Quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Hoje, regressava a casa depois de um dia particularmente intenso: reuniões sobre a minha possível ida ao Quénia, em outubro, com o meu tio, no contexto da potencial expansão internacional da Bubtex para África; um fórum organizado pela SPOT Nordic, associação de profissionais qualificad@s e investigador@s portugues@s nos países nórdicos, dedicado à diplomacia científica e ao reforço da cooperação entre Portugal, a Dinamarca e a Europa nas áreas da investigação e inovação; e, por fim, um cocktail ao pôr do sol na Residência da Embaixada de Portugal, com o novo embaixador na Dinamarca, Pedro Marinho da Costa, por ocasião da visita a Copenhaga do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, que já conhecera no verão de 2025, no 12.º Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes e Lusófil@s, organizado pela Cap Magellan, que reuniu em Cascais jovens de vários países europeus para refletir sobre a língua e a cultura portuguesas, as diferentes experiências de pertença à diáspora e o papel da nossa geração na construção de um espaço lusófono mais interligado.
Foi nesse regresso que recebi uma mensagem da Yilda, minha ex-namorada, com quem namorei entre janeiro de 2020 e agosto de 2021 e com quem, entretanto, quase deixara de falar – limitava-me a felicitá-la pelo aniversário de vez em quando, gesto que ela, curiosamente, nunca retribuía. Escreveu-me: “Duarte, sonhei contigo! Sonhei que viajava para Portugal e que me recebias. Tinhas alguns presentes e estávamos felizes por nos vermos.” Fiquei genuinamente feliz. Sempre me custou que, apesar de eu ter ido ao Equador visitá-la e conhecido a sua família, ela nunca tivesse vindo a Portugal; naquela altura, aliás, nem sequer conhecia a Europa. Entretanto, esteve em Roma e, quando soube, senti uma inesperada ponta de amargura: teria gostado que a sua primeira experiência europeia tivesse sido no meu país. Reconheço, porém, que pior teria sido saber que estivera em Portugal sem me dizer nada ou sem me incluir, como aconteceu com Roma. Este ano concretizará um grande sonho ao abrir um concerto de Tini, a estrela de “Violetta” que foi, em tempos, a nossa maior ídola – antes de eu vender a alma a Taylor Swift.
Talvez por isso, saber que, mesmo entre horários certamente caóticos e prioridades maiores, sonhou comigo e decidiu escrever-me, tenha adquirido uma importância particular. Respondi-lhe de imediato: “Yilda, tenho pensado muito em ti. És uma peça muito importante do puzzle que é a minha vida. Esta mensagem deixou-me tão feliz. Obrigado por continuares a manter contacto, embora compreenda que talvez te fosse mais fácil não me escreveres. Tenho muito orgulho em ti e continuaria a adorar receber-te, com o teu namorado ou @s teus/tuas pais/mães, tanto em Portugal como na Dinamarca. Fazes parte do meu passado, do meu presente e, espero, também do meu futuro. Não quero, alguma vez, tomar-te por garantida, porque significas muito para mim.” Ela esclareceu: “Não é isso; simplesmente tenho a minha vida e muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo. Mas, agora que sonhei contigo, do nada, perguntei-me se estarias bem, se estaria tudo bem na tua vida.”
Respondi-lhe que sim, graças a Deus, e que tenho conseguido concretizar os meus sonhos, um após outro; admiti também que receara que estivesse demasiado distante, mas que me tranquilizava saber que não guardava grandes ressentimentos em relação a mim. Disse-lhe, por fim, que continuo a cumprir as minhas promessas e que ainda quero voltar um dia ao Equador para a revisitar – a ela, à sua família, à sua prima. Ela encerrou com: “Ressentimento, não. Éramos miúd@s naquela altura. Bem, fico contente por estar tudo bem! Cuida-te muito e continua a crescer.” E eu ainda acrescentei: “Obrigado, linda! Fico feliz por ires conhecer Tini. Tenho mesmo muito orgulho em ti. Continuarei a acompanhar-te.” E assim terminou a interação; depois disso, deixou-me em visto. Há algo que sempre me fascinou na forma como comunicamos: a Yilda é uma pessoa muito assertiva, sabe estabelecer limites e, sobretudo, sabe exercer o poder que tem sobre o rumo de uma conversa. Eu costumava brincar dizendo que ela era o “homem” da relação; ainda hoje é ela quem percebe quando uma troca já não tem mais por onde continuar e deixa só de responder.
Confesso que, mais do que descobrir, em agosto, que a Yilda estivera na Europa sem me dizer nada, me surpreendeu perceber, em junho, que tinha um namorado há já três anos. No dia 29, publicou: “Três anos a sermos a nossa melhor versão. É uma loucura o quanto te amo.” Achei até curiosa a formulação, porque eu e o meu namorado também brincamos com a ideia de que um dos nossos maiores sonhos é tornarmo-nos, juntos, nas nossas melhores versões; foi, aliás, uma das coisas que nos aproximou logo no primeiro encontro, quando começámos a falar das nossas ambições para um casal. Foi através da mãe da Yilda, que partilhou no seu perfil uma notícia de um jornal equatoriano, que soube que a filha iria abrir o concerto de Tini, alguém cujas músicas eu e a Yilda passámos tantas horas a cantar junt@s. Talvez estas pequenas surpresas revelem sobretudo uma dificuldade minha em atualizar mentalmente o lugar que ocupo na sua vida: passar de namorado a ex-namorado implica deixar de ser o destinatário natural de certas notícias. Suponho que seja esse o preço a pagar – e, pensando bem, seria estranho se não fosse.
Mas, por mais breve que tenha sido esta interação com a Yilda – ainda para mais no final de um dia tão, tão longo, deixou-me genuinamente a pensar. Alguém com a ética de trabalho que tenho aparece para trabalhar mesmo quando as ideias não aparecem. Não quero ser a pessoa que rejeita as propostas d@s outr@s sem levar nenhuma para a mesa; sou, por natureza, uma pessoa que responde com “sim, e…”, mais interessada em construir sobre uma possibilidade do que em encontrar razões para a travar. Viver no mundo de 2026, tão imprevisível e mutável, tem-me feito perceber que o entusiasmo funciona quase como um escudo contra as consequências menos agradáveis da exposição a que hoje me sujeito, tanto online como na vida quotidiana de fundador e jovem aspirante a líder. Em termos práticos, a única forma sustentável que encontro para continuar a expor-me e a correr riscos é gostar verdadeiramente do que faço. A liderança, para mim, é uma vocação; não é apenas um trabalho, mas parte daquilo que sou.
Num tempo em que me parece cada vez mais raro assumir integralmente um único compromisso profissional, o meu continua a ser inspirar @s outr@s através das minhas ações. Mesmo quando não gosto da história que contam sobre mim, ou da forma como a contam, nunca me desviei desse propósito; talvez por isso continue a resistir à cultura da ironia e da insinceridade, como se demonstrar empenho fosse motivo de embaraço. É bom tentar, é bom ser realmente bom em alguma coisa, e também é bom falhar precisamente porque se tentou alcançar essa competência ou explorar algo novo. O fracasso faz parte do entusiasmo: é preciso falhar para descobrir razões para recomeçar e, sem entusiasmo, uma derrota pode facilmente transformar-se numa razão para não voltar a tentar. No meu caso, há uma lógica interna que me devolve sempre ao mesmo ponto: gosto demasiado do que faço e reconheço nisso uma vocação, uma estrutura de valores que orienta a minha vida criativa. Quando se ama verdadeiramente alguma coisa e se lhe dá tudo, acredito que ela acaba, de alguma forma, por devolver esse investimento.
Mas é preciso entregares-te por inteiro. Nem toda a gente quer fazê-lo, nem toda a gente deve fazê-lo – e não penso, de todo, que esta seja a forma como tod@s devam viver. Tenho muitas lições e alguma sabedoria para partilhar, e reconheço em mim uma capacidade particular para as traduzir em termos que as pessoas compreendem, muito para lá da política ou dos negócios. Suspeito, aliás, que esta forma de operar se tornará cada vez mais rara à medida que aumentarem os incentivos para encontrar atalhos até ao sucesso; talvez este diário sirva, um dia, para recordar o valor do entusiasmo, da sinceridade, de tentar seriamente, falhar e voltar a tentar. Sei, sem grande margem para dúvida, que depois de um mau dia acaba sempre por chegar algum renascimento criativo. É esta a vida e os tempos de um(a) Presidente: ora se está em cima, ora em baixo. Não tenho medo disso. No essencial, sei que sou movido por esta vocação e que, quando consigo canalizá-la, há sempre qualquer coisa pela qual esperar. Por vezes, porém, certas lições precisam de chegar através de forças externas – até de uma ex particularmente ardilosa.
Bem, voltando à realidade: os últimos meses têm sido brutais. Vi a Belinda, a amiga que conheci quando cheguei aterrorizado à CBS em 2019, concluir o mestrado com a nota máxima, lembrando-me de quanto crescemos desde aqueles primeiros dias em que eu só esperava sair dali com um(a) amig@ verdadeir@. Tornei-me certificado em Carbon Literacy, aproximei-me do ecossistema dinamarquês de water-tech através do Beyond Beta, ganhei o prémio de melhor pitch na Unicorn Summit, em Lisboa, e levei a Bubtex até à TechBBQ, onde tivemos o nosso próprio stand. Pelo meio, continuei as aulas de dinamarquês, voltei a ser voluntário no Roskilde Festival – tradição anual de verão desde 2022 – e mantive-me envolvido em comunidades como a Associação Portuguesa e a FLA Leadership; tudo isto enquanto continuo a trabalhar no Departamento de Organization da CBS. Houve ainda espaço para a dimensão criativa: gravei a paródia “Reger Por Cima”, já concluída e pronta a ser lançada no próximo dia 23. E viajei: fui à Guatemala e ao Panamá. Visto assim, quase custa perceber como coube tudo isto em três meses.
Talvez seja precisamente por tudo estar a acontecer tão depressa que uma mensagem aparentemente insignificante consiga interromper o movimento e obrigar-me a olhar para ele de fora. Tenho passado tanto tempo concentrado no próximo projeto, na próxima viagem, na próxima ideia ou na próxima versão de mim próprio que é fácil confundir avançar com compreender para onde estou a avançar. Hoje, porém, alguém que pertence a uma vida que já não existe da mesma forma apareceu por alguns minutos na vida que estou agora a construir; não para regressar a ela, nem para alterar o lugar de ninguém, mas simplesmente para me lembrar de que crescer também significa aprender a integrar aquilo que ficou para trás. Quero continuar a correr riscos, a entusiasmar-me demasiado, a aparecer e a tentar outra vez, mas também quero conservar a capacidade de parar quando alguma coisa pequena me obriga a pensar. A verdade é que este diário me obriga a não deixar que a velocidade a que vivo ultrapasse a velocidade a que consigo compreender a minha própria vida. Escrever é, afinal, a forma que encontrei de parar sem deixar de avançar.



