Domingo, 11 de fevereiro de 2024
- Duarte Carrasco
- 23 de dez. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.
Esta manhã de domingo distinguiu-se das habituais: despertei com as primeiras luzes do alvorecer, com a Catarina a entreabrir as cortinas do meu quarto, movida pela curiosidade de conhecer a paleta de cores que o céu dinamarquês apresentaria. Não pude deixar de soltar uma gargalhada ao testemunhar o seu ligeiro desapontamento ao deparar-se com o céu encoberto e cinzento, tão típico desta parte do mundo. A nossa amizade começou nos tempos de escola em Cascais, partilhando a rotina diária no mesmo comboio que nos levava ao liceu de São João. Apenas 12 dias separam as nossas datas de nascimento e amb@s nutrimos uma paixão pela Taylor Swift, cujas canções serviam de banda sonora para os nossos verões partilhados, enriquecendo as nossas memórias com melodias que ecoavam os nossos momentos junt@s.
A chegada da Catarina a Copenhaga, ontem à noite, insuflou uma energia renovada na minha rotina, que, aos poucos, se tornava mais introspetiva e isolada nesta cidade. Atualmente dedicando-se ao mestrado em Gestão Estratégica Global na Áustria, a Catarina exala uma energia e curiosidade contagiantes que imediatamente me capturaram. A noite de comemoração da sua chegada, que nos viu a passear pela animada Strøget, partilhando um jantar intimista e imergindo na vida noturna no Chateau Motel, deixou clara a sua ânsia por explorar cada recanto de Copenhaga. Movid@s por essa vontade, mesmo enfrentando os resquícios de uma ressaca, levantámo-nos cedo, determinad@s a explorar a cidade e a descobrir as maravilhas e segredos que esperavam por nós.
Optámos por iniciar o nosso dia com um pequeno-almoço reconfortante em Solbjerg Plads, naquela que carinhosamente apelido de “segunda casa”, a Copenhagen Business School. A serenidade do campus num domingo de manhã contrastava acentuadamente com o frenesim habitual dos dias úteis. Enquanto caminhávamos pelos corredores praticamente vazios, partilhei com a Catarina as aventuras e os obstáculos da minha vida académica, tudo isto enquadrado pela arquitetura contemporânea e os espaços inspiradores do campus. Ter a oportunidade de revisitar estes locais na companhia de uma amiga do tempo do secundário infundiu uma dimensão adicional à minha vivência em Copenhaga, reacendendo recordações queridas e evidenciando o valor inestimável de preservar as ligações do passado.
Após o nosso passeio académico, decidimos aventurar-nos por Christiania, a emblemática cidade livre de Copenhaga, afamada pela sua comunidade artística, arquitetura singular e estilo de vida que desafia convenções. Este recanto é um verdadeiro hino ao espírito livre e à criatividade, onde a arte, o respeito pela natureza e a filosofia de um viver comunal se fundem harmoniosamente. Narrei à Catarina a História fascinante desta comunidade autónoma que, desde a sua origem nos anos 70, tem questionado e redefinido as normas sociais e legais, estabelecendo-se como um símbolo de resistência e inovação social. A atitude liberal de Christiania em relação ao cannabis, comercializado abertamente em certas áreas, embora em desacordo com a legislação dinamarquesa, serve como um dos exemplos mais visíveis da sua postura desafiante, atraindo tanto o escrutínio público quanto o fascínio internacional.
No caminho para Christiania, a vida reservou-nos uma surpresa: cruzámo-nos com a Teresa Seco, aquela minha outra amiga de Cascais que, tal como eu, escolheu Copenhaga para viver. Ela estava a mostrar a cidade aos/às seus/suas prim@s, numa visita turística bem planeada. Foi uma coincidência encantadora – dois cascalenses a servirem de embaixadores de Copenhaga aos/às seus/suas visitantes! Trocámos breves cumprimentos e partilhámos impressões sobre os melhores percursos e destinos a explorar. Enquanto a Teresa se inclinava para mostrar os museus da cidade, numa clara demonstração do seu fascínio pela História e cultura, eu sentia-me mais inclinado a explorar os recantos e os ambientes singulares de Copenhaga, procurando mostrar a rica diversidade de experiências que a cidade tem para oferecer. Assim, cada um(a) de nós adotou uma abordagem distinta na forma de apresentar Copenhaga, ajustada aos interesses e às expectativas d@s noss@s visitantes.
Depois de uma caminhada desde Christiania, eu e a Catarina chegámos a Nyhavn, deixando-nos envolver de imediato pelo ambiente festivo do Fastelavn. Esta festividade tradicional dinamarquesa, que assinala o começo da Quaresma, enche as ruas de uma vivacidade fenomenal, atraindo crianças e adult@s que se vestem a rigor, participando na tradição secular de bater no barril com bastões. Este ato simbólico visa expulsar o inverno e dar as boas-vindas à primavera. As casas pintadas de cores vivas ao longo de Nyhavn e os barcos de madeira compunham o cenário idílico para esta celebração, infundindo o ar com um espírito de renovação e esperança que parecia rejuvenescer a alma de tod@s @s presentes.
A Catarina, visivelmente fascinada por esta experiência inédita, entregou-se de corpo e alma à celebração do Fastelavn, acolhendo com entusiasmo cada costume e tradição que a festa lhe apresentava. Movida pela curiosidade, não hesitou em interagir com @s habitantes locais, procurando compreender a História e o significado intrínseco de cada tradição, enquanto os seus olhos cintilavam de entusiasmo ao explorar uma cultura tão diferente da sua. Por detrás das lentes da minha câmara, fui capaz de captar não somente a luz de alegria genuína que irradiava do seu semblante, mas também a essência cativante do Fastelavn, evidenciando a magia que envolve Nyhavn nesta temporada festiva.
Ao cair da tarde, dirigimo-nos à famosa estátua da Pequena Sereia, um dos símbolos mais emblemáticos de Copenhaga. Diante dessa figura lendária, aninhada à margem do mar, imergimos num profundo momento de reflexão. Sob o carinho das ondas que delicadamente acariciavam os seus pés, tecemos um diálogo entre as histórias intemporais de Hans Christian Andersen e os contornos das nossas próprias vidas e sonhos. Naquele momento, parecia que a própria sereia nos estendia um convite para explorarmos os labirintos dos nossos desejos mais profundos, inspirando-nos com a sua busca incessante por amor e sentido de pertença. Era um convite para refletirmos sobre as nossas jornadas pessoais, encorajando-nos a perseguir os nossos sonhos com a mesma coragem e determinação que define a essência deste icónico conto de fadas dinamarquês.
A nossa odisseia terminou tal como começou: num comboio. Contudo, ao invés de ser aquele que nos levava ao liceu de São João, desta feita, encontrámo-nos num comboio rumo ao aeroporto. Jamais imaginei, naquele primeiro encontro, que acabaríamos por nos tornar amig@s tão próxim@s, a deambular junt@s pelas pitorescas ruas de Copenhaga. A forma como partilhámos risos, descobertas e reflexões nestes breves dias enriqueceu a nossa amizade de uma maneira que palavras mal conseguem descrever. Esta experiência, repleta de aventuras e cumplicidade, ficará gravada no meu coração eternamente, um tesouro de memórias que conservarei com todo o carinho.
Este domingo transcendeu um mero passeio; transformou-se numa jornada emotiva de reencontro, partilha e reenraizamento com uma amiga dos tempos de secundário. A sua companhia trouxe-me um consolo profundamente necessário, dissipando as sombras do isolamento que vinha sentido em Copenhaga há várias semanas. A celebração do Fastelavn, com os seus rituais vibrantes e ambiente jubiloso, proporcionou o pano de fundo ideal para evocarmos os dias de juventude e refletirmos sobre a essencialidade de preservar tradições e amizades, não importa a distância que nos separe. Embora a visita da Catarina tenha sido breve, estes últimos dois dias foram iluminados pela sua presença, reacendendo memórias queridas e sublinhando o valor inestimável dos laços que formamos ao longo da vida.

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