Quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025
- Duarte Carrasco
- 20 de fev.
- 7 min de leitura
Atualizado: 21 de fev.
Para um projeto que ainda se encontra na sua fase inicial, dispersar recursos em múltiplas frentes não faria sentido. A primeira grande decisão que o meu tio, a minha mãe e eu tivemos de tomar foi definir onde aplicar os recursos disponíveis. Entre as várias possibilidades, o setor agrícola revelou-se a escolha mais lógica para a primeira fase do projeto. Os benefícios da oxigenação da água na irrigação são amplamente reconhecidos, e @s agricultor@s estão constantemente à procura de soluções que aumentem a produtividade de forma sustentável. Além disso, este é um mercado habituado a inovações tecnológicas, o que facilita a adoção de novos produtos, especialmente quando estes se apresentam como alternativas mais acessíveis e eficientes em comparação com as soluções tradicionais. A crescente preocupação com a sustentabilidade e a gestão responsável da água também joga a nosso favor, tornando esta aplicação do Bubtex particularmente atrativa para produtor@s que pretendem otimizar os seus sistemas de rega sem recorrer a métodos dispendiosos ou prejudiciais para o meio ambiente.
Escolher a irrigação agrícola permitiu-nos manter os custos de desenvolvimento sob controlo e validar rapidamente o impacto do Bubtex, criando um primeiro caso de sucesso antes de considerar uma expansão para outros setores. A qualidade era um fator inegociável. Se o orçamento já era limitado, pior seria comprometer a eficácia do produto para reduzir custos. A tentação de cortar despesas onde fosse possível era grande, mas havia limites claros. Podíamos abdicar de embalagens sofisticadas, de uma identidade visual mais elaborada, até mesmo de uma estratégia de lançamento ambiciosa, mas não podíamos permitir que a credibilidade do Bubtex fosse colocada em causa. Desde o início, sabíamos que o sucesso do projeto dependeria da performance do produto no terreno. Não adiantava prometer uma solução inovadora se, na prática, esta não cumprisse o que era esperado. Um(a) agricultor(a) não aposta numa tecnologia nova apenas por curiosidade – precisa de resultados concretos e visíveis, algo que justificasse o investimento e que trouxesse um benefício real para a sua produção.
Há um erro recorrente entre @s empreendedor@s: acreditam que um marketing agressivo pode compensar um produto de qualidade duvidosa. O raciocínio, à primeira vista, parece fazer sentido – se a publicidade for bem- -feita, as vendas iniciais podem ser elevadas, criando a ilusão de um sucesso imediato. Mas é um erro de principiante. Uma campanha de marketing pode captar a atenção e gerar curiosidade, mas não consegue sustentar um negócio se o produto não corresponder às expectativas. A longo prazo, um produto deficiente não sobrevive. A experiência d@ cliente é a base de qualquer marca, e um mau produto destrói essa relação antes mesmo de ela se consolidar. O cliente pode comprar uma vez, mas se a experiência for má, dificilmente volta. E, mais do que isso, partilha a sua frustração com outr@s – nos dias de hoje, bastam alguns comentários negativos em redes sociais ou plataformas de avaliação para minar a credibilidade de uma marca. O impacto pode ser devastador, criando uma reputação difícil, senão impossível, de recuperar. Sem uma base sólida de clientes satisfeit@s, não há negócio que resista.
Outro erro clássico de que ouço falar repetidamente é a ausência de um cálculo rigoroso de todos os custos antes de se definir o preço de venda. Muit@s empreendedor@s cometem o erro de olhar apenas para o custo da matéria-prima e da produção, ignorando todas as outras despesas envolvidas na operação. No papel, o preço pode parecer competitivo, mas, na prática, as margens de lucro revelam-se muito mais reduzidas do que o esperado, tornando o negócio insustentável. É um erro fácil de cometer, sobretudo quando o entusiasmo inicial leva a decisões precipitadas. A adrenalina de lançar um produto pode levar a otimismos irrealistas, onde os números são ajustados para encaixar na expectativa e não na realidade financeira. Algumas pessoas acreditam que o volume de vendas compensará margens apertadas, mas subestimam a velocidade com que os custos fixos se acumulam. O resultado? Uma operação que parece promissora, mas que rapidamente se torna inviável. No nosso caso, desde cedo percebemos que não podíamos cair nessa rasteira – cada despesa tinha de ser devidamente calculada para evitar surpresas desagradáveis.
Como o Bubtex será vendido online, um dos fatores mais impactantes na margem financeira será o custo de envio. Cada encomenda enviada representa um custo adicional, e esse valor pode variar significativamente consoante o destino, o peso do produto e as condições negociadas com as transportadoras. Mas o envio não é a única preocupação. O armazenamento do stock também precisa de ser equacionado – dependendo do volume de produção, poderemos ser obrigad@s a alugar espaço para garantir uma logística eficiente. Além disso, haverá custos associados à embalagem, à proteção do produto durante o transporte e até às devoluções, que são inevitáveis em qualquer negócio. Cada uma destas variáveis, quando negligenciada, pode significar uma erosão lenta, mas constante, da margem de negócio. Assim sendo, estamos agora em fevereiro já a antecipar e a preparar-nos para todos estes fatores, garantindo que são incluídos no cálculo antes mesmo de o primeiro produto ser colocado à venda. A última coisa que queremos é comprometer a viabilidade do projeto nos primeiros meses por não termos previsto custos que eram, na verdade, inevitáveis.
Mais à frente, surgirá a questão dos impostos – um dos aspetos mais fáceis de subestimar e, ao mesmo tempo, um dos mais perigosos para a estabilidade financeira do projeto. O IVA, apesar de estar presente em todas as transações comerciais, não deve ser incluído nos cálculos de viabilidade do negócio, pois funciona apenas como um imposto repercutido, que é posteriormente liquidado entre o IVA a receber e o IVA a pagar. O que realmente precisa de ser contabilizado desde o início são os impostos diretos sobre o lucro, como o IRC, assim como os encargos obrigatórios com a segurança social e eventuais taxas alfandegárias para matérias-primas importadas. Estes custos têm um impacto direto na estrutura financeira e, se não forem devidamente antecipados, podem tornar um negócio inviável sem que @s fundador@s percebam o problema a tempo. Além disso, há variações consoante o regime fiscal adotado e o volume de faturação, pelo que compreender estas obrigações e planear a melhor estratégia fiscal desde o início é essencial para evitar surpresas desagradáveis.
Ter um negócio legalmente registado implica custos fixos inegociáveis, que começam muito antes de a primeira venda ser concretizada. Um dos principais é a obrigatoriedade de contratar um(a) contabilista, uma exigência legal para empresas que não estejam sob o regime simplificado de contabilidade. Este serviço representa uma despesa mensal significativa, independentemente de se gerarem receitas ou não, e pode rapidamente tornar-se um encargo pesado para quem ainda não tem um fluxo de caixa estável. Além disso, há os custos iniciais de constituição da empresa, que incluem registos legais, taxas administrativas e eventuais despesas associadas à certificação do negócio. Somam-se ainda as taxas bancárias, pois a abertura de uma conta empresarial é um requisito obrigatório e, ao contrário das contas pessoais, estas normalmente têm custos fixos mensais. Para agravar, há a necessidade de cumprir um conjunto de obrigações fiscais e regulatórias que, por serem desconhecidas por muit@s iniciantes, acabam frequentemente por causar problemas mais tarde.
Declarar corretamente os impostos, emitir faturas com todos os requisitos legais, garantir que a estrutura empresarial escolhida se adequa ao tipo de atividade e ao volume de faturação previsto – tudo isto exige um conhecimento que muit@s empreendedor@s subestimam. Não é apenas uma questão de seguir as regras, mas de evitar complicações que podem resultar em multas inesperadas, restrições legais ou até na inviabilidade do projeto a longo prazo. Abrir uma empresa demasiado cedo pode ser um erro estratégico. Muitas vezes, a opção mais sensata é começar como trabalhador(a) independente, permitindo testar o mercado sem assumir encargos fixos elevados. No entanto, qualquer que seja o caminho escolhido, uma coisa é certa: tudo tem de estar legalmente em ordem desde o primeiro dia. Nenhum negócio pode crescer de forma sustentável se não cumprir todas as exigências fiscais e regulatórias. Desde o registo da marca à escolha da estrutura empresarial, cada decisão deve ser tomada com rigor. O desconhecimento nunca é desculpa para problemas legais.
Desde os primeiros dias, houve uma prioridade que exigiu atenção imediata: proteger a identidade do projeto através do registo da marca. Embora o desenvolvimento do produto fosse o foco principal, percebemos rapidamente que, sem uma proteção legal adequada, todo o esforço poderia ser em vão. O conceito de trademark pode parecer uma formalidade distante para quem está a dar os primeiros passos, mas proteger um nome não é um luxo – é uma necessidade. Sem esta salvaguarda, nada impediria que outra pessoa, com mais recursos ou simplesmente mais astúcia, registasse o nome “Bubtex” antes de nós e nos bloqueasse o caminho, dificultando qualquer tentativa de expansão no futuro. Não havia espaço para hesitações neste aspeto. O processo foi burocrático e exigiu um investimento inicial, mas olhámos para ele como um seguro essencial para a longevidade do projeto. A proteção da marca reforça a credibilidade e o valor do produto no mercado. Foi uma decisão pensada a longo prazo, que nos permitiu avançar com segurança, evitando complicações legais que poderiam comprometer o crescimento da empresa no futuro.
O registo da marca trouxe uma sensação de segurança, mas também me fez perceber que criar um negócio implica lidar com um número surpreendente de pequenos detalhes que podem parecer secundários, mas que, se ignorados, se tornam grandes obstáculos. Mesmo após o registo, houve mais aspetos a considerar: garantir o domínio do site, verificar se o nome estava disponível em todas as redes sociais e proteger a identidade visual. Já ouvi histórias de pessoas que desenvolveram um conceito inovador e, quando finalmente quiseram formalizar a marca, descobriram que alguém se lhes antecipara e registara o nome antes. Algumas foram forçadas a mudar completamente a identidade do seu projeto, o que significou redesenhar logótipos, alterar embalagens e reconstruir a sua presença no mercado. Outras, mais azaradas, tiveram de comprar os direitos do nome a preços exorbitantes, num jogo desigual onde a demora lhes custou a identidade daquilo que tinham criado. Cada um destes passos exigiu tempo, mas não foram meras burocracias – foram pilares essenciais para a consolidação do projeto.

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