Domingo, 14 de julho de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 7 min de leitura
Atualizado: 20 de fev.
Ontem à noite, antes de adormecer, ao consultar as redes sociais uma última vez antes de colocar o meu telemóvel de lado, fiquei chocado ao deparar-me, em tempo real, com Donald Trump a ser vítima de um atentado. Vi um vídeo gráfico em que a bala passava-lhe justo ao lado, raspando-lhe na orelha, e o sangue a escorrer. Vi também um vídeo do agressor a ser morto em direto pelos Serviços Secretos dos Estados Unidos da América e uma foto do mesmo já sem vida no chão. Sendo eu uma pessoa sensível, estas imagens ficaram gravadas na minha mente e isso afetou o meu sono. Tentar adormecer custou mais do que o normal devido aos contantes pensamentos intrusivos sobre o pânico e caos que este episódio deve estar a causar no mundo, um episódio que certamente ficará para a História. Durante o sono, o meu coração, acelerado como estava, acabou por reabrir feridas do passado que achava já estarem resolvidas. Revivi um episódio traumático do passado na minha cabeça e hoje acordei todo arrepiado com o despertador a lembrar-me que era hora de ir para o brunch de domingo.
No meu pesadelo, era dezembro. Estava a caminho de um jantar de Natal de trabalho, da empresa em que trabalhava, a associação de estudantes da CBS. Já a meio da viagem, recebo um telefonema de um número dinamarquês não gravado nos meus contactos e decido atender. Ao telefone, ouço uma voz feminina que diz: “Oi, Duarte. Fala a Caroline da CBS Students, a voluntária por detrás da organização do jantar de Natal. Lembras-te que te disse que ainda eras bem-vindo a este evento mesmo depois de perderes as eleições no dia 1? Aparentemente, estava desinformada. Peço imensa desculpa, o Lars, o Chairman da Direção, disse-me para te ligar a informar que o jantar é só para membr@s atuais da CBS Students, algo que tu já não és. Mais uma vez, desculpa.” E desliga-me o telefone sem me deixar responder. Em vez de ir até ao jantar para prestar declarações ao Lars e lutar pelo meu direito naquela mesa, deixo-me ficar no comboio, que me leva a lado nenhum, e vejo a neve a cair da janela à medida que o meu coração vai congelando, resignado à situação, sabendo que não há volta a trás. E acordei.
Se bem se recordam pela história que vos narrei no dia 6 de fevereiro, em 2022, eu, Diretor de Rede na altura, concorri para o cargo de Presidente da CBS Students, um cargo que acreditava estar assegurado devido à minha vasta experiência e dedicação de três anos. Esse cargo significava muito para mim, especialmente porque @ meu/minha únic@ oponente era uma pessoa que não me respeitava e que me tinha magoado diversas vezes ao longo dos últimos anos. Indignado por @ primeir@ Presidente internacional da CBS Students ser o Tomas e não eu, publiquei um texto na minha conta de Instagram pública destinada ao meu público português, onde dizia: “Não acredito que quem obteve o cargo foi um(a) chec@ qualquer vind@ lá da Europa Central e não um(a) português/portuguesa.” Após um ano de muitas turbulências, incluindo colegas invejos@s por eu ter ganho, como sempre, as eleições para o Conselho Académico, cargo ao qual o próprio Lars concorreu e não se qualificou, esse post foi a prova incriminatória perfeita para dar legitimidade ao Chairman da Direção da CBS Students para me demitir do cargo.
Quando um membro da Direção da CBS Students de 2022, Jonas, traduziu palavra por palavra de português para inglês e compartilhou este post com o resto da equipa, a distorção das minhas palavras custou-me muito mais do que um mero emprego, que ia acabar de qualquer maneira no final do mês, quer eu fosse despedido quer não, visto que não tinha sido eleito Presidente e não me tinha candidatado a mais nada porque não queria estar numa organização presidida pelo Tomas. O que realmente me custou foi a minha reputação na escola, temporariamente. Até eu me tornar Presidente da CBS United Nations em outubro do ano passado e a minha reputação ficar completamente restabelecida, provando que eu poderia, sim, ser a cara d@s estudantes numa organização, senti o peso diário dos olhares nos corredores da universidade. Esta experiência dolorosa ensinou-me a importância de refletir profundamente sobre as minhas intenções e o impacto potencial das minhas declarações antes de as tornar públicas. Também me deixou um trauma de não ser convidado para festas de Natal. Só eu para sonhar com o Natal em pleno verão.
Na minha viagem de comboio para ir ter com a minha amiga Gargi, reli, aos 23 anos, o que postei naquela altura, percebendo o quão poderosas e distorcidas podem ser as nossas palavras. A publicação que fiz no Instagram, onde dei a entender um menosprezo pela Europa Central, e sobretudo pela República Checa, quando na verdade o meu desprezo era pelo candidato dessa nacionalidade e não pela nacionalidade em si, foi interpretada de uma maneira que jamais imaginei. Embora a minha intenção fosse expressar o desejo de se ser @ primeir@ estudante internacional a ocupar o cargo de Presidente da associação de estudantes da CBS, essa frase acabou por transmitir uma mensagem de xenofobia e desdém pelas pessoas da Europa Central. Curiosamente, a 27 de janeiro de 2023, o Tomas acabaria por anunciar publicamente a sua renúncia ao cargo. Até hoje, ele mantém o recorde de Presidente por menos tempo na CBS Students, tendo sido Presidente por apenas 37 dias. E, desde a renúncia do Tomas até hoje, nenhum(a) estudante, dinamarquês/dinamarquesa ou internacional, conseguiu ocupar o cargo por um ano completo.
Conversar num ambiente relaxado com a minha amiga, acompanhad@s de raios de sol, raros na Dinamarca mesmo em pleno mês de julho, foi terapêutico. Ajudou-me a processar melhor o facto de que Trump quase perdeu a vida há umas horas devido a um atentado, um dos meus maiores medos, visto que, se há pessoa assumida de “Presidente de Portugal” e a correr atrás de Presidências, sou eu. Para além de termos tido conversas profundas sobre a efemeridade da vida e a imprevisibilidade das coisas, analisámos a situação da CBS Students, após lhe descrever em detalhe não só os flashbacks com que sonhei, mas também os sentimentos que se despoletaram com o pesadelo, para tentar chegar a novos ângulos. Fizemos, como gostamos de chamar, uma “Lean Analysis”, examinando minuciosamente os eventos de uma maneira científica. Concluímos que, no meio de tudo isto, quem realmente ficou a ganhar fomos nós, pois foi durante o meu período de depressão pós-afastamento da associação de estudantes que me tornei próximo da Gargi, e hoje em dia ela é das poucas pessoas em quem confio verdadeiramente.
Os episódios com a CBS Students revelaram-me que muitas pessoas que considerava meus/minhas amig@s só estavam interessadas na posição que eu ocupava. A Gargi, no entanto, mostrou-se uma verdadeira amiga. A conversa analítica de hoje lembrou-me que, um dia, quando deixar de ser Presidente da CBS United Nations, ou membro do Conselho Académico da CBS, ou membro da Direção de Curso do meu mestrado, muitas pessoas também sairão da minha vida. Por isso, o truque é colocar expectativas apenas nas pessoas que realmente significam algo valioso. O post pós-perda de eleições foi o mais formativo da minha vida, levando-me, a curto prazo, a perder o meu primeiro emprego a dias do término do contrato de Diretor de Rede e membro da Equipa Executiva da CBS Students, e a longo prazo, a alterar muitas das minhas atitudes, incluindo o grau de confiança e intimidade que deposito em determinadas pessoas, e a minha perceção da palavra amizade. O tempo é um bem escasso, e devemos apenas utilizá-lo com pessoas que nos façam crescer e rir. E a Gargi é daquelas pessoas com quem nem notas o tempo a passar.
O mês de julho tem sido o mais caótico do meu ano até ao momento. Isto porque, embora o meu estágio na PlanBørnefonden tenha terminado no final de junho, a escola de verão da CBS, onde estou a adiantar cadeiras optativas para ter um horário mais flexível no próximo semestre, começou logo na semana seguinte. Sinto que nunca tenho descanso. No entanto, estou extremamente satisfeito com a experiência do estágio. Tive a sorte de trabalhar durante seis meses lado a lado com colegas brilhantes. Pus em prática as minhas capacidades de pesquisa adquiridas na universidade e aprendi imenso sobre as crises que estão a acontecer neste preciso momento em diversos países em situação de emergência, enquanto formulava propostas de financiamento para angariar fundos com o objetivo de enfrentar essas mesmas crises, sentindo que estava a ter um impacto significativo em tornar o mundo num lugar melhor. Além disso, ainda tive o privilégio de apoiar várias tarefas administrativas, incluindo a prestação de serviços de tradução de inglês para português de guias de Educação Integral em Sexualidade para uso em Moçambique.
Ser estagiário numa das maiores organizações dinamarquesas de direitos das crianças foi uma das melhores vivências da minha vida e fez-me perceber, pela forma como @s meus/minhas colegas me tratavam com respeito e confiança, que sou uma pessoa competente e boa no que faço. Às vezes, até era demasiado requisitado, há que confessar. No meu último dia, tod@s assinaram um postal repleto de mensagens carinhosas de desejos de sucesso e ainda me ofereceram um presente, um livro de culinária, porque sabiam que eu não sabia cozinhar. Esta atitude de gratidão e apreço contrastou imensamente com a forma como fui tratado no meu último dia na CBS Students, após três anos de sangue, suor e lágrimas. Até ter experienciado este verão a sensação de saída com o pé direito, não conseguia entender verdadeiramente o quão problemático tudo com a CBS Students tinha de facto sido. Fico muito orgulhoso de mim próprio por, depois de passar por traumas causados por gentinha que, durante muitos meses, me fizeram acreditar que não havia lugar para mim no mercado de trabalho, finalmente ter sido reconhecido pelo meu valor.
No final do brunch, contei à Gargi as novidades: fui eleito Vice-Presidente d@s International Student Ambassadors da CBS. Ainda nem estou em mim. Agora sou uma Presidência: Presidente da CBS UN e Vice-Presidente d@s ISA! Quem é que é @ xenófob@ agora? Este próximo ano letivo será o MEU ano letivo. Se eu já me sentia a estrela dos corredores da CBS no ano letivo passado, nada será comparável ao próximo. Sinto uma mistura de excitação e responsabilidade, sabendo que agora tenho a oportunidade de influenciar e apoiar estudantes internacionais de uma maneira ainda mais significativa. Enquanto reflito sobre os acontecimentos recentes e as memórias do passado, é reconfortante perceber que, apesar dos desafios e das adversidades, a minha família e @s amig@s verdadeir@s nunca me falharam. Este novo cargo e as oportunidades que traz são um lembrete da minha resiliência e determinação. Mas a verdadeira prova de sucesso está em reconhecer que, quando o mundo todo pareceu virar-me as costas, ainda por cima devido a uma incriminação injusta, quem realmente importa esteve lá para me consolar.

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