Domingo, 2 de fevereiro de 2025
- Duarte Carrasco
- 19 de fev.
- 7 min de leitura
Atualizado: 3 de mai.
Ao longo dos meses de outubro e novembro, mergulhei num universo completamente novo, um território que até então me parecia distante, quase intangível. Era como se estivesse a explorar um mapa desconhecido, onde cada nova informação revelava um caminho que eu nem sabia existir. As sessões teóricas não eram apenas aulas comuns, repletas de conceitos abstratos e teorias descoladas da realidade. Pelo contrário, eram verdadeiras imersões num pensamento estratégico que desafiava a forma como eu sempre tinha visto o mundo dos negócios. Circularidade, impacto ambiental das cadeias de produção, economia regenerativa – conceitos que, pouco a pouco, deixaram de ser meras palavras abstratas e passaram a moldar de forma definitiva a minha maneira de pensar. Já não era possível olhar para um produto sem questionar de que materiais era feito, como tinha sido produzido, para onde iria depois de ser usado. Tornou-se impossível ignorar a quantidade de desperdício gerado pela indústria, os modelos de consumo desenfreados e a necessidade urgente de soluções que equilibrassem inovação e responsabilidade ambiental.
A cada sessão, a cada conversa, apercebia-me de que havia toda uma dimensão do empreendedorismo que raramente era discutida nos espaços convencionais. Não bastava criar algo novo e apelativo – era essencial compreender as consequências de cada escolha, desde os materiais utilizados até ao fim do ciclo de vida do produto. O impacto ambiental de um negócio não se resumia apenas a boas intenções ou certificações ecológicas; era um cálculo rigoroso, uma série de decisões interligadas que determinavam se um produto era, de facto, sustentável ou apenas um exercício de marketing verde. Com o tempo, fui percebendo que o empreendedorismo sustentável exigia muito mais do que criatividade e uma boa ideia. Era um exercício constante de equilíbrio entre inovação e viabilidade, entre propósito e pragmatismo. Comecei a ver que a sustentabilidade era uma mudança na forma como se pensava e estruturava um negócio. Sem me dar conta, estava a ser puxado para dentro deste processo, envolvido numa realidade que já não era apenas uma curiosidade intelectual, mas um caminho que começava a fazer sentido para mim.
Em dezembro, concluí que este universo me fascinava mais do que alguma vez poderia ter antecipado. O que, num primeiro momento, me parecia apenas um campo de estudo interessante, algo que eu explorava com curiosidade académica, começou a assumir uma importância diferente, mais concreta, quase inevitável. Deixou de ser apenas uma área de conhecimento que me despertava interesse e passou a ser uma possibilidade real de futuro. A ideia de criar um produto não poderia estar apenas focada em gerar lucro rápido ou em responder a uma tendência passageira. Exigeria visão a longo prazo, decisões calculadas e uma responsabilidade inescapável sobre aquilo que se lançava no mundo. E foi nesse mês, sem que me tivesse dado conta de forma imediata, que comecei a sentir que já não estava apenas a aprender sobre este mundo – estava a entrar nele. O entusiasmo inicial, misturado com a crescente consciência das dificuldades que viriam pela frente, tornou-se num compromisso real. Vi no Deep Green Innovators Programme uma oportunidade que fazia sentido explorar como algo que poderia definir o meu futuro.
Os desafios começaram quando chegou o momento de formar equipas. O programa exigia que cada grupo desenvolvesse um projeto baseado em investigações científicas já existentes, o que, à partida, parecia um processo estimulante. Mas a realidade revelou-se bem mais complicada do que eu esperava. Quando me informaram sobre quem seriam @s meus/minhas colegas de equipa, senti um aperto no estômago. Não foi preciso muito para perceber que a dinâmica entre nós seria tudo menos fácil. O meu grupo seria composto por dois/duas adult@s significativamente mais velh@s do que eu, o que, por si só, já me deixava apreensivo. O primeiro era um alemão sério e reservado, que raramente esboçava um sorriso ou demonstrava entusiasmo. Parecia estar sempre a analisar tudo de forma crítica, como se cada palavra tivesse de passar por um filtro rigoroso antes de ser dita. A segunda era uma mulher dinamarquesa com um estilo meio hippie, um ar desleixado e uma aparência pouco cuidada. Falava muito alto e raramente sabia escutar quem estava ao seu redor. Erámos @s três como água e óleo – impossíveis de misturar… e eu nem sei cozinhar!
Empreender exige mais do que conhecimento técnico ou experiência. Exige uma relação de confiança profunda, um alinhamento que permita que as ideias fluam sem medo de julgamentos. E, desde o primeiro momento, senti que essa sintonia não existia entre nós. Eram pessoas que, por mais inteligentes e competentes que pudessem ser, não me transmitiam qualquer sensação de parceria. Era como se cada um(a) estivesse ali por conta própria, sem qualquer interesse genuíno em construir algo junt@s. A confirmação veio de forma abrupta no primeiro dos vários encontros presenciais do programa. A meio de um exercício de brainstorming já em equipas, para definir o problema em torno do qual cada negócio do programa iria girar, o alemão estava a explicar uma ideia relacionada com a durabilidade limitada das turbinas eólicas, um possível foco para o nosso projeto, quando a dinamarquesa o interrompeu. Mencionou, de repente, outro problema que lhe veio à cabeça enquanto o alemão falava: a poluição sonora causada pelas turbinas, tanto no ar como debaixo de água.
Parecia um comentário inocente, uma simples interjeição num debate que, em teoria, deveria ser construtivo. Mas o que aconteceu a seguir chocou-me. Sem hesitar, o alemão virou-se para a dinamarquesa e disse, num tom seco e agressivo: “Cala-te. Deixa-me terminar.” O ar da sala gelou instantaneamente. Eu gelei também. Nunca, em qualquer trabalho de grupo ou contexto profissional, tinha visto alguém ser tratado assim, sem o mínimo de decoro ou respeito. Fiquei completamente paralisado. Como é que era possível uma pessoa falar daquela maneira a um(a) colega? Como é que esperava que uma equipa funcionasse baseada nesse tipo de dinâmica?A reação dela foi imediata. “Desculpa? Comigo não falas assim.” O tom dela era de desafio, mas também de incredulidade. O desconforto era palpável. A partir desse momento, tudo mudou. O alemão, sem demonstrar qualquer arrependimento, simplesmente ignorou o impacto do que acabara de dizer e continuou a exposição da sua ideia, agora dirigindo-se apenas a mim. A dinamarquesa, por sua vez, cruzou os braços e afastou-se. A conversa terminou ali. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Tinha plena consciência de que algo se tinha partido naquele instante, algo que dificilmente poderia ser reparado. E foi nesse momento que compreendi, com uma clareza brutal, que sem confiança e respeito não há negócio que funcione. Podíamos ter a melhor ideia do mundo, o conceito mais inovador, mas se a equipa não funcionasse, nada daquilo faria sentido. Um negócio não se constrói apenas com estratégia, números e bons produtos – constrói-se, antes de mais, com pessoas. São as relações humanas que determinam se um projeto avança ou implode antes mesmo de sair do papel. E eu sabia, sem qualquer sombra de dúvida, que não conseguiria construir nada ao lado del@s. No final do primeiro encontro presencial do Deep Green Innovators, designado Kickoff de Incubação, fui chamado para uma conversa individual com a Lisa, a coordenadora do programa. Enquanto caminhava até à sala, sentia uma tensão no peito, como se estivesse prestes a ouvir um veredito final que ditaria o meu futuro ali. Tentei manter uma postura calma, mas a verdade é que não fazia ideia do que esperar.
No fundo, temia que a Lisa me dissesse que a minha participação terminava ali, que não havia outra opção senão aceitar aquela equipa ou desistir. A ideia de continuar preso a um grupo onde a comunicação era um campo minado parecia insustentável, mas a alternativa de abandonar o programa era igualmente frustrante. No momento em que ela me deu uma saída, senti um misto de alívio e urgência. Se conseguisse formar um novo grupo, poderia continuar. Nem hesitei. Disse que sim, que iria encontrar uma solução. E, naquele instante, percebi que tinha acabado de receber a oportunidade de redefinir por completo o rumo do meu percurso ali. Não havia tempo para dúvidas ou hesitações – precisava de agir rapidamente. O primeiro passo foi convencer um colega meu da minha faculdade a juntar-se ao projeto. Escolhi cuidadosamente as palavras, realçando o prestígio do programa, a oportunidade de aprender com especialistas e o impacto que poderíamos ter no mundo da sustentabilidade. Usei todos os argumentos possíveis para o atrair, tentando fazer parecer que esta era uma chance imperdível.
Para minha sorte, ele aceitou sem grandes objeções, e senti um alívio imediato. Mas ainda faltava mais um elemento para completar a equipa, e encontrar alguém motivad@ o suficiente para se comprometer com um projeto deste calibre não seria tarefa fácil. Foi então que, por um verdadeiro golpe de sorte, enquanto desabafava por videochamada com a minha mãe sobre tudo o que estava a acontecer, ela fez uma pergunta inesperada, daquelas que mudam tudo num instante: “E se eu e o teu tio formássemos a equipa contigo?”. Por um segundo, achei que estava a brincar, mas rapidamente percebi que falava a sério. A ideia era tão absurda quanto perfeita. El@s já estavam a trabalhar num projeto sustentável em paralelo há cerca de três anos, possuíam mais de vinte anos de experiência agronómica, tanto em produção como investigação e, acima de tudo, eram pessoas em quem eu confiava plenamente. De repente, tudo fez sentido. Aquela não era apenas uma solução viável – era, muito possivelmente, a melhor decisão que poderia tomar. E, apesar de ter de deixar de lado o colega que entretanto tinha convidado, foi por um motivo maior.
O que parecia um revés transformou-se, na verdade, na oportunidade que eu precisava para redefinir tudo. Se, no início, a ideia de mudar de equipa parecia um plano de contingência, agora percebia que era, na verdade, um recomeço necessário. No final de contas, a forma como um projeto começa nem sempre é a forma como ele se desenvolve – e, às vezes, a melhor coisa que nos pode acontecer é sermos obrigad@s a mudar de direção. Se tivesse permanecido na equipa inicial, provavelmente teria passado os meses seguintes a tentar resolver conflitos em vez de avançar com o projeto. Teria perdido energia a contornar problemas interpessoais, a tentar forçar uma dinâmica que simplesmente não funcionava. Em vez disso, ao formar uma nova equipa, encontrei um espaço onde as ideias fluíam naturalmente, onde o entusiasmo era genuíno e onde cada desafio era encarado como um problema a resolver, e não como um campo de batalha. O que parecia um desvio forçado revelou-se a decisão mais certa que poderia tomar. O futuro do projeto tornava-se, pela primeira vez, algo que eu conseguia visualizar com clareza.

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