emblemático como o 29 de fevereiro, vai além da simples participação; simboliza um compromisso ativo com os princípios democráticos e serve como um lembrete de que, independentemente de onde estejamos, a nossa voz é essencial e deve ser ouvida.
Reconheço-me como um homem branco, cisgénero, heterossexual, beneficiando de um rendimento ligeiramente superior à média nacional. Esta realidade confere-me, indubitavelmente, uma posição de privilégio. Este privilégio manifesta-se de várias formas: facilita a minha inserção e progressão no mercado de trabalho, poupa-me a enfrentar discriminação sexual ou racial e protege-me de legislações intrusivas sobre o meu corpo. Estas não foram condições que escolhi, mas são a realidade em que vivo. Se o meu único objetivo fosse maximizar ainda mais este privilégio, a minha escolha eleitoral penderia para a direita, cujas políticas fiscais e económicas poderiam inflacionar os meus rendimentos. Contudo, o meu voto transcende o interesse pessoal. Voto movido pela convicção de que tod@s, independentemente do seu ponto de partida na vida, merecem condições para uma existência digna e plena.
A verdade é que ninguém escolhe onde, como ou em que circunstâncias nasce. Eu poderia ter nascido mulher, negro ou num contexto de guerra, ao invés de Portugal. O meu voto é, portanto, um instrumento para contrabalançar as desigualdades sistémicas que relegam determinados grupos a uma posição de desvantagem numa sociedade ainda marcada pelo preconceito. Aspiro a uma sociedade inclusiva, que não se limite a privilegiar aquel@s que, como eu, nasceram numa posição de vantagem. Ambiciono um mundo onde a classe, a nacionalidade, a cor da pele, o género e a orientação sexual não sejam fatores determinantes do bem-estar de uma pessoa. Anseio por uma sociedade onde não existam trabalhador@s empobrecid@s, onde a pobreza não seja uma maldição hereditária, onde o amor não seja constrangido por normas, e onde a autodeterminação corporal seja um direito inalienável, não só para mulheres, mas também para pessoas não binárias.
Defendo estas causas não porque me afetem diretamente, mas porque acredito no partilhar do privilégio, na distribuição equitativa da prosperidade. Se tod@s vivermos bem, ninguém estará mal. Somos, na essência, mais semelhantes do que diferentes, ainda que existam forças empenhadas em nos fazer crer o contrário. Nas eleições, a minha mente está com @s outr@s, não comigo. Recuso-me a votar movido por ódio ou intolerância. O meu voto é um voto em prol d@s outr@s, um voto pela igualdade, pela solidariedade e pela humanidade. Cresci em Cascais, uma bolha de conforto e tradição, onde raramente se questionava o status quo. Foi apenas ao abraçar a experiência de estudar no estrangeiro que me confrontei com a necessidade urgente de mudança, de questionar e de participar ativamente na sociedade. É imperativo que a Geração Z, a minha geração, se erga como um farol de mudança, demonstrando que é possível, sim, fazer a diferença, seja qual for o palco em que decidamos atuar.
Deslocar-me ao Consulado de Portugal na Dinamarca para exercer o meu direito de voto revelou-se uma experiência marcante e surpreendentemente fluida. O processo estava impecavelmente organizado, transformando o ato de votar numa verdadeira cerimónia cívica, que transbordou em mim um profundo sentimento de orgulho. A simplicidade do processo contrastou com a magnitude da ação: votar no estrangeiro, pela primeira vez, num dia tão atípico como o 29 de fevereiro, conferiu a este gesto uma camada adicional de significado. Afinal, escolher participar, fazer-se ouvir, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância da terra natal, é um ato carregado de responsabilidade e compromisso com o futuro do nosso país. Este momento, embora breve, foi um poderoso lembrete de que a democracia nutre da ação consciente e deliberada de cada cidadão/cidadã, independentemente de onde se encontre.
A Madá e a sua amiga Inês já se instalaram confortavelmente na minha casa. Neste dia cheio, enquanto me dividia entre o estágio, as aulas e o momento importante de ir votar, elas aproveitaram para explorar Malmö, uma encantadora cidade sueca a apenas uma hora de comboio de Copenhaga. No estágio, onde recentemente descobriram o meu talento para as traduções entre inglês e português, fui incumbido de traduzir uma longa lista de documentos. Curiosamente, nunca me senti tão ligado à minha cultura portuguesa estando na Dinamarca como agora: com amigas portuguesas a partilharem o meu espaço, sendo solicitado no trabalho para realizar traduções em português, recentemente eleito membro da Direção da Associação Portuguesa na Dinamarca e, nas redes sociais, encarnando o papel de futuro Presidente de Portugal.
Este intenso envolvimento com a minha língua e cultura leva-me a questionar se é benéfico para a minha experiência internacional estar tão imerso em elementos portugueses. Por um lado, essa proximidade oferece-me conforto e orgulho, servindo como um lembrete constante das minhas raízes e da rica herança cultural que carrego. Por outro lado, pondero se tal proximidade não poderá limitar a minha integração e aprendizagem no Norte da Europa. Contudo, a verdade é que me orgulho profundamente das minhas origens. Conheço alguns/algumas portugues@s aqui na Dinamarca que, por vezes, preferem ocultar ou minimizar a sua origem. Eu, contudo, recuso-me a ser um del@s. Identifico- me como português em primeiro lugar, com todo o orgulho que isso implica, e só depois me defino como Duarte Carrasco. Este patriotismo, agora mais evidente do que nunca na minha vida, é uma força, um elo de ligação entre o meu passado e o meu presente, entre o Duarte que morava em Portugal e o Duarte que representa Portugal no estrangeiro.
A corrupção em Portugal é um problema estrutural profundamente enraizado, decorrente de uma falha crítica na gestão do Estado: a incapacidade de converter os impostos recolhidos em serviços públicos eficientes, apoio ao setor privado e às pessoas. A insatisfação manifesta-se quando @s cidadãos/cidadãs se veem forçad@s a optar pela educação d@s filh@s em estabelecimentos privados para assegurar uma formação de qualidade, apesar da existência de um sistema público; quando recorrem a unidades de saúde privadas face à sobrecarga nas urgências dos hospitais públicos; ou quando constatam que o sistema de pensões é insuficiente, levando-@s a economizar para a própria aposentadoria. Este panorama incentiva muit@s a questionar a eficácia dos seus impostos, considerando a evasão fiscal como uma opção mais vantajosa.
Este ciclo vicioso origina-se de um contrato social deficiente, que falha em satisfazer as expectativas d@s cidadãos/cidadãs, sublinhando uma necessidade premente de reformulação. O contrato social em Portugal necessita de uma revisão profunda para restabelecer a confiança e garantir que o Estado responda eficazmente às necessidades da população. É evidente que nenhum país está completamente isento de corrupção, incluindo a Dinamarca. No entanto, a perceção e o impacto da corrupção são significativamente amplificados em Portugal devido às falhas estruturais do Estado. Refiro-me a uma perda anual estimada em 18 mil milhões de euros, valor que evidencia a gravidade do problema. Para erradicar este flagelo, é imprescindível uma alteração cultural que fomente a consciencialização acerca da importância dos recursos públicos e o papel crucial dos serviços e funcionári@s públic@s na sociedade. Torna-se necessário implementar mecanismos de fiscalização robustos que assegurem a transparência e a responsabilização, eliminando espaços para a corrupção.
Este processo de transformação não será imediato; estima-se que possa demorar décadas, talvez 20, 30 ou 40 anos. Contudo, trata-se de um esforço indispensável para erradicar a cultura de corrupção e reconstruir um sistema em que o dinheiro público seja respeitado como um bem comum, assegurando que tod@s @s cidadãos/cidadãs beneficiem de serviços públicos de qualidade. A jornada para uma mudança significativa é longa, mas representa o único caminho possível para um Portugal mais justo e equitativo. Refletindo sobre esta jornada, percebo que votar no estrangeiro é uma afirmação de que, independentemente da distância, permaneço intrinsecamente ligado aos destinos da minha nação, desejoso de contribuir para a construção de um futuro mais justo, inclusivo e solidário. Encaro este ato de votar como uma manifestação da minha vontade de fazer parte de uma geração que não se resigna perante os desafios, mas que se mobiliza em prol de uma mudança positiva e duradoura.

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