Quarta-feira, 11 de outubro de 2023
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de jul.
Era uma vez um Presidente. Não dá para começar este diário de outra forma, desculpem lá. Hoje é um marco indelével na minha jornada em solo dinamarquês e na minha vida académica na CBS. Após quatro anos imerso na cultura, nos estudos e na política estudantil deste prestigiado estabelecimento educacional, eu, Duarte Carrasco, um jovem português que saiu de Cascais em 2019, procurando ampliar horizontes e perspetivas, fui eleito Presidente da CBS United Nations (CBS UN), o clube da ONU da universidade.
A CBS UN não é um clube comum; é um microcosmo que replica os desafios, deliberações e diplomacia encontrados na sede da ONU em Nova Iorque. Este clube permite que estudantes como eu, apaixonados por assuntos globais, direitos humanos e relações internacionais, simulem debates, desenvolvam habilidades de liderança e proponham soluções para crises mundiais, tudo num ambiente seguro e académico.
A Assembleia Geral, onde a eleição teve lugar, era um turbilhão de emoções e expectativas. O evento, meticulosamente orquestrado, exigia que amb@s @s candidat@s – eu e a minha competente e respeitada oponente, Anna – fizéssemos, cada um, um discurso de dois minutos perante @s membr@s, que posteriormente votariam secretamente n@ seu/sua candidat@ preferid@. Enquanto me preparava mentalmente para discursar (eu iria ser o primeiro), os nervos borbulhavam sob a minha pele, a antecipação misturada com a incerteza gerava uma amálgama de ansiedade e excitação na minha mente.
Chegou a vez de ir à frente. Com o olhar de tod@s fixo em mim, respirei fundo e comecei. Cada palavra, cuidadosamente escolhida, traçou imagens de uma CBS UN que almejava inclusão, cooperação e um diálogo aberto entre culturas e disciplinas. As minhas propostas, emanadas da experiência e da introspeção de anos observando e participando das dinâmicas do clube, foram pronunciadas com paixão e autenticidade.
Após os discursos e uma espera que parecia uma eternidade, o resultado foi anunciado: eu havia sido eleito. Naquele momento, uma onda de felicidade e realização inundou-me, atravessando cada fibra do meu ser. Contudo, tão rapidamente quanto surgiu, a alegria foi permeada por uma pontada de solidão, uma reminiscência aguda do isolamento muitas vezes sentido neste país estrangeiro.
O meu post no LinkedIn, que redigi assim que cheguei a casa, mas que, por motivos de estratégia digital, só ficará disponível para o público amanhã às 9:00, foi um misto de gratidão e reflexão: “Para toda a comunidade da CBS UN – o vosso entusiasmo, ideias e espírito de colaboração sempre foram a força motriz por detrás do sucesso do nosso clube. Vamos elevar os nossos diálogos e aprofundar os nossos compromissos. Juntos, vamos criar um ano de iniciativas impactantes e boas memórias.”
Sentado sozinho no meu quarto em Copenhaga, encarando a cidade que se estende abaixo, a solidão tornou-se mais intensa. Aqueles momentos de realização inebriante frequentemente vinham com um desejo de compartilhar a felicidade com alguém que me fosse próxim@. O silêncio do meu telefone era um lembrete tangível da distância que se estendia entre mim e @s meus/minhas entes querid@s em Portugal e nos Estados Unidos.
Revisitei a solidão que havia sido minha companhia constante durante a minha vida inteira, tanto agora no estrangeiro como também em Cascais, vila em que nasci e cresci. Os intervalos nas bibliotecas, as horas passadas a falar com @s professor@s, a falta de convites para festas e saídas à noite no secundário, e as autodescobertas cruciais no estrangeiro moldaram-me, deram-me uma perspetiva única, mas, ao mesmo tempo, também me trouxeram uma solidão que não poderia ser ignorada.
Essa solidão, paradoxalmente, também tinha sido uma mestra. Ensinou-me resiliência, a navegar pelos meandros da vida académica e social, e a manter a cabeça erguida, mesmo quando o caminho parecia incerto e solitário. Abraço todas as partes – tanto as gloriosas como as solitárias – porque todas compõem a história que protagonizo aqui, na Dinamarca, na CBS e no palco internacional que a CBS UN representa.
O futuro estende-se à frente, repleto de possibilidades, desafios e, certamente, mais aprendizagens. E, independentemente das vitórias ou solidões que possam surgir, estou pronto para enfrentá-las, armado com experiências passadas, uma paixão ardente por mudanças positivas e uma alma que, embora às vezes solitária, é incansavelmente resiliente. Como a minha melhor amiga dinamarquesa, a Gargi, eleita hoje de Vice-Presidente, me costuma lembrar: “The Devil works hard, but you work harder.”

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